Estudos sugerem que lagostas podem sentir dor. Entenda

Um estudo realizado pela da revista Scientific Reports indica que crustáceos reagem a estímulos dolorosos

atualizado

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Imagem colorida de uma lagosta
1 de 1 Imagem colorida de uma lagosta - Foto: Pexels

Cozinhar crustáceos vivos em água fervendo é uma prática comum na culinária dos Estados Unidos e da Ásia. Diante deste fato, uma nova pesquisa da revista Scientific Reports, publicada nessa terça-feira (13/4), reforça as evidências de que lagostas podem sentir dor. O estudo apontou que medicamentos analgésicos usados em humanos reduziram reações de fuga dos animais após estímulos elétricos, sugerindo um processamento neurológico associado à dor.

Os pesquisadores analisaram 105 lagostas-da-Noruega divididas em grupos. Parte dos animais recebeu lidocaína ou aspirina antes do experimento. Após a aplicação de um choque de 9,09 volts por metro durante 10 segundos, as lagostas reagiram com o chamado “batimento de cauda”, o rápido movimento para escapar.

A resposta ao choque foi significativamente menor nos animais tratados com analgésicos.

O resultado indica que o comportamento não é apenas uma reação automática ao estímulo elétrico, mas sim um reflexo ligado à dor. Isso porque, se fosse apenas contração muscular, os medicamentos não teriam efeito na redução da resposta. De acordo com os pesquisadores o fenômeno pode envolver o processo onde os sinais de dano dos animais são enviados ao cérebro, gerando uma experiência negativa.

Somado às outras pesquisas, o estudo indica a capacidade de invertebrados sentirem dor. Trabalhos anteriores mostram que caranguejos-eremitas abandonam suas conchas após choques e que polvos evitam locais associados a ferimentos, preferindo ambientes ligados ao alívio da dor.

Mudanças nas políticas públicas

Países como Noruega, Nova Zelândia, Áustria e regiões da Itália já proibiram a fervura de crustáceos vivos por questões de bem-estar animal. Essas pesquisas influenciaram nas políticas públicas. No Reino Unido, os crustáceos, cefalópodes (polvos e lulas) passaram a ser reconhecidos como sencientes pela legislação baseada em estudos da London School of Economics de 2022, onde a lei determina práticas mais humanizadas no abate.

Nos Estados Unidos, o debate também avança. Estados como Califórnia e Washington já proibiram a criação de polvos, citando práticas consideradas cruéis, enquanto outras regiões avaliam medidas semelhantes. Paralelamente, pesquisadores e a indústria estudam alternativas como o atordoamento elétrico, visto como uma forma potencialmente menos dolorosa.

O sistema das lagostas é comparável ao de vertebrados?

Segundo a professora Giovanna de Carvalho Nardeli, do curso de Biologia da Universidade Católica de Brasília (UCB), lagostas e outros crustáceos possuem um sistema nervoso mais simples e descentralizado quando comparado ao de vertebrados.

“Em vez de um cérebro dominante, eles têm pequenos centros chamados gânglios, distribuídos ao longo do corpo e ligados por um cordão nervoso ventral. Isso permite respostas rápidas e locais, mas com menor integração do que vemos em humanos, por exemplo”, explica.

Apesar dessa diferença estrutural, a especialista destaca que evidências científicas indicam que esses animais podem, sim, sentir dor ou algo muito próximo disso. “Eles apresentam comportamentos complexos, como evitar estímulos nocivos, aprender com experiências negativas e até proteger áreas lesionadas, o que vai além de simples reflexos”, afirma.

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