Entenda a ligação entre desperdiçar comida e as mudanças climáticas
Especialistas revelam que os resíduos de comida são os segundos maiores produtores de metano, um dos gases mais poderosos do efeito estufa

Você já imaginou que o simples ato de jogar comida no lixo pode deixar o planeta mais quente? Apesar de parecer exagero, é uma realidade — de forma direta e indireta. Ao descartarmos alimentos, eles liberam gás metano para a atmosfera, um dos maiores gases de efeito estufa (GEE).
Com a adição do metano vindo dos alimentos desperdiçados, o efeito estufa, responsável por reter calor, aumenta ainda mais sua potência e, consequentemente, torna a Terra mais quente.
“Quando jogamos comida fora, enviamos para a atmosfera os gases que aquecem o planeta. O desperdício de alimentos representa de 8% a 10% das emissões globais de gases de efeito estufa — quase cinco vezes a poluição de todo o setor de aviação no mundo”, revela a pesquisadora Luiza Soares, líder do Programa Brasil Sem Desperdício da ONG WWF-Brasil.
Luiza revela que, no Brasil, o setor de resíduos é o segundo maior emissor de metano atualmente. “Isso reforça a importância de atuar na origem do problema, passando diretamente pela redução do desperdício de alimentos ao longo de toda a cadeia, da produção ao consumo”, diz.
Já de forma indireta, o desperdício da comida também joga fora todos os recursos utilizados desde o processo de produção até a comercialização do alimento, como a água, a terra, a energia e o combustível.
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesAlém disso, a mudança do uso de terra – ou seja, a transformação de uma área natural para um zona para atividades humanas –, diminui o número de florestas e, como consequência, a capacidade do planeta de absorver os gases do efeito estufa.
“Quando os alimentos são desperdiçados, todas essas emissões associadas também são desperdiçadas e ocorrem emissões adicionais durante a decomposição, especialmente em aterros sanitários, onde se produz metano”, explica o professor Carlos Alfredo Joly, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
Dados sobre o desperdício de comida
Dados mostram que um terço dos alimentos produzidos globalmente são perdidos ou desperdiçados, correspondendo a cerca de 30% a 33% da produção total – dessa porcentagem, aproximadamente metade é extraviada ainda nas etapas de produção. Os números são da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO, na sigla em inglês) e do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma).

“No Brasil, um dos maiores desafios é a falta significativa de dados consolidados, atualizados e desagregados sobre perda e desperdício de alimentos ao longo da cadeia. Isso impossibilita soluções direcionadas a possíveis pontos críticos”, alerta Luiza.
Segundo Joly, em números totais, o desperdício de alimentos é quase como deixar uma torneira aberta, visto que a agricultura é responsável por boa parte do consumo de água do planeta. “A agricultura utiliza cerca de 70% da água doce global. Por exemplo, desperdiçar um quilo de carne bovina pode significar desperdiçar 15 mil litros de água”, exemplifica o membro da Academia Brasileira de Ciências (ABC).
Como reduzir os impactos climáticos dos desperdícios
Uma das metas da Organização das Nações Unidas (ONU) é reduzir pela metade o desperdício de alimentos até 2030, uma medida que visa proteger o planeta de mais alterações climáticas no futuro.
Em âmbito nacional, existem várias iniciativas para evitar o descarte sem necessidade de comida, porém muitos atuam de forma isolada, diminuindo os impactos das ações. São necessárias ações simples e eficazes, como:
- Criar mais bancos e redes de doação de alimentos;
- Criar aplicativos de conexão entre excedentes e consumidores;
- Aprimorar tecnologias de embalagens para que os alimentos não se percam tão rapidamente;
- Divulgar campanhas de conscientização do consumidor contra o desperdício e descarte incorreto de comida.
“Reduzir o desperdício é uma das soluções climáticas mais econômicas e imediatamente disponíveis, com benefícios colaterais para os sistemas hídricos, terrestres e sociais”, conclui Joly.



