Saiba se é possível e como se tornar um astronauta no Brasil
O caminho para se tornar astronauta no Brasil não é simples. Com pouco incentivo, é preciso investir em uma formação sólida e internacional
atualizado
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O sonho de se tornar astronauta ainda fascina milhares de brasileiros, mas a realidade da profissão no país está longe de ser simples. Sem um programa nacional ativo de formação, quem deseja seguir a carreira precisa buscar alternativas no exterior, e enfrentar uma jornada longa, competitiva e altamente exigente.
Segundo o procurador-chefe da Agência Espacial Brasileira (AEB) e professor de direito espacial do Centro Universitário de Brasília (Ceub), Ian Grosner, o primeiro passo para quem quer ser astronauta é investir em uma formação sólida.
“Áreas de STEAM (ciência, tecnologia, engenharia, artes e matemática) são fundamentais. Engenharia, física e computação são os cursos mais comuns entre candidatos”, explica.
Formação e preparo: o básico não basta
Além do diploma, o caminho para se tornar astronauta exige experiência prática em pesquisa, domínio do inglês e excelente preparo físico. Grosner destaca que habilidades comportamentais também pesam: saber trabalhar em equipe, ter disciplina e perfil de liderança são diferenciais importantes.
A trajetória do único brasileiro a ir ao espaço, Marcos Pontes, reforça esse cenário. Ele iniciou sua carreira na Academia da Força Aérea (AFA), formou-se engenheiro aeronáutico pelo ITA e ainda fez mestrado nos Estados Unidos antes de ser selecionado. Pontes costuma resumir o desafio de forma direta: “A carreira de astronauta é uma das mais difíceis do planeta”.
Brasil ainda não forma astronautas
Um dos principais obstáculos é estrutural. O Brasil não possui, atualmente, programas ativos para formação ou envio de astronauta ao espaço. A única viagem tripulada brasileira ocorreu em 2006, quando Pontes participou da Missão Centenário.
Na época, ele foi selecionado por meio de uma parceria entre a AEB e a Nasa e treinou no Centro Espacial Johnson. Desde então, o país não voltou a investir diretamente nesse tipo de iniciativa, principalmente por limitações orçamentárias.
Na prática, isso significa que brasileiros interessados precisam tentar vagas em agências internacionais, como a Nasa, que têm processos extremamente seletivos e raros.
O que faz um astronauta além de ir ao espaço
Apesar da imagem popular, o trabalho de um astronauta não se resume a viagens espaciais. Grande parte da atuação ocorre na Terra, em atividades como pesquisa científica, testes tecnológicos e funções administrativas.
Pontes destaca que o voo é apenas uma pequena parte da carreira. “A maior parte do trabalho de um astronauta é feita em terra firme”, afirma.
Mesmo sem enviar um astronauta, o Brasil ainda pode participar de grandes projetos internacionais. De acordo com Grosner, a cooperação é um dos pilares do direito espacial e permite que países contribuam com tecnologia e ciência.
O país já participa com iniciativas como o projeto Space Farming, em parceria com a Embrapa, e o satélite SelenITA, desenvolvido pelo ITA. As contribuições mostram que o Brasil pode ter relevância no setor, ainda que, por enquanto, sem colocar um novo astronauta em órbita.
Vale a pena tentar?
Querer ser astronauta no Brasil hoje é apostar em um caminho incerto. Não existe estrutura nacional, as oportunidades são raríssimas e a concorrência global é brutal.
Isso não significa que seja impossível, mas exige planejamento realista. Sem formação de alto nível, fluência em inglês e experiência internacional, a chance é praticamente nula. Se a ideia for seguir este sonho, é sensato encarar o projeto como de longo prazo, com alternativas de carreira sólidas no meio do caminho.
