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Ciência

Carbono azul: manguezais podem armazenar substância no solo por milênios

Ecossistemas costeiros superam florestas tropicais na retenção de gases e protegem o litoral brasileiro contra a erosão e a poluição

15/10/2026 02:00
Manguezais na comunidade de São Miguel, Baía de Paranaguá, litoral do Paraná
Manguezais na comunidade de São Miguel, Baía de Paranaguá, litoral do Paraná

Essenciais para o equilíbrio do planeta, os manguezais brasileiros armazenam volumes expressivos de carbono azul e protegem as áreas costeiras contra erosão e ressacas extremas.

O ecossistema, que ocupa cerca de 1,4 milhão de hectares no território nacional — com maior concentração no litoral amazônico —, guarda estoques de carbono no solo que podem superar em até duas vezes a capacidade por hectare de florestas tropicais terrestres, segundo estudos do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

Jonata de Arruda Francisco, doutor em Oceanografia Biológica pela Universidade Federal do Pernambuco e pesquisador de pós-doutorado na Universidade Federal do Pará, explica que a retenção da substância ocorre de forma diferenciada.

“O carbono azul é o carbono capturado e armazenado pelos ecossistemas costeiros. No caso dos manguezais, uma característica importante é que grande parte desse carbono fica armazenada no solo, e não apenas na vegetação”, pontua.

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A dinâmica das marés e a composição dos sedimentos são determinantes nesse processo. Nos manguezais, as lamas assumem um papel-chave: elas apresentam baixa disponibilidade de oxigênio e, nessas condições, os microrganismos continuam decompondo a matéria orgânica, mas de maneira lenta.

“Esse conjunto de condições permite que parte do carbono fique armazenada por centenas ou até milhares de anos”, afirma o pesquisador.

Proteção natural da costa e retenção de impactos

A arquitetura das raízes desempenha uma função crucial na proteção do litoral contra a força do mar. O sistema radicular denso amortece a energia mecânica das ondas, prevenindo o desgaste contínuo da linha de costa e retendo sedimentos trazidos do mar e dos rios.

O pesquisador Luiz Drude, do Instituto Nacional de Pesquisas Oceânicas (INPO) e membro titular da Academia Brasileira de Ciências (ABC), destaca a eficiência do ecossistema frente a eventos extremos.

“Os mangues atuam como uma barreira física, além de prenderem os sedimentos em suspensão transportados pela maré, criando mais solos. O reconhecimento da capacidade dos manguezais de protegerem os litorais passou a ter importância global após o tsunami do Oceano Índico em 2004, que demonstrou a capacidade desses ambientes de diminuir a força das ondas e minimizar perdas de vidas e estruturas”, afirma Drude.

Além da proteção contra erosão, o ambiente atua como um filtro biogeoquímico. De acordo com Drude, a ausência de oxigênio nos solos e a atividade microbiana imobilizam contaminantes pesados e nutrientes acumulados.

Ele explica que a decomposição bacteriana e a granulometria fina resultam em um rápido consumo de oxigênio presente nos solos, tornando-os anóxicos. Esse mecanismo os transforma em verdadeiros filtros naturais que dificultam a migração de poluentes para os ambientes costeiros adjacentes.

Pressão imobiliária e os desafios para restauração

Embora sejam protegidos pela legislação brasileira como Áreas de Preservação Permanente (APPs), os manguezais sofrem contínua degradação causada pela especulação imobiliária, derramamento de esgoto e poluição urbana. A ocupação desordenada em regiões estuarinas impede a migração natural da vegetação em resposta à elevação do nível do mar, aprisionando o ecossistema entre as construções humanas e a maré subjacente.

A restauração de áreas degradadas demanda abordagens científicas rigorosas que vão além do simples plantio de mudas. Francisco ressalta que “recuperar um manguezal não é simplesmente plantar mudas”.

Antes disso, é necessário identificar o que provocou sua degradação e compreender como aquele ambiente funciona. “Se as condições hidrológicas estiverem comprometidas, o plantio não produz os resultados esperados”, explica.

O pesquisador destaca ainda o uso de novas metodologias para monitoramento. “Ferramentas como o DNA ambiental podem complementar os levantamentos tradicionais, ajudando a acompanhar as mudanças nas comunidades biológicas ao longo do processo de recuperação, com o apoio fundamental de comunidades locais como pescadores e catadores de caranguejo”, afirma.