Ondas de calor prejudicam relação entre anêmonas e peixes-palhaço
Apesar do branqueamento de anêmonas ser normal, calor tem tornado o fenômeno mais extremo e prejudicado relação com peixes-palhaços
atualizado
Compartilhar notícia

O filme norte-americano Procurando Nemo (2003) retrata a relação mutualística benéfica entre peixes-palhaço (Amphiprion bicinctus) e as anêmonas-do-mar (Radianthus magnifica). No entanto, no mundo real a história parece ser diferente. Pesquisadores descobriram que as populações desses animais vem caindo drasticamente devido às ondas de calor no Mar Vermelho.
A pesquisa foi liderada por cientistas da Universidade de Boston, nos Estados Unidos, em parceria com os da King Abdullah University of Science and Technology, na Arábia Saudita. Os resultados foram publicados na revista científica npj Biodiversity em 12 de setembro.
A relação entre peixes-palhaço e anêmonas é uma das parcerias mais simples e eficazes do mundo animal. Enquanto o peixe “mora” dentro das anêmonas para se proteger de predadores, repelidos pelos tentáculos venenosos do coral, eles também dão proteção e alimentação ao invertebrado. Como possuem mecanismos corporais imunes ao veneno de sua “casa”, os peixinhos vivem tranquilamente por lá.
No entanto, condições adversas podem provocar estresse severo e, consequentemente, o branqueamento das anêmonas, processo que acontece quando microalgas presentes em seus tecidos morrem ou são expelidas, deixando o animal sem sua cor característica.
Caso dure muito tempo, o fenômeno pode matar o invertebrado, pois diminui o fornecimento de nutrientes necessários para sua sobrevivência.
Apesar de ser comum, o novo estudo descobriu que as ondas de calor exacerbadas sentidas no Mar Vermelho estão dificultando a relação entre os peixes e as anêmonas.
“Sempre esperamos que grupos de anêmonas e peixes-palhaço sobrevivam a eventos de branqueamento, como têm acontecido repetidamente nos últimos 10 anos, mas chegou a um ponto em que a situação se tornou extrema demais”, afirma a autora principal do artigo, Morgan Bennett-Smith, em comunicado.
Resultados preocupantes no Mar Vermelho
Liderados por Bennett-Smith, a equipe de pesquisa analisou peixes-palhaços moradores de anêmonas em três recifes do Mar Vermelho, na Arábia Saudita, entre 2022 e 2024, coincidindo com um período de ondas de calor oceânicas extremas em 2023.
No período, todas as anêmonas monitoradas chegaram a ficar seis meses branqueadas. Os pesquisadores estimam que 66 a 94% dos invertebrados morreram e, em consequência, 94% a 100% dos peixes-palhaços também, pois a situação os deixa mais vulneráveis a predadores.
“É especialmente doloroso porque o Mar Vermelho é um lugar que muitos pesquisadores esperavam e hipotetizavam ser um refúgio térmico. Porém, ele não parece ser o lugar seguro que pensávamos”, revela Bennett-Smith.
Segundo o pesquisador, o branqueamento das anêmonas sempre foi um evento normal, porém agora está chegando a níveis alarmantes e prejudicando a relação mutualística entre as duas espécies marinhas. “Isso também deve ser um grande alerta para nós”, diz Bennett-Smith.
Há como salvar os peixes e as anêmonas?
O problema é causado diretamente pela ação humana, visto que as ondas de calor oceânicas cada vez mais quentes são resultado de uma maior absorção de calor vindo da atmosfera. Todo esse processo está sendo intensificado pelo aquecimento global. Sem a adoção de políticas públicas ambientais eficazes, cada vez mais espécies marinhas serão prejudicadas, podendo até ser extintas.
Preocupados, os pesquisadores pretendem avaliar como está o estado de conservação em outras regiões do Mar Vermelho. A morte de peixes-palhaço e anêmonas pode desencadear um efeito cascata preocupante sobre o recife local.
Siga a editoria de Saúde e Ciência no Instagram e fique por dentro de tudo sobre o assunto!




