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Bactérias resistentes a antibióticos são achadas em aves no litoral

Pesquisa detectou bactérias ligadas a infecções graves em humanos e alerta para protocolos de monitoramento

atualizado

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Tamires Aparecida Serra Lorenzi/Unesp, campus São Vicente
Coruja-listrada (Strix hylophila) identificada no estudo como portadora de Escherichia coli multirresistente
1 de 1 Coruja-listrada (Strix hylophila) identificada no estudo como portadora de Escherichia coli multirresistente - Foto: Tamires Aparecida Serra Lorenzi/Unesp, campus São Vicente

Pesquisadores apoiados pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) identificaram clones de bactérias resistentes a antibióticos em aves atendidas no Orquidário Municipal de Santos, no litoral paulista.

O estudo, publicado em 1º de julho na revista Veterinary Research Communications, encontrou cepas de Escherichia coli no trato intestinal de um urubu e de uma coruja. Esses mesmos clones já foram descritos em infecções hospitalares e comunitárias em diferentes partes do mundo.

Escherichia coli é uma bactéria comum do trato intestinal de muitos animais, inclusive humanos. Ela passa a ser um problema quando entra na corrente sanguínea ou causa infecções urinárias e renais, sobretudo em pessoas com o sistema imune comprometido. Nessas situações, clones multirresistentes como esses frequentemente levam à morte”, explicou Fábio Sellera, professor da Universidade Metropolitana de Santos (Unimes) e um dos coordenadores do estudo, em comunicado.

Embora não tenham sido observados sinais clínicos nos animais, os pesquisadores destacam que as descobertas acendem um alerta para a necessidade de criar protocolos específicos de manejo em centros de reabilitação, especialmente antes da devolução da fauna à natureza.

Monitoramento nos centros de reabilitação

As análises mostraram que os genes de resistência estavam presentes em elementos genéticos móveis, que podem ser transferidos a outras bactérias. Isso significa que mesmo microrganismos sem contato prévio com antibióticos ou ambientes poluídos podem se tornar resistentes.

“Essas instalações têm uma grande importância para mitigar os efeitos da ação humana sobre a fauna, mas em nenhum lugar do mundo existem procedimentos baseados em evidências para monitorar, evitar e tratar a colonização por microrganismos resistentes em animais resgatados e reintroduzidos”, afirmou Sellera.

No levantamento, 49 animais silvestres tiveram amostras coletadas. O urubu já chegou colonizado e foi eutanasiado devido a fraturas graves. A coruja, que vive no centro há dez anos após uma colisão, passou por tratamentos com antibióticos e pode ter adquirido a bactéria no local.

Aliados na vigilância epidemiológica

Para os pesquisadores, centros de reabilitação representam uma oportunidade estratégica de vigilância. “Os microrganismos que vivem em animais presentes nesses locais são uma amostragem do que circula na natureza. Além do trabalho fundamental que prestam à vida selvagem, esses centros podem ser aliados no monitoramento de patógenos humanos”, disse Nilton Lincopan, professor do Instituto de Ciências Biomédicas da USP.

Um exemplo vem do Projeto Cetáceos da Costa Branca, no Rio Grande do Norte, que realiza testagens de patógenos em espécies como o peixe-boi. Os pesquisadores estudam formas de descolonização com probióticos antes de devolver os animais ao ambiente natural.

Segundo Sellera, testagens na admissão, isolamento e tentativas de descolonização em animais colonizados poderiam reduzir os riscos de disseminação de bactérias resistentes. “É preciso uma mobilização global e mais investimentos para ampliar a vigilância e estabelecer protocolos de segurança”, concluiu.

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