Metamorfose ambulante: conheça animal que troca de cor segundo o clima
A lebre-americana utiliza o mecanismo de troca de cor como uma forma de se camuflar no ambiente e se livrar de possíveis predadores
atualizado
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Assim que você sai de casa, é comum verificar o clima para saber qual roupa é mais adequada. Apesar de não ter vestimentas como nós, as lebres-americanas (Lepus americanus) conseguem mudar de cor de acordo com a estação do ano.
Quando é inverno, com dias mais curtos, os bichos ficam brancos; quando é verão ou primavera, com os dias mais longos, a coloração muda para marrom-avermelhada. No entanto, isso não quer dizer que o pelo já existente muda de cor: há uma troca da pelagem de acordo com a estação do ano.
“Trata-se de um processo natural de muda de pelagem, comum em vários mamíferos de regiões frias. O sinal que inicia essa troca é o fotoperíodo, que está relacionado à duração do dia e da noite. Conforme os dias ficam mais curtos ou mais longos, o organismo da lebre percebe essa mudança por meio do seu relógio biológico, um sistema interno que responde à luz. Esse sinal ativa uma série de ajustes hormonais que estimulam os folículos dos pelos a produzir pelos novos”, aponta a professora de biologia Elisa Rochedo, do Colégio Católica Brasília.
Como tudo na natureza, existe uma explicação por trás do atributo: a proteção contra predadores. Predominantemente, as lebres são animais de ambientes com neve durante o inverno e ficar da mesma cor do gelo no período ajuda na camuflagem.
Quando a neve vai embora, a terra e as rochas passam a ficar mais aparentes e a coloração marrom-avermelhada é suficiente para “esconder” as lebres e confundir os predadores.
Apesar de grande parte do corpo “dançar conforme a estação”, as orelhas com pontas pretas das lebres permanecem assim durante todo o ano. Elas são consideradas a grande marca registrada dos animais para encontrá-los na natureza.
Lebre e coelho são a mesma coisa?
Constantemente lebres são confundidas com coelhos mas, apesar de serem parentes, ambos possuem algumas diferenças consideráveis. Em comparação com o símbolo da Páscoa, as lebres possuem pernas mais longas e orelhas mais avantajadas.
Quando são atacados, os coelhos permanecem imóveis para se livrar do perigo – o comportamento é conhecido como tanatose. Já as lebres, além da audição aguçada, utilizam a velocidade para fugir do possível predador.

O mecanismo de defesa está totalmente ligado ao seu pé, que é totalmente desproporcional ao corpo. Além de dar velocidade, as patas traseiras são altamente adaptadas para percorrer a neve sem maiores dificuldades.
“As patas traseiras largas e cobertas por pelos funcionam como verdadeiras ‘raquetes’, permitindo que ela se desloque com facilidade sobre a neve”, explica Elisa.
Situação do animal
Como já evidencia o nome, as lebres-americanas são nativas da América, mais especificamente do Norte. É possível encontrar exemplares em florestas pelo Canadá, Alasca e grande parte dos Estados Unidos. Por lá, costumam se alimentar de gramíneas, flores e brotos de árvores.
Geralmente, uma ninhada de lebres fêmeas dá até oito filhotes, sendo que elas costumam dar à luz até quatro vezes por ano. De acordo com a National Wildlife Federation (NWF), a maior organização de conservação ambiental dos Estados Unidos, a grande taxa de reprodução torna o animal como uma espécie classificada em “baixo risco” de extinção.
Por outro lado, o professor de ciências biológicas Julio Cesar de Moura Leite alerta que o aquecimento acelerado das regiões geladas onde vivem os animais pode alterar as condições climáticas e, consequentemente, impactar o comportamento protecional da troca de pelo.
“O aquecimento reduz o período do ano em que há cobertura de neve. Isso pode interferir no equilíbrio estabelecido ao longo de milhões de anos, causando um descompasso entre a coloração das lebres e o cenário ao redor. O principal gatilho fisiológico da mudança de cor (o fotoperíodo) não está adaptado a acompanhar as rápidas alterações do clima”, diz o docente da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR).
Assim, as lebres podem ficar mais vulneráveis a ataques de predadores, causando uma diminuição drástica das populações dos bichos. “Por isso, é essencial estudar as interações entre espécies em detalhe, de maneira a compreender e mitigar os impactos que mudanças climáticas possam causar sobre espécies dependentes de camuflagem sazonal”, finaliza Leite.
