
Famosos candidatos declaram patrimônios que vão de zero a R$ 45 milhões
Enquanto Manoel Gomes passou de R$ 543 mil para nenhum bem, Marcelinho Carioca registrou alta de R$ 43 milhões

O patrimônio declarado por famosos que entraram na política mudou — e muito — de uma eleição para outra. Marcelinho Carioca, por exemplo, informou R$ 2,5 milhões em bens em 2024. Dois anos depois, o valor saltou para R$ 45,3 milhões. Tiririca também aumentou o patrimônio declarado, de R$ 26,8 mil em 2022 para R$ 732,6 mil agora. Já Manoel Gomes, dono do hit “Caneta Azul”, passou de R$ 542 mil declarados na última eleição para nenhum bem registrado em 2026.
Os valores constam nas declarações de bens entregues pelos candidatos à Justiça Eleitoral. O patrimônio informado fica disponível no sistema do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e permite comparar o que cada político declarou em diferentes eleições.
Luiz Gustavo Cunha, advogado especialista em direito eleitoral, lembra que a declaração ao TSE serve justamente para dar transparência perante a Justiça Eleitoral e, principalmente, perante a sociedade. “A própria jurisprudência do TSE reconhece que os eleitores e a sociedade são destinatários diretos dessas informações”, declara.
Marcelinho Carioca

Marcelinho Carioca vai disputar uma vaga na Câmara Legislativa do DF (CLDF) nas eleições de 2026 pelo Republicanos. Ele concorre a cargos eletivos desde 2010, quando concorreu pela primeira vez ao cargo de deputado federal por São Paulo e declarou R$ 704 mil em bens.
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesDesde então, os valores informados à Justiça Eleitoral oscilaram bastante: chegaram a R$ 15 mil em 2018 e 2020. A maior mudança, porém, ocorreu entre 2024 e 2026. Na eleição passada, o ex-jogador declarou R$ 2,5 milhões em patrimônio. Agora, o valor saltou para R$ 45,4 milhões.
O aumento, de quase 18 vezes em dois anos, está relacionado principalmente à inclusão do Atibaia Seven Resort, no interior de São Paulo, avaliado em R$ 40 milhões. Marcelinho também passou a declarar dois carros e cinco flats, que somam R$ 2,87 milhões.
Esta é a primeira vez que o resort aparece na declaração de bens apresentada pelo político ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O empreendimento, no entanto, já aparecia em publicações de Marcelinho desde 2018, quando ele divulgava eventos realizados no local, como exibições de jogos de futebol e festas juninas. O Metrópoles procurou o candidato para saber quando o resort foi adquirido e esclarecer a inclusão do bem na declaração de 2026, mas não obteve resposta até a publicação desta reportagem.
A diferença entre o que consta nas declarações eleitorais, no entanto, não permite concluir, por si só, que houve irregularidade. Os dados apresentados pelos candidatos não passam por uma auditoria prévia da Justiça Eleitoral, e eventuais divergências ou omissões precisam ser analisadas individualmente. Segundo Cunha, uma declaração pode inclusive ser corrigida pelo próprio candidato.
O especialista ressalta que uma eventual omissão de patrimônio também não configura automaticamente crime. “A caracterização do delito depende das particularidades do caso e da potencialidade lesiva da declaração falsa. Portanto, não é correto afirmar que toda omissão patrimonial automaticamente configura crime”, esclarece.
Tiririca

Quando ingressou na política, em 2010, Tiririca não declarou bens ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Eleito deputado federal por São Paulo quatro vezes, o humorista agora tenta retornar à Câmara dos Deputados, desta vez como candidato pelo Ceará e pelo PSD. Em 2026, declarou patrimônio de R$ 732,6 mil.
Entre 2018 e 2022, o patrimônio declarado por Tiririca caiu R$ 453,1 mil, passando de R$ 479,9 mil para R$ 26,8 mil. Nos quatro anos seguintes, porém, houve uma alta de 2.626%, com os bens chegando aos R$ 732,6 mil declarados neste ano. A maior parte do crescimento está relacionada à aquisição de um terreno e de uma casa em Caucaia (CE).
A variação patrimonial também pode estar relacionada a rendimentos obtidos fora da atividade parlamentar. Renato Ribeiro, doutor em Direito do Estado pela Universidade de São Paulo (USP), explica que deputados e vereadores podem manter atividades e fontes de renda privadas, desde que respeitem as restrições impostas pelo cargo.
“Políticos podem receber aluguéis, dividendos, rendimentos de aplicações financeiras e direitos autorais, além de exercer atividades profissionais, artísticas ou empresariais compatíveis com as restrições do cargo”, diz. “A atividade privada não pode comprometer o exercício do mandato nem utilizar a função pública para obter vantagens indevidas.”
Renato Ribeiro, doutor em Direito do Estado pela Universidade de São Paulo (USP)
Marquito

Após sofrer um grave acidente de trânsito em fevereiro de 2026, Marquito disputa uma vaga nas eleições de 2026 pela oitava vez. Agora, o humorista é candidato a deputado estadual por São Paulo pelo PSD. Em 2024, ele foi eleito suplente de vereador da capital paulista.
A primeira vez que Marquito apareceu nas urnas foi em 2004, quando concorreu à Câmara Municipal de Osasco (SP). Na ocasião, declarou não possuir bens. Quatro anos depois, informou um patrimônio de R$ 451 mil.
Em 2026, o humorista declarou R$ 968 mil em bens, 45,03% a mais que os R$ 667 mil informados em 2024. Entre os novos itens estão uma Hyundai Tucson e uma Fiat Toro, que contribuíram para o aumento do patrimônio declarado.
“A declaração eleitoral é uma fotografia patrimonial daquele momento, e não uma demonstração completa da vida financeira do candidato. Assim, tanto um crescimento expressivo quanto uma redução drástica do patrimônio declarado exigem contexto antes de qualquer conclusão jurídica”, explica o advogado Luiz Gustavo Cunha.
Manoel Gomes

Em 2019, o maranhense Manoel Gomes ganhou as redes sociais com a música viral Caneta Azul. Três anos depois, ingressou na política, quando concorreu a deputado estadual pelo Maranhão. Na ocasião, o candidato declarou R$ 542 mil em bens, divididos entre uma caminhonete, uma moto, um imóvel, uma empresa e valores em poupança.
Eleito suplente em 2022, ele volta às eleições, agora para tentar uma vaga na Câmara dos Deputados por São Paulo, pelo Avante. Quatro anos depois de declarar mais de meio milhão de reais, o cantor alega não declarou nenhum bem. Questionada pelo Metrópoles, a assessoria do candidato informou que a declaração está em processo de correção.
Quando um concorrente alega que não possui bens a declarar, isso não quer dizer necessariamente que ele não tenha rendimentos. “É essencial distinguir renda de patrimônio: renda é aquilo que a pessoa recebe; patrimônio corresponde aos bens e direitos que possui. Portanto, uma declaração sem bens não permite concluir, por si só, que a pessoa não tenha renda ou capacidade econômica”, menciona Ribeiro.
Sarah Poncio

Proveniente de uma família de destaque nas redes sociais, Sarah Poncio ingressou na política em 2022, ao se candidatar a deputada estadual no Rio de Janeiro pelo PROS e assumir a vaga em 2025 como suplente. Agora, ela tenta uma nova candidatura para migrar para a Câmara dos Deputados, pelo Solidariedade. Em quatro anos, o patrimônio dela mais que dobrou, com crescimento de aproximadamente 124%.
No primeiro pleito, ela declarou R$ 2 milhões, em comparação com R$ 4,5 milhões em 2026. O salto patrimonial é fortemente influenciado pela entrada de R$ 1,5 milhão em participações societárias, além de mais R$ 100 mil em dinheiro em espécie. O patrimônio ainda conta com cinco imóveis.
Na contramão do crescimento patrimonial, o nome de Sarah Poncio consta na lista de devedores da Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional (PGFN). Ela está vinculada a um débito de R$ 1,7 bilhão, dividido entre 55 pendências e 10 dívidas previdenciárias.
A assessoria da deputada afirma que não há dívidas fiscais em nome da parlamentar e que o valor apresentado pela PGFN se refere a processos antigos envolvendo uma empresa encerrada em 2011. “Sarah Poncio não integra o quadro societário há mais de 10 anos, o que afasta qualquer hipótese de responsabilização”, diz a nota.
Andréa Sorvetão

A ex-paquita Andréa Sorvetão se envolveu em uma disputa judicial com Xuxa por uma dívida de R$ 26 mil relacionada ao período em que morou em um apartamento da apresentadora. Ela também está entre os famosos que declararam redução no patrimônio de uma eleição para outra.
Em 2022, quando foi eleita suplente à Câmara dos Deputados, Andrea declarou R$ 191 mil em bens. Neste ano, a candidata a deputada federal pelo Rio de Janeiro pelo Democracia Cristã informou R$ 144 mil — uma redução de 24,19%. A diferença de R$ 46 mil se deve principalmente à saída de um Renault Dyna da lista de bens declarados.
Datena

Após tentar se eleger prefeito de São Paulo em 2024, o apresentador disputa agora uma vaga de deputado federal pelo PSB. Desde a última eleição, o patrimônio declarado caiu 6,2%, de R$ 38,3 milhões para R$ 35,9 milhões.
A principal mudança foi a retirada de um imóvel em Itajá (GO), avaliado em R$ 6,1 milhões, que constava na declaração de 2024, mas não aparece na lista de bens deste ano. Por outro lado, o valor declarado em um Vida Gerador de Benefício Livre (VGBL), plano de previdência privada, aumentou R$ 3,36 milhões no período.
Adrilles Jorge

Candidato a deputado federal por São Paulo pelo União, o ex-BBB Adrilles Jorge disputa uma eleição pela terceira vez. Na primeira, em 2022, declarou R$ 188 mil em bens, mas não foi eleito. Dois anos depois, foi eleito vereador de São Paulo e informou um patrimônio de R$ 251 mil.
Agora, Adrilles declarou R$ 542 mil em bens, 115,9% a mais que o patrimônio informado em 2024 e 188,3% acima do valor registrado em sua primeira eleição. O aumento de R$ 291 mil desde a última declaração está concentrado principalmente em fundos de investimento, como o Fundo RF Simples Ágil, e em um Certificado de Depósito Bancário (CDB), ambos no Banco do Brasil.
“A atual condição de vereador, que lhe garante, inclusive, salário, o permite arcar com os gastos do cotidiano e fazer maiores investimentos em comparação com os que fazia anteriormente – daí, o resultado da dobra patrimonial”, justificou a equipe do político.
Todos os candidatos foram procurados pelo Metrópoles para comentar a evolução patrimonial declarada ao TSE.

















