Vereador do RJ, Carlos Bolsonaro passou mais de 394 horas no Planalto em 2022

Dados de acesso dos filhos de Bolsonaro no Planalto mostram que o "02" foi mais de 70 vezes ao local no ano que seu pai tentou a reeleição

atualizado 14/03/2023 16:19

Foto colorida de Carlos Bolsonaro e o pai, Jair Bolsonaro, ex-presidente do Brasil Alan Santos / PR

O filho 02 do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), vereador Carlos Bolsonaro (PL) foi 71 vezes ao Palácio do Planalto em 2022. O local de trabalho da Presidência se transformou em um segundo escritório para o vereador, que também acompanhava sessões da Câmara Municipal do Rio de Janeiro (CMRJ) diretamente do Planalto. Em tempo, as duas cidades são separadas por mais de 1.100 km de distância uma da outra.

Dados sobre as visitas ao Palácio do Planalto foram obtidos pelo Metrópoles por meio da Lei de Acesso à Informação. 

Ao longo do mandato de Bolsonaro, era comum que o vereador do Rio de Janeiro passasse o dia inteiro no endereço de trabalho da Presidência. Sua primeira visita ao Planalto em 2022 é um exemplo disso, quando Carlos entrou às 10h35 e saiu às 20h13 no dia 6 janeiro. No total, o vereador da CMRJ Carlos Bolsonaro passou mais de 394 horas no Planalto, em Brasília no último ano. Durante todo o mandato, Carlos foi 166 vezes ao local.

Eleito vereador do município do Rio de Janeiro aos 17 anos, Carlos Bolsonaro já ocupa o cargo desde 2000, com mandato até 2024. Além de seu cargo eletivo, o filho “02” vem atuando desde 2018 informalmente como uma espécie de “assessor” de seu pai, coordenando a comunicação do ex-presidente Jair Bolsonaro.

Com as duas atribuições, os serviços como vereador e conselheiro do ex-presidente se misturaram diversas vezes. Durante os quatro anos em que o pai esteve no poder, o vereador esteve no Planalto em horários de sessões da CMRJ em 32 dias. 

Apesar disso, a lista de presença da Câmara Municipal informa que o vereador só faltou à uma sessão desde 2019, pois o regimento interno da Casa permitia a participação remota em sessões até maio de 2022. Deste modo, o vereador podia trabalhar diretamente do Planalto, enquanto as sessões aconteciam no Rio de Janeiro.

No período eleitoral, Carlos Bolsonaro foi o filho que mais visitou o Palácio do Planalto, ficando à frente até de Flávio Bolsonaro, coordenador da campanha do pai. Foram 39 registros de entrada do vereador, e 24 do senador. O “02” foi o responsável por comandar a comunicação de Bolsonaro durante a campanha de 2018 à Presidência e na campanha à reeleição em 2022 não foi diferente.

O vereador inclusive entrou de licença duas vezes na Câmara Municipal durante o período para se concentrar na campanha do pai. A primeira licença sem remuneração durou do dia 2 agosto até 30 de setembro, e a segunda foi do dia 1º até 30 de outubro, data do segundo turno.

A liberdade que o “02” tinha era tanta, que também era comum que Carlos entrasse e saísse do Planalto inclusive quando Jair Bolsonaro não estava presente em seu local de trabalho. Durante a campanha, o fato se repetiu quatro vezes: no dia 18 de agosto Bolsonaro, dia 31 de agosto, dia 13 de setembro e também no 16 de setembro. 

Em todas essas datas, o presidente à época viajava para compromissos de campanha, enquanto seu filho despachava diretamente do Palácio do Planalto.

Desinformação dentro do Planalto

Carlos Bolsonaro ficou conhecido pelas suas publicações agressivas nas redes sociais. Além disso, o filho do presidente já foi apontado como uma peça central em um suposto esquema de desinformação nas redes sociais, envolvendo perfis de apoiadores da família Bolsonaro em uma investigação aberta pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

A publicação de desinformações pelo vereador chegou a acontecer inclusive dentro do Palácio do Planalto. Em plena campanha, no dia 30 de agosto de 2022, Carlos usou suas redes para atacar o colunista do Uol, Julián Fuks. No tuíte, o filho “02” divulgou notícia que afirma que o jornalista defendia a contratação de um terrorista para atrapalhar as manifestações no 7 de setembro.

Como declarou a Abraji por meio de nota, “No texto original, o colunista usou a palavra “terrorista” em sentido figurado e evocou uma ação “poética” contra a violência e a brutalidade.”

O compartilhamento foi feito às 12h36, em 30 de agosto.Os registros de entrada do mostram que, na mesma data, Carlos Bolsonaro passou o dia no Planalto das 11h30 até 19h51.

Já no ritmo do segundo turno, Carlos usou novamente as instalações da Presidência para compartilhar desinformações em suas redes. No dia de 7 outubro, o filho de Bolsonaro publicou um vídeo que tira uma fala do atual ex-ministro da Fazenda, Fernando Haddad, de contexto, dando a entender que ele defenderia fuzilamentos feitos durante o regime comunista de Josef Stalin

Checagens de fatos do SBT e Folha mostraram que  Haddad citou Stalin e Hitler para fazer uma crítica à “involução” dos que questionavam o livro sem ler. A fala é de 2011, quando ele foi convocado para responder a críticas ao livro didático “Por uma Vida Melhor”.

Entenda

O governo Bolsonaro impôs o sigilo sobre os dados de acesso ao Palácio do Planalto de Eduardo Bolsonaro, Carlos Bolsonaro, Flávio Bolsonaro e Jair Renan Bolsonaro em julho de 2021.

Os dados de entrada e saída dos crachás foram fornecidos pelo GSI e obtidos pelo Metrópoles por meio da Lei de Acesso à Informação.

O pedido foi feito pelo Metrópoles ainda em novembro do ano passado. O acesso às informações foi negado três vezes pelo Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República (GSI), sob a justificativa que os registros de acesso às instalações presidenciais dos familiares do Presidente estavam classificados com o grau de sigilo “Reservado”.

Já no início de março deste ano a CGU decidiu tornar os dados públicos. A Controladoria argumentou que a justificativa usada para classificar as informações expirou após o fim do mandato do ex-presidente Bolsonaro e desse modo, “deve prevalecer o princípio da transparência sobre as informações solicitadas”.

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