Venenos fatais usados em crimes recentes têm fácil acesso na internet
Produtos utilizados em envenenamentos recentes que resultaram em mortes de pessoas são vendidos na internet
atualizado
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Produtos químicos que podem ser usados para o envenenamento de pessoas estão acessíveis a um click na internet. A reportagem do Metrópoles pesquisou venenos fatais comuns em casos de crimes e verificou que eles podem ser comprados remotamente, sem qualquer tipo de restrição.
Substâncias químicas ganharam o noticiário recentemente após a morte de pessoas que foram envenenadas. Um dos casos que chocaram o país foi o envenenamento proposital de uma família em Parnaíba, no litoral do Piauí. Do grupo, cinco morreram e três tiveram alta hospitalar.
No caso da família envenenada no Piauí, um laudo do Departamento de Polícia Científica do Piauí revelou a presença de veneno em um alimento consumido pelo grupo. A substância é a base de pesticidas utilizados na agricultura.
Em uma busca na internet, o Metrópoles encontrou o produto à venda para entrega sem exigência de qualquer documentação. A substância é encontrada em um veneno vendido ilegalmente como raticida. Há quem desvie a finalidade de pesticidas à base da substância e outros compostos na apresentação granulada para a venda como um raticida ilegal, o que é proibido.
Presidente da Sociedade Brasileira de Toxicologia, Rafael Lanaro explicou que a substância inibe a enzima acetilcolinesterase – de vital importância para a propagação do impulso nervoso e para a contração muscular.
“Isso resulta em sintomas muscarínicos como salivação, lacrimejamento, broncorreia, nicotínicos que se apresentam como fraqueza muscular, fasciculações (contrações musculares) e centrais: confusão e convulsões. A morte ocorre por insuficiência respiratória ou parada cardíaca”, explica.
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) respondeu, por meio de nota, que a venda de agrotóxicos exige a apresentação de receituário agronômico.
Outras substâncias
Outra substância já utilizada para envenenar é facilmente encontrada na internet sob apresentações distintas de insumos químicos. Utilizada como reagente em laboratórios, por exemplo, pode ser adquirida e recebida em casa, sem qualquer tipo de restrição.
Quando exposto à substância, o ser humano pode sofrer danos na oxigenação. “A intoxicação aguda causa gastroenterite severa, hipotensão, arritmias e falência de órgãos. Exposições crônicas podem levar a câncer e neuropatia periférica”, lista Lanaro.
No dia 23 de dezembro de 2024, uma família foi envenenada ao consumir um bolo em Torres (RS). Três delas morreram e outras três precisaram de internação.
Dentre a gama de substâncias que podem ser usadas como veneno, há ainda uma que é usada em revestimento de prata, por exemplo. Apresentações diferentes da substância podem levar a problemas na oxigenação e morte. Ela também está à venda na internet. Não há controle para a aquisição.
Procurado pela reportagem, o Exército, que faz o controle de algumas substâncias, respondeu que as pessoas físicas ou jurídicas que exercem atividades relacionadas à prestação de atividade que usem a substância precisam efetuar um cadastro obrigatório.
O Exército acrescentou que a responsabilidade por investigações sobre o uso criminoso da substância, como “ilegalidades que envolvem delitos cibernéticos”, não cabe à instituição. “São de responsabilidade de órgãos especializados em segurança digital.”
Aprimoramento
Rafael Lanaro afirma que, para melhorar o controle destas substâncias, cabe a implantação de uma série de ações, como fortalecer a integração entre órgãos públicos. “Colaboração mais eficiente entre a Anvisa, Polícia Federal (PF), Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), Ministério da Saúde (MS) e Vigilância Sanitária Estadual/Municipal”, lista ele.
O especialista acrescenta ainda ser necessária a estruturação de canais eficientes de denúncia, a intensificação de inspeções em estabelecimentos que utilizem os produtos e também faça uma revisão na legislação.
