Venda de cloroquina subiu 47% em 2020; de azitromicina, 105%

Dados da Anvisa mostram avanço das vendas entre 2019 e 2020. CPI da Covid investiga recomendação do governo para uso das drogas

atualizado 27/07/2021 8:41

cloroquinaDivulgação/Ministério da Defesa

Ineficazes contra a Covid-19, remédios propagados como “coringas” para combater a doença causada pelo novo coronavírus ganharam as farmacinhas caseiras do brasileiro e explodiram em vendas no primeiro ano da pandemia.

Medicamentos como cloroquina, hidroxicloroquina e azitromicina venderam muito além do normal no ano passado. Os dados foram consolidados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). A alta, porém, começou há seis anos (veja lista abaixo).

A comercialização de cloroquina, por exemplo, subiu 47%. Passou de 1.553.878 embalagens vendidas em 2019, para 2.296.693, no ano passado.

No caso da azitromicina, o aumento foi de 105% no mesmo período: de 28.153.437 para 57.861.866 entre 2019 e o ano passado.

Apesar da arrancada causada pela pandemia, a alta na venda desses medicamentos é constante desde 2015. No caso da cloroquina, em cinco anos, houve crescimento de 130,7%, por exemplo.

Esse volume não leva em consideração os comprimidos produzidos pelo Exército. O Ministério da Defesa gastou ao menos R$ 1 milhão para fazer o remédio. A Anvisa ainda não tem os dados das vendas de 2021.

A cloroquina é comumente usada no tratamento da malária. A azitromicina é administrada na terapia de infecções causadas por bactérias, como faringite e amigdalite. Ambas as drogas não servem para combater a Covid-19, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS).

Veja aumento na venda de cloroquina, hidroxicloroquina e azitromicina por ano:  

Cloroquina e hidroxicloroquina

  • 2015 – 995.105
  • 2016 – 1.061.036
  • 2017 – 1.285.945
  • 2018 – 1.301.372
  • 2019 – 1.553.878
  • 2020 – 2.296.693

Azitromicina

  • 2015 – 21.855.200
  • 2016 – 24.045.452
  • 2017 – 26.114.608
  • 2018 – 27.742.420
  • 2019 – 28.153.437
  • 2020 – 57.861.866

A recomendação do uso dessas drogas é investigada pela CPI da Covid no Senado. Os parlamentares averiguam se o Ministério da Saúde indicou a administração dos remédios durante a crise em Manaus, no início do ano.

Além disso, falas de parlamentares governistas, ministros e mesmo do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) são alvo de críticas e de análise dos senadores.

Nesta semana, Bolsonaro saiu em defesa da cloroquina mais uma vez. “Eu tomei a cloroquina, mais de 200 pessoas tomaram, aqui na Presidência, e ninguém foi a óbito”, argumentou, mais uma vez, o mandatário da República.

Uso e regras para compra

A cloroquina e a hidroxicloroquina sempre estiveram sujeitas a receita simples, aquela em uma via, já que são fármacos que necessitam de prescrição médica. No contexto da pandemia, a Anvisa editou algumas normas adicionais, com a exigência de receita em duas vias, de forma a coibir a venda irregular e o risco de desabastecimento.

“Até o momento, esses dois medicamentos permanecem com sua venda condicionada à apresentação de receita médica simples em duas vias”, destaca a Anvisa, em nota. O endurecimento da regra ocorreu em julho de 2020.

A azitromicina é um antibiótico, e a venda só pode ser feita com retenção de receita específica e notificação em sistema para remédios com controle especial.

“A exigência de receita especial para a venda de antibióticos no Brasil existe desde 2010 e vem sendo atualizada desde então”, explica a agência reguladora em nota.

Remédios indicados

A Anvisa é categórica: as únicas medicações com aprovação em bula para o tratamento de quadros de Covid-19 são: Rendesivir e duas associações de anticorpos monoclonais (veja em detalhe abaixo).

Veja remédios autorizados para o tratamento da Covid-19:

  • O Remdesivir teve o registro concedido pela Agência em março deste ano.
  • Associação de anticorpos monoclonais (casirivimabe + imdevimabe), produzidos pelas farmacêuticas Regeneron e Roche, autorizada para uso emergencial, em abril.
  • Associação de anticorpos monoclonais (banlanivimabe + etesevimabe), produzido pela farmacêutica Eli Lilly do Brasil, autorizada para uso emergencial, em maio.
Vendas em 2021

Dados do Conselho Federal de Farmácia mostram que as vendas caíram em 2021, mas continuam altas. Até maio, foram comercializados 1.337.982 unidades de hidroxicloroquina. No mesmo período do ano passado, foram 2.032.004 — 34% a mais.

No caso da azitromicina, a queda foi de 50% no mesmo recorte de tempo. As vendas passaram de 36.374.991 unidades em 2020, para 18.342.975 este ano.

“Todos os medicamentos podem gerar efeitos adversos e que os riscos são ainda maiores para os medicamentos tarjados [aqueles de venda sob prescrição médica]. Esses riscos não podem nunca ser negligenciados, especialmente considerando uma doença tão desafiadora como a Covid-19. A automedicação nesses casos é fortemente desaconselhada”, destaca o conselho, em nota.

Falsa sensação de segurança

Para o médico Estevão Urbano da Silva, um dos coordenadores da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), o uso das medicações sem comprovação científica causa falsa sensação de segurança.

“O risco principal é que não funciona. As pessoas adiam a procura ao médico, ao hospital. Vão piorando em casa. Algumas delas evoluem mal, e, quando chegam ao hospital, chegam tarde. Isso além dos efeitos colaterais”, ressalta.

A médica infectologista Joana D’arc Silva, professora no curso de medicina do UniCeub, adota a mesma cautela ao tratar do assunto.

“Continuamos sem a recomendação de uso. As evidências não demonstraram benefícios ao paciente. Pelo contrário. Há riscos maiores de efeitos adversos, como arritmias”, explica a especialista.

Joana D’arc ainda faz um alerta. “A associação da  cloroquina e da azitromicina é ainda mais perigosa. Não vale a pena. O uso acaba expondo a população a um risco maior”, destaca.

Descarte correto

O Conselho Federal de Farmácia alerta para o descarte correto dos medicamentos. Dispensar as drogas no lixo comum, na pia ou no vaso sanitário traz riscos para a saúde e prejudica o meio ambiente.

“Esses hábitos contribuem para potencializar graves problemas de saúde pública, como a resistência bacteriana. Descartadas de forma inadequada, as substâncias se misturam ao lixo e voltam para a natureza ainda ativas, podendo contaminar o lençol freático e até mesmo a água que consumimos”, frisa nota da entidade.

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