Univaja ressalta participação indígena “essencial” no caso Bruno e Dom

Equipes de busca indígenas encontraram área que posteriormente virou foco da investigação do desaparecimento

atualizado 15/06/2022 22:35

ProtestoReprodução/Tom Phillips

A União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja) se pronunciou sobre a participação de equipes indígenas nas buscas pelo jornalista inglês Dom Phillips e pelo indigenista Bruno Araújo Pereira, encerradas nesta quarta-feira (15/6) depois que o suspeito confessou o crime e os corpos foram encontrados.

Durante a coletiva da força-tarefa que elucidou as informações sobre o caso, antecipadas pela coluna Na Mira, do Metrópoles, nenhum membro indígena que participou da busca compunha a mesa.

Em nota, a organização destacou a atuação da Equipe de Vigilância da Univaja (EVU), que participou das buscas desde o dia do desaparecimento, 5 de junho, e encontrou “a área que, posteriormente, passou a ser alvo das investigações por parte de outras instâncias, como a Polícia Federal, o Exército, a Marinha, o Corpo de Bombeiros etc”.

Os indígenas ressaltam que os policiais militares do 8º Batalhão em Tabatinga (AM) teriam sido “os únicos a nos tratarem como verdadeiros parceiros na busca, valorizando o nosso conhecimento e a nossa sabedoria enquanto povos indígenas, conhecedores do nosso território”.

A organização definiu os assassinatos como um crime político, uma vez que Dom e Bruno atuavam na proteção dos povos indígenas do Vale do Javari e identificaram invasões, como “a composição de uma quadrilha de pescadores e caçadores profissionais, vinculados a narcotraficantes, que ingressam ilegalmente em nosso território para extrair nossos recursos e vende-los nos municípios vizinhos”.

Dessa forma, os indígenas pedem pela continuidade das investigações, uma vez que os suspeitos presos, Amarildo da Costa Oliveira, o Pelado, e seu irmão, Oseney da Costa de Oliveira, conhecido como Dos Santos, fariam parte de um grupo maior.

Leia a nota completa:

“A União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja), movimento indígena representativo dos povos que habitam na Terra Indígena Vale do Javari – Marubo, Matis, Matsés, Kanamari, Korubo, Tsohom-dyapa e povos indígenas isolados – vem a público se manifestar sobre o assassinato do indigenista brasileiro Bruno Pereira e do jornalista britânico Dominic Phillips. Nos solidarizamos com as famílias de Bruno e Dom, nossos parceiros, expressando o nosso pesar e profunda tristeza diante dessa perda. Para nós, povos indígenas do Vale do Javari, é uma perda inestimável.

Hoje, 15/06/22, após 11 dias de buscas, obtivemos a notícia de que os corpos de Pereira e Phillips, nossos parceiros e defensores dos Direitos Humanos, foram encontrados pelos órgãos competentes envolvidos nas buscas. Diante desse fato, a Univaja vem à público destacar dois aspectos:

1) Agradecimento à EVU, ao 8º Batalhão da Polícia Militar em Tabatinga, e à imprensa nacional e internacional:

Nós, Univaja, participamos ativamente das buscas desde o dia 05/06/22 através da Equipe de Vigilância da Univaja(EVU). Fomos os primeiros a percorrer o rio Itaquaí atrás de Pereira e Phillips ainda no domingo, primeiro dia do desaparecimento dos dois. Desde então, a única instância que esteve ao nosso lado como parceira nas buscas foram os policiais militares do 8º Batalhão em Tabatinga (AM). Fomos nós, indígenas, através da EVU, que encontramos a área que, posteriormente, passou a ser alvo das investigações por parte de outras instâncias, como a Polícia Federal, o Exército, a Marinha, o Corpo de Bombeiros etc. Foi a equipe de vigilância da Univaja que entrou na floresta em busca de Pereira e Phillips para dar uma satisfação aos seus familiares.

Foi a equipe de vigilância da Univaja, a EVU, que indicou para as autoridades o perímetro a ser vasculhado em profundidade pelos órgãos estatais. Para isso, nós contamos com a colaboração e proteção constante dos policiais militares do 8º Batalhão em Tabatinga (AM): os únicos a nos tratarem como verdadeiros parceiros na busca, valorizando o nosso conhecimento e a nossa sabedoria enquanto povos indígenas, conhecedores do nosso território. Viemos à público prestar agradecimentos ao Coronel Cavalcante, aos policiais militares do 8º Batalhão em Tabatinga (AM) que nos acompanharam nas buscas, e também à imprensa nacional e internacional que foi nossa parceira, nos ajudando a levar para o mundo inteiro ouvir a nossa voz e conhecer o que está acontecendo em nossa região.

2) O caso não terminou:

Sabemos também que, ao longo das buscas, as forças policiais efetuaram duas prisões: Amarildo da Costa de Oliveira (vulgo Pelado) e Oseney da Costa Oliveira (vulgo Dos Santos). No entanto, a Univaja compreende que o assassinato de Pereira e Phillips constitui um crime político, pois ambos eram defensores dos Direitos Humanos e morreram desempenhando atividades em benefício de nós, povos indígenas do Vale do Javari, pelo nosso direito ao bem-viver, pelo nosso direito ao território e aos recursos naturais que são nosso alimento e garantia de vida, não apenas da nossa vida, mas também da vida dos nossos parentes isolados.

Desde 2021, a Univaja qualificou informações sobre as invasões na Terra Indígena Vale do Javari, através da Equipe de Vigilância da Univaja (EVU). Enviamos uma série de ofícios com informações qualificadas ao Ministério Público Federal, à Polícia Federal e à Fundação Nacional do Índio. Nesses ofícios, indicamos a composição de uma quadrilha de pescadores e caçadores profissionais, vinculados a narcotraficantes, que ingressam ilegalmente em nosso território para extrair nossos recursos e vende-los nos municípios vizinhos. Fornecemos informações através de nossas denúncias às autoridades competentes. Mas as providências não foram tomadas com a devida rapidez. Por isso, hoje assistimos ao assassinato de nossos parceiros: Pereira e Phillips.

Diante disso, manifestamos nossa preocupação com a continuidade das investigações. Pelado e Dos Santos fazem parte de um grupo maior, nós sabemos. Manifestamos nossa preocupação com nossas vidas, a vida das pessoas ameaçadas (pois não era somente o Bruno Pereira), componentes do movimento indígena, quando as forças armadas e a imprensa se deslocarem de Atalaia do Norte. O que acontecerá conosco? Continuaremos vivendo sob ameaças? Precisamos aprofundar e ampliar a investigação. Precisamos de fiscalização territorial efetiva no interior da Terra Indígena Vale do Javari. Precisamos que as Bases de Proteção Etnoambiental (BAPEs) da Funai sejam fortalecidas”.

Brutalidade é moeda corrente

Também em nota, o WWF-Brasil, ou Fundo Mundial Para a Natureza, prestou solidariedade e apoio às famílias, aos amigos e aos colegas de Dom e Bruno. E ressaltou:

“O nível de violência aplicada a Bruno e Dom explicita como a Amazônia está à mercê da lei do mais forte, sob a qual a brutalidade é a moeda corrente. Isso eleva nossa indignação com a situação na qual os povos da floresta e seus defensores foram deixados pelo Estado brasileiro.

Enquanto nos discursos oficiais ‘a Amazônia é nossa’ e ‘não abrimos mão de nossa soberania’, na prática o que vemos são assassinatos brutais sem esclarecimento ou punição e o domínio territorial, baseado na coerção e na violência, por diversos criminosos: narcotraficantes, garimpeiros, grileiros, madeireiros ilegais, caçadores e pescadores ilegais”.

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