Três dias sem água: como crise hídrica afeta a vida na cidade de Itu

Município paulista enfrenta racionamento desde julho; rotina de moradores mudou. Multa por desperdício é de quase R$ 50

atualizado 25/09/2021 16:52

Fábio Vieira/Metrópoles

São Paulo – Uma passagem rápida por bairros residenciais de Itu, a 100 quilômetros de distância de São Paulo, mostra algo em comum em muitas casas: caixas, baldes e tonéis. Na cidade, que vive um rodízio de água desde julho, armazenar é o único jeito de garantir o recurso para as tarefas diárias. O abastecimento é feito a cada dois ou três dias e, quando a água chega, não fica nas torneiras por muitas horas.

Em 2014, o município se tornou o retrato mais severo da crise hídrica que atingiu o estado de São Paulo. Os habitantes chegaram a ficar mais de 10 dias sem água, em um período de 11 meses de racionamento. Naquele ano, houve registros de roubos a caminhões-pipa na cidade.

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A situação não é a mesma daquela época, mas moradores já sofrem com um racionamento que deixa locais até três dias desabastecidos. Caminhões-pipa são vistos pelas ruas e avenidas da cidade com frequência.

“Não tem água, só de manhã, aí depois vai embora. Você abastece tudo que tem de abastecer. De noite às vezes vem, às vezes não vem. Passa dois, três dias sem. Tem uns três meses já”, contou Maria Lúcia, 55, do bairro Vila Bandeirantes. Quando a água chega, de acordo com relatos de moradores, não fica nas torneiras por mais de 12 horas.

O estado de São Paulo vive uma estiagem prolongada e há receio de que a região metropolitana e a capital também enfrentem desabastecimento de água. De sete reservatórios que abastecem a Grande São Paulo, quatro estão operando abaixo de 50% da capacidade. O sistema Cantareira, o mais importante da região, operava com 31,9% da capacidade na última sexta-feira (24/9).

Mudança na rotina

Nas casas de Itu, a água armazenada em caixas e baldes é dividida com cautela para tomar banho, lavar a louça e usar o banheiro. Lavar a calçada, nem pensar: a prefeitura aplica uma multa de R$ 489 em quem for pego desperdiçando o líquido. Penalidades semelhantes têm sido adotadas em Salto, cidade vizinha, e em municípios como Vinhedo, Valinhos e Araras.

Em estabelecimentos comerciais, o uso de banheiros vem sendo controlado ou mesmo vetado. Em uma padaria na região central, para usar o toalete, só pedindo a chave no caixa, e no local há diversos alertas sobre a falta d’água. Em alguns restaurantes, o uso de pratos e copos de vidro foi substituído por descartáveis, já que fica difícil lavar a louça.

As escolas também foram afetadas. Maria Nunes de Campos, de 46 anos, que mora no bairro Progresso, contou que a filha estuda em uma instituição municipal e foi orientada a não dar a descarga, limitar o uso de água para lavar as mãos e levar a própria garrafa de água. A mãe se preocupa com a saúde da criança, já que a falta de higiene pode levar a doenças.

“Eu cheguei a falar com a professora que precisa tomar uma providência. Tem dia que não pode dar descarga, os banheiros estão sujos. Essas crianças vão pegar virose, vão pegar Covid”, reclamou.

Rafaella Santana mora no centro, e sua família tem uma lanchonete na parte de baixo de sua residência. Ela diz que está “bem difícil” a situação, e precisa separar água para a casa e para o comércio. “Está quase igual a 2014”, lamentou.

Caixa d’água, item essencial

Para garantir o recurso nos dias sem abastecimento, só com caixas d’água, baldes e tonéis. As lojas de materiais de construção da cidade já constatam um aumento na demanda.

Uma caixa de mil litros custa cerca de R$ 350. A dona de um comércio no bairro Progresso disse que, há cerca de três meses, vendia uma por semana. Atualmente, vende, em média, seis por dia. Outra loja, na região central, também informou que tem comercializado de sete a oito caixas d’água por dia.

Marido de Maria Nunes, Osmar de Campos, 47 anos, conta que o acesso anda desigual na cidade, e que os moradores precisam arcar com os custos dos recipientes. “Tem o rodízio oficialmente de dois dias sem e um dia com água, mas na prática, eles deixam mais tempo”, afirma. “Mandam caminhão de água em alguns locais. Mas tem gente que não tem caixa d’água, porque é cara, e fica sem”. Na residência do casal, há uma caixa de 500 litros e uma de mil litros para atender quatro pessoas.

Governo

Apesar de moradores temerem que a situação fique igual a 2014, por enquanto, há diferenças: a principal é que tem chovido, ainda que com pouca frequência e em pouca quantidade. Naquele ano, foram meses sem nenhuma gota d’água caindo do céu.

A crise de 2014 fez com que Itu remunicipalizasse a gestão de águas. Desde 2017, quem administra os recursos é a Companhia Ituana de Saneamento (CIS), uma empresa pública municipal.

De 2007 até 2017, os serviços foram prestados pela Águas de Itu, uma empresa privada. Descumprimento de cláusulas contratuais e aumento da tarifa fizeram com que a prefeitura interviesse na empresa, o que culminou na desprivatização do serviço. Além da má gestão, os nove reservatórios que atendem Itu e cidades vizinhas não possuem muito espaço de armazenamento, o que ajudou na escassez de água.

O rodízio em Itu ocorre desde julho, mas acabou ampliado em agosto. Oficialmente a CIS prevê que a maior parte da cidade fica 48 horas sem água, e 24 horas com água. Entretanto, o abastecimento não dura 24 horas corridas, “mas tempo suficiente para encher os reservatórios dos imóveis”. Quem não tem recipientes suficientes para reservar o líquido fica sem.

Além disso, bairros mais altos e prédios possuem mais dificuldade de receber o recurso, pois a água chega com baixa pressão. De acordo com a CIS, esses locais podem pedir abastecimento emergencial de caminhão-pipa, por telefone. A companhia avalia os pedidos e envia os veículos, para encher as caixas d’água dessas residências.

O Metrópoles procurou a CIS, mas não houve resposta até a publicação dessa reportagem.

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