“Temos o dever de fazer história”, diz presidente da COP30; veja carta

O embaixador André Corrêa do Lago emitiu décima e última carta destinada às partes que participarão da Conferência Climática, em Belém

atualizado

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1 de 1 Imagem colorida do embaixador André Correa do Lago - Metrópoles - Foto: Fernando Donasci/MMA

Belém – O presidente da 30ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP30), embaixador André Corrêa do Lago (foto em destaque), emitiu neste domingo (9/11), véspera da abertura do evento, a sua décima e última carta.

No documento, ele convoca os países que começarão a discutir como limitar o aumento da temperatura global a se comprometerem com a implementação do Acordo de Paris.

“A COP30 pode marcar o momento em que a humanidade recomeça – restaurando nossa aliança com o planeta e entre gerações. Somos privilegiados por ter sido destinado a nós o dever de fazer história como aqueles que escolheram a coragem em vez da omissão, para virar o jogo na luta climática”, escreveu.

Em suas cartas, Corrêa do Lago convidou as partes e não-partes e estabeleceu três prioridades para as negociações. São elas:

  • reforçar o multilateralismo e o regime climático;
  • conectar o regime climático à vida real das pessoas e à economia real;
  • e acelerar a implementação do Acordo de Paris para além da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima (UNFCCC).

Corrêa do Lago ainda destacou Belém como marco histórico, lembrando que ela será a capital do Brasil durante a COP30, ligou a origem da Convenção de 1992 ao presente e reafirmou a Amazônia como centro da liderança climática.

A COP30 tem como principal objetivo seguir o Acordo de Paris, visando limitar o aumento da temperatura global a 1,5°C.

Na semana passada, durante a Cúpula do Clima, evento que reúne chefes de Estado antes da Conferência, o Brasil lançou um mecanismo de financiamento climático e espera impulsionar aportes, principalmente de países ricos.

Confira a carta, na íntegra:

“Prezadas amigas, prezados amigos,

Esta é minha décima e última carta à comunidade internacional como Presidente Designado da 30ª Sessão da Conferência das Partes (COP30) da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC).

Estamos quase lá.

Quase lá – ao nos prepararmos para abrir juntos a COP30 em Belém.
Quase lá – com o Livro de Regras do Acordo de Paris completo e seu ciclo de políticas em movimento, prontos para uma implementação acelerada.
Quase lá – enquanto a ambição global finalmente começa a curvar a trajetória das emissões e a transição climática se torna uma tendência irreversível.

Mas “quase” não é suficiente. Precisamos ir mais rápido – para alcançar cada país, cada comunidade, cada membro da nossa família humana antes que impactos climáticos mais severos o façam.

Belém: Um ponto de encontro no espaço e no tempo

Durante a COP30, o Brasil transferirá temporariamente sua capital de Brasília para Belém – ancorando a tomada de decisões globais na foz do Amazonas e lembrando ao mundo que a liderança climática deve brotar de suas raízes. Ao fazê-lo, o Brasil convida todas as nações a deslocarem não apenas o local das negociações, mas o próprio lócus da esperança – do cume do poder à fonte da vida.

Na COP30, os Estados-membros retornarão ao Brasil, onde a Convenção foi aberta a assinatura há 33 anos. O Brasil está pronto para recebê-los. Estou pronto para servi-los.

Foi em 1992 que o mundo, por consenso, decidiu iniciar essa jornada comum. Em Belém, honraremos essa continuidade: a capacidade de nossa espécie de cooperar, renovar-se e agir em conjunto diante da incerteza. Este é o momento de honrar nossa ancestralidade – em linhagem e em direito internacional. Na COP30, nossa ambição deve ser preencher lacunas pela implementação da união e da cooperação.

À medida que nos aproximamos das negociações de Belém, tenho uma prioridade principal: garantir que nossa impressionante membresia de quase duzentos países e culturas vá além de grupos de negociação e Partes, evoluindo como uma equipe coesa. Uma equipe capaz de canalizar, para nosso trabalho, a inteligência coletiva da humanidade e o melhor que podemos oferecer individualmente em prol de nosso propósito comum: proteger nossas sociedades, economias e ecossistemas.

Este trabalho é maior do que nós. Este trabalho é maior do que o agora.

À medida que se aproxima a abertura da COP30, convido as Partes e os demais atores a refletirem sobre o significado do que nos aguarda nos próximos dias. Nosso processo está evoluindo de uma máquina para um ecossistema, de uma burocracia para uma transformação, do debate para a mobilização: para o Mutirão Global.

Por mais de trinta anos de negociações climáticas, dependemos do consenso para agir. Convidamos as Partes a enxergarem o Mutirão como um experimento no qual cooperamos primeiro – buscando soluções em conjunto como forma de construir confiança e criar espaços de consenso. Convido as Partes a chegarem a Belém com curiosidade, conscientes do privilégio e da oportunidade de transformar as negociações de um fórum de debate adversarial em um laboratório de soluções, reunindo mentes brilhantes de todos os povos da Terra.

Dez cartas rumo a 10 de novembro

Na minha primeira carta, convidei a comunidade internacional a unir-se ao Brasil em um Mutirão Global contra a mudança do clima – um esforço global de cooperação entre os povos para o progresso da humanidade, ao iniciarmos uma nova era de concretização do que já acordamos.

Na segunda carta, passamos da visão à ação, lançando o Mutirão Global por meio de quatro Círculos de Liderança, dos Enviados Especiais, do Campeão de Alto Nível e do Campeão Jovem, juntamente com um chamado à ciência e à sabedoria ancestral para aprimorar nossa cooperação rumo à exponencialidade das soluções e à versatilidade diante do imprevisível.

Na terceira carta, conclamei os negociadores a se unirem ao Mutirão Global, trabalhando em modo de força-tarefa para alcançar progressos significativos em adaptação, transições justas e na implementação do primeiro Balanço Global, enquanto reconstruímos a confiança para resultados acelerados e em escala.

Na quarta carta, apresentei a Agenda de Ação da COP30 como uma agenda baseada em soluções, para acelerar a implementação climática por meio de trinta objetivos-chave identificados em seis eixos que refletem a amplitude e a profundidade da ação necessária para implementar os resultados do GST e cumprir o Acordo de Paris de forma rápida, em todos os lugares e para todos.

Na quinta carta, convidei a comunidade internacional a garantir que a ação climática comece e termine com as pessoas, fazendo da COP30 um ritual de passagem que marque e celebre sobriamente nossa transição rumo a um futuro mais promissor e próspero, reconhecendo a coragem e a liderança daqueles que estão na linha de frente da mudança do clima – especialmente os mais vulneráveis.

Na sexta carta, lancei as “Consultas da Presidência da COP30” e conclamei as Partes a demonstrarem seu compromisso com o multilateralismo e com o regime climático, apresentando novas NDCs como expressão nacional de sua determinação em contribuir para o Acordo de Paris.

Na sétima carta, conclamei todos os líderes empresariais a fazerem parte do movimento do Mutirão Global, observando que aqueles que anteciparem as mudanças radicais à frente serão os que prosperarão ao construir resiliência e aproveitar as oportunidades oferecidas pela transição.

Na oitava carta, convidei as Partes e os atores não-Partes a fazer da COP30 um ponto de inflexão na adaptação – elevando ambição, ação e financiamento, fortalecendo a resiliência em todos os níveis e mobilizando a cooperação internacional para impulsionar o próximo passo da evolução humana.

Na nona carta, conclamei todos os atores a fazerem da COP30 um conjunto de respostas às lacunas de implementação e ambição do mundo – todas voltadas à solidariedade, à cooperação internacional e à implementação acelerada como nossa nova medida de ambição diante da urgência climática.

Com esta décima carta, concluo um ciclo de palavras para que o mundo abra um ciclo de ação. Estamos quase lá.

Onde o rio encontra o oceano: onde a humanidade recomeça

Ao longo de nove cartas, convidei Partes e não-Partes a utilizarem as negociações, a Agenda de Ação, a Cúpula de Líderes e um processo inédito de mobilização global em torno de três prioridades interconectadas:
(1) reforçar o multilateralismo e o regime climático;
(2) conectar o regime climático à vida real das pessoas e à economia real; e
(3) acelerar a implementação do Acordo de Paris para além da UNFCCC.

Mas mais importante do que o que fazemos e como fazemos é termos clareza sobre por que o fazemos.
A COP30 será a COP da Verdade. Ou decidimos mudar por escolha, juntos, ou seremos forçados a mudar pela tragédia.

Temos uma escolha. Podemos mudar. Mas precisamos fazê-lo juntos.

A COP30 pode marcar o momento em que a humanidade recomeça – restaurando nossa aliança com o planeta e entre gerações. Somos privilegiados por ter sido destinado a nós o dever de fazer história como aqueles que escolheram a coragem em vez da omissão, para virar o jogo na luta climática. Devemos abraçar esse privilégio como responsabilidade – pelas pessoas que amamos, pelas gerações que vieram antes e pelas que ainda virão.

Mudando por escolha, juntos.

André Aranha Corrêa do Lago
Presidente Designado da COP30″

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