Seguranças atiram e ferem ribeirinho em fazenda na Bahia. Veja vídeo

Moradores de comunidades tradicionais foram recebidos à bala por empregados que vigiavam uma manada de reses cercada em curral

Imagem cedida ao MetrópolesImagem cedida ao Metrópoles

atualizado 08/02/2019 7:56

Um vídeo recebido pela Comissão Pastoral da Terra (CPT) mostra o momento em que os seguranças de uma fazenda atiraram contra um grupo de ribeirinhos no município de Formosa do Rio Preto, no oeste da Bahia. Nesse episódio, de acordo com nota divulgada pela entidade, Jossinei Lopes Leite levou um tiro na perna quando tentava resgatar uma manada de reses retidas em um curral da fazenda.

O Metrópoles obteve uma cópia do vídeo, com 2min24s de duração. As imagens revelam a tensão durante o encontro dos ribeirinhos com os seguranças, quando três moradores da região, montados em cavalos, avançaram na direção de um curral onde o gado estava preso. Os animais eram protegidos por empregados da fazenda armados, aparentemente com revólveres.

Assista:

 

Pelo menos três seguranças aparecem no vídeo, atrás da cerca do curral, com as armas apontadas para os ribeirinhos. Abaixo, segue a transcrição do diálogo entre eles:

“Nós vei (sic) buscar o gado, cês vão liberar o gado? Nós só quer tirar o gado, nós não quer nada com vocês”, diz um dos ribeirinhos.

“Para, para”, responde um dos seguranças, enquanto os visitantes avançam.

“Para aí, não, eu vou chegar pra frente e vocês vão soltar o gado.

“Tô mandando parar”, repete o segurança.

Nesse momento, são ouvidos os primeiros tiros.

“Vai soltar o gado?”

“Não, não vou.”

“Por quê? O gado é seus?”

“Não. Estou aqui fazendo meu serviço”

“Por que vocês não soltam o gado?”

“É ordem da fazenda. Para aí, rapá!”

“Eu não vou parar não. Se vocês quiserem atirar para matar, podem atirar. Pode atirar pra matar.”

“Ninguém aqui tá atirando para matar.”

“Tá atirando pra matar, porque a posição que você está com a arma apontada em mim você está atirando para matar, cê entendeu?”

“Eu tô mandando parar.”

Os cavaleiros chegam até a beira do curral, de frente para os empregados armados.

“Para, para”

“Eu tô mandando para”

“Pode atirar, se vocês podem atirar para matar, pode atirar.”

“Eu tô mandando parar, viu?”

“Vocês não vão soltar o gado, não. Cadê o encarregado da fazenda?”

“Não está aqui, não. Afasta pra lá.”

“Então, chama ele…”

São ouvidos mais tiros.

“Chama ele…”

“Eu tô mandando (?) rapaz!”

Os cavaleiros, então, se afastam.

Ferimento e investigação
Dos três ribeirinhos que tentaram resgatar o gado, Jossinei Lopes Leite foi o único baleado, na perna. O Metrópoles conseguiu com advogados ligados aos ribeirinhos uma cópia da ocorrência registrada na delegacia de Formosa do Rio Preto.

Segundo o documento, Jossinei (tratado por Jossone) estava acompanhado por um irmão, Ednaldo, e um outro homem, chamado apenas de “Adão”. Ficou registrado que eram cinco os seguranças da fazenda.

Com outra pessoa próxima dos ribeirinhos, o Metrópoles obteve três fotos de Jossinei com o pé ferido (veja abaixo).

 

Conflito com fazendeiros
Tradicionalmente, os ribeirinhos de comunidades do oeste baiano usam as terras altas da região para deixar as criações em determinadas épocas do ano e, assim, poupar as pastagens nas beiras dos rios, onde vivem.

As áreas usadas sazonalmente por essas comunidades são reivindicadas por grandes fazendeiros, amparados em documentos emitidos a partir da década de 1980. Tratados por “geraizeiros”, por viverem na região conhecida como “gerais”, os ribeirinhos acusam os fazendeiros de grilagem de terras, conforme registrado na reportagem O levante dos ribeirinhos, publicada pelo Metrópoles em junho de 2018.

Os “geraizeiros” descendem de posseiros que chegaram à região no fim do século 19. Até os anos 1970, as vastas extensões de terra eram consideradas devolutas (pertencentes ao estado). A partir da década seguinte, no entanto, começaram a chegar fazendeiros do sul do país, com documentos obtidos em cartório, que passaram a reivindicar grandes glebas como suas propriedades. Desde então, ribeirinhos e empregados de fazendas travam conflitos violentos pela ocupação das terras.

O Metrópoles tentou contato com a Companhia Melhoramentos do Oeste da Bahia (Cemob), uma das proprietárias da Agronegócio Condomínio Cachoeira do Estrondo, onde ocorreu o confronto registrado no vídeo desta reportagem, mas não obteve resposta até a publicação desta matéria.

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