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Você já não aguenta mais ouvir falar sobre a importância da vacina contra a febre amarela antes dos dias de folia – principalmente se for passar o Carnaval no Rio de Janeiro, em São Paulo ou na Bahia, pois esses estados seguem em plena campanha de imunização contra o vírus. Mas aqui vai um alerta capaz de acabar com o orgulho em ver a carteirinha carimbada: há mais moléstias na festa pagã do que as manchetes de jornais andam contando. A má notícia é que nem todas se resolvem com uma picadinha no posto de saúde. A boa é que, para (quase) todas, há outras formas de prevenção.

O Ministério da Saúde, até agora, não fala em “surto” de febre amarela, mesmo com as 98 mortes confirmadas desde julho de 2017. Mas, além da moléstia e da sazonalidade de outras patologias – como dengue, zika e chikungunya –, comportamentos comuns à época, como exposição exagerada ao sol e compartilhamento de copos, também podem fazer o feriado acabar mal.

Segundo especialistas, embora as doenças sexualmente transmissíveis demandem maior atenção durante a folia de Momo, elas não são as mais comuns nos hospitais depois que sobra só glitter e urina pelas ruas. “É uma época em que as pessoas viajam muito, mudam a rotina, se expõem a mais doenças. Principalmente, às diarreias, porque se alimentam de forma precária, muitas vezes na rua… E são diagnósticos com pouca notoriedade, mas, provavelmente, os mais frequentes desse período”, comenta o médico infectologista Jessé Alves, do laboratório Exame.

O Metrópoles consultou especialistas sobre quais outros vilões da saúde, além do mosquito da febre amarela, o Carnaval reserva aos foliões. Antes de ser dominado pelo clima de festa, confira.

Partiu “x-bomba” antes do bloquinho?


De acordo com médicos, o maior perigo das festas de Carnaval não está exatamente no xixi espalhado pelas ruas ou no pernilongo pousando em pessoas desprevenidas. O cachorro-quente, a maionese no seu hambúrguer ou o pastel de origem duvidosa guardam mais males do que os banheiros químicos dos blocos de rua, segundo a médica Eliana Bicudo, consultora da Sociedade Brasileira de Infectologia.

“É uma época em que as pessoas comem na rua, de qualquer jeito, e ficam expostas a doenças de transmissão orofecal, ou seja, contaminadas com coliformes fecais. Porque quem vende não lavou as mãos ou os alimentos estão mal lavados, por exemplo”, explica. Entram nessa onda o enterovírus, a hepatite A e as infecções por bactérias.

Ainda, há a salmonela, bactéria presente no ovo e que causa diarreia, cólica, náusea e dor de cabeça. “Ela fica na casca. Se o ovo for cru ou mal-lavado, pode ser um local de reprodução dela”, alerta a especialista.


Hepatite A

Entre as doenças provocadas por alimentos contaminados, a hepatite A, causada por vírus, é uma das que mais preocupam os profissionais da saúde pública. Com acompanhamento médico, costuma ir embora sozinha. Mas pode evoluir para quadros graves. “No Brasil, temos uma população jovem que não foi exposta ao vírus na infância. Mas é uma doença contra a qual há vacina, segura e de boa qualidade”, lembra o infectologista Jessé Alves.

A “rebordosa” do Carnaval, nesse caso, pode levar até três semanas depois das festas para aparecer, período médio de incubação do vírus. Os sintomas são parecidos com os da febre amarela: febre alta, pele amarelada (icterícia), mal-estar. Tanto que, quando um paciente surge com esses sinais no pronto-socorro, o exame de hepatite costuma ser um diferencial para o diagnóstico da arbovirose.


A vacina contra a hepatite A é feita em duas doses com intervalos de seis meses, para crianças a partir de 1 ano de idade. A má notícia é que ela só está disponível em clínicas particulares – não faz parte do calendário público de vacinação. A boa é que ainda dá tempo: de acordo com Jessé Alves, a vacina é protetora, mesmo aplicada na véspera da viagem.

As DSTs – e não é só a Aids
Todo lembrete sobre a importância do uso de preservativo é pouco. Segundo uma pesquisa recente do Ministério da Saúde, de cada 10 jovens brasileiros de 15 a 19 anos, apenas quatro usaram preservativo em todas as relações sexuais que tiveram no último ano.

No Carnaval, o foco tem que ser ainda maior. Hoje, há profilaxia de HIV pré e pós-exposição [ao vírus]. Mas as pessoas esquecem que isso não é infalível. E há outras doenças que só são evitáveis com camisinha, como a sífilis, a hepatite e a gonorreia. Mesmo que a Aids hoje seja tratável, é muito melhor não ter, né?"
Jessé Alves, infectologista

Entram na lista, ainda, doenças como clamídia, herpes labial e genital, além da mononucleose, conhecida como “doença do beijo” ou “sapinho”. “Tanto a sífilis quanto a gonorreia podem comprometer a fertilidade do homem e da mulher. O melhor é usar camisinha”, aconselha o médico.


Micoses

Por incrível que pareça, todo aquele xixi “lavando” o asfalto e os muros em destinos de Carnaval de rua é inofensivo à saúde. Isso, claro, tirando a “evidente falta de higiene”, segundo Jessé Alves. A urina costuma ser estéril – ou seja, sozinha, ela não traz muitos perigos. O problema maior reside na interação entre pés úmidos “guardados” por horas dentro dos tênis e a água de banheiros químicos, seja pela urina alheia ou pela chuva.

“Aquela ‘aguinha’ dos banheiros, por exemplo, pode juntar fungos e causar micoses de pé, além de outras doenças que passam pela água parada nas ruas, como a leptospirose”, lembra a infectologista Eliana Bicudo.


Arboviroses

Além da febre amarela, a época é de alerta contra outras arboviroses (doenças transmitidas pela picada de insetos), como zika, dengue e chikungunya. O Nordeste, por exemplo, não é considerado área de circulação da febre amarela, mas das viroses transmitidas pelo Aedes aegypti, sim. Portanto, adicione à mala um frasco de repelente.

“É bom lembrar: quem se vacina agora contra a febre amarela precisa estar consciente de que pode não estar imunizado, porque ela demora 10 dias para proteger”, adverte Jessé Alves, do Exame. Contra a dengue, até existe uma vacina, mas Alves diz que ela é “controversa” – em 2017, após uma atualização de estudos de eficácia, a Anvisa passou a recomendar a vacinação apenas para pessoas que já tiveram dengue.

Faça do repelente, portanto, seu melhor amigo. “O repelente e o protetor solar, se possível. Nessa época, a gente acaba ensinando o óbvio às pessoas, porque são cuidados que todos deveriam ter no dia a dia, mas esses detalhes podem acabar com o Carnaval das pessoas”, alerta Eliana Bicudo.