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Jogue fora as acusações de preguiça e falta de força de vontade direcionadas às pessoas que têm dificuldades para seguir dietas. Se você trava uma batalha contra a balança e, ainda assim, não consegue resistir a tentações gordurosas e calóricas, a ciência explica. Segundo conclusões de um estudo realizado por cientistas da Universidade de Campinas (Unicamp), isso tudo é, literalmente, coisa da sua cabeça. A pesquisa, apresentada na Fapesp Week, em Nebraska, nos Estados Unidos, aponta um grupo de neurônios como responsável por sua fraqueza diante de doces e hambúrgueres.

A grande sacada do estudo é traçar uma espécie de “roteiro da obesidade” –  ciclo vicioso de reações do seu organismo, que pode explicar os quilos a mais e por que eles se recusam a ir embora. Os resultados foram apresentados na Fapesp Week no mês passado. E, de acordo com o médico responsável, o professor Licio Augusto Velloso, coordenador do Centro de Pesquisa em Obesidade e Comorbidades da Unicamp, podem representar o ponto de partida de novos tratamentos para a doença, que já tem status de epidemia mundial.

Segundo a pesquisa, pacientes obesos podem ter uma disfunção digestiva causada pela morte de um grupo de neurônios chamados de “POMC”, responsáveis por sinalizar ao corpo que é hora de parar de comer. Sem essas células, os indivíduos passam a ter cada vez mais necessidade de ingerir alimentos ricos em gordura e açúcar, ao mesmo tempo que apresentam queda no metabolismo. Em resumo: comem mal, mais e gastam menos.

O processo, no entanto, não começa sozinho. O que desencadeia o assassinato em massa dos tais neurônios é o excesso de gordura saturada na alimentação, que é encarado por células de defesa chamadas micróglias como uma ameaça ao cérebro. Esse “aviso” leva a uma reação anti-inflamatória que, por sua vez, danifica os neurônios POMC. Com o sistema de saciedade prejudicado, a vontade de “atacar” comidas gordurosas aumenta e o ciclo tem início.

Esses resultados foram observados em ratos de laboratórios por um período de quatro meses – tempo entre o início da dieta gordurosa e o patamar em que os animais foram considerados obesos.

Entenda o ciclo descoberto na Unicamp: 


Menos gordura = mais saúde

A dieta calórica e gordurosa, por sua vez, modifica a microbiota intestinal de forma que a absorção de calorias do alimento muda. Assim, uma mesma maçã pode ser mais ou menos calórica para pessoas diferentes, de acordo com o metabolismo digestivo de cada uma.

“O aspecto mais importante do estudo é o fato que o consumo exagerado de gorduras saturadas afeta tanto o centro regulador da fome quanto a composição de microrganismos no intestino, favorecendo um maior aproveitamento das calorias consumidas”, destaca Velloso.

O estudo reforça que a melhor estratégia que temos para combater a obesidade ainda é incentivar uma alimentação saudável e baixa em gorduras saturadas"
Licio Augusto Velloso, coordenador do Centro de Pesquisa em Obesidade e Comorbidades da Unicamp

Eficaz por pouco tempo
De uma tacada só, o roteiro do time de Campinas abre caminho para novas abordagens contra a obesidade e questiona ainda uma das últimas modas quando o assunto é dieta: a “low carb”, que preconiza uma alimentação baixa em açúcares e carboidratos, mas rica em lipídios. Alguns especialistas defendem que, como as gorduras dão saciedade e não interferem na taxa de açúcar do sangue, optar por elas frente a grãos e cereais seria uma boa estratégia para obesos.

“Dietas ricas em gordura podem promover perda de peso por um tempo limitado, mas certamente causarão problemas a médio e longo prazo. Não as considero recomendáveis”, frisa o médico.

O roteiro desenhado por médicos da Unicamp, segundo Velloso, não se aplica a casos de obesidade causados por mutações em genes que interferem na fome ou no gasto energético. Para todos os outros, continua verdadeiro. “A maior parte dos diagnósticos de obesidade no mundo se deve à associação entre erro alimentar e baixa atividade física”, diz. “O roteiro se aplica a esse tipo de obesidade”, ressalta o especialista.

De acordo com o médico, alguns estudos recentes sugerem que é possível estimular a síntese de novas células POMC no cérebro, o que poderia ser usado como um novo tratamento contra a doença. No entanto, os testes ainda acontecem em nível experimental.

 

 

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