Risco de apagão: especialistas criticam falta de comunicação do governo

Transparência também é criticada. "Quem sabe que o governo paga para quem reduzir o consumo?", reclama especialista

atualizado 20/09/2021 8:36

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Vinte anos depois da crise do racionamento no setor elétrico, o país enfrenta a mais grave crise hídrica em 91 anos, com temores de imposição de novas cotas de consumo de energia ou apagões. Para minimizar as chances de faltar luz, o governo Bolsonaro adotou medidas semelhantes às realizadas contra a instabilidade em 2001: economia de energia em órgãos públicos federais e recompensas pela redução voluntária de consumo.

O ministro das Minas e Energia, Bento Albuquerque, tem negado chance de racionamento. Mas especialistas entrevistados pelo Metrópoles criticam a falta de transparência nas decisões do governo e a comunicação falha sobre os riscos enfrentados pela população.

“O governo federal está comunicando mal o problema. Se quer conseguir o apoio do consumidor residencial para economizar, ele tem que ser mais bem informado do que está acontecendo. Quem sabe que o governo paga para quem reduzir o consumo? Ninguém sabe. Não tem campanha sobre isso”, afirmou Luiz Augusto Barroso, presidente da PSR consultoria.

Ex-diretor-geral do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), Luiz Eduardo Barata Ferreira avalia que o risco de apagões só será minimizado se ocorrer uma redução de consumo nos próximos meses. Por isso, diz ele, era necessário que o governo federal adotasse maior transparência sobre os riscos de falta de luz.

“É difícil sensibilizar a população para fazer redução voluntária sem explicações detalhadas”, avalia Barata Ferreira, que era assistente da diretoria de Planejamento e Programação do ONS na crise do racionamento de 2001.

De acordo com o Ministério de Minas e Energia, o país enfrenta a maior falta de chuvas dos últimos 91 anos, o que tem encolhido o nível dos reservatórios de hidrelétricas, diminuindo o poder de geração de energia dessas fontes que respondem por 63,2% da capacidade instalada do país. A usina de Ilha Solteira, por exemplo, maior hidrelétrica de São Paulo, já está no volume morto, gerando menos do que teria capacidade em condições ideais.

Apagões iminentes

Como mostrou o Metrópoles, o ONS informou nesta quinta-feira (16/09) a representantes do setor elétrico que, no pior cenário da crise hídrica, podem faltar 1,4 Gigawatts (GW) de potência em novembro, dificultando que seja suprida a demanda energética do país. Isso significa que, caso esse pior cenário se concretize, podem ocorrer apagões, embora o risco tenha diminuído desde maio, quando era projetado o déficit de 12,7 GW para novembro em momentos de pico.

O governo é criticado por não ter enfrentado a crise hídrica mais cedo, compensando o esvaziamento de hidrelétricas. Só em maio foram acionadas todas as termelétricas possíveis, com o objetivo de preservar os reservatórios das hidrelétricas.

Entre as medidas apontadas pelos especialistas como exemplos de comunicação falha, está o anúncio pelo governo federal de uma recompensa na conta de luz para consumidores residenciais e pequenos negócios. Trata-se de um desconto de R$ 0,50 por kWh para quem reduzir o consumo entre 10% e 20% durante o período de setembro a dezembro deste ano, em relação ao mesmo intervalo do ano passado. Se o consumo cair nesse período acumulado, dentro da meta de 10% a 20%, o governo diz que creditará o desconto proporcional na conta de janeiro de 2022.

Indústrias e transparência

Para indústrias, o governo também anunciou no fim de agosto um programa de estímulo à economia voluntária de energia, em troca de uma bonificação. No mês de setembro, o ONS obteve uma economia de 1,15% no consumo de energia da indústria nos horários de pico, uma redução de 237 MW médios por hora.

“Desde o princípio da crise, falamos que a indústria podia contribuir. Tem que ter três princípios para isso: participação voluntária, processo simples e atrativo. A oferta de 237 MW médios por hora pela indústria, em setembro, mostra que conseguiram achar uma fórmula. É como se o governo estivesse comprando aquela energia”, pondera Fillipe Soares, diretor-técnico da Associação dos Grandes Consumidores Industriais de Energia e de Consumidores Livres (Abrace).

No entanto, para além da falta de engajamento da população no programa de economia voluntária, Maurício Tolmasquim, professor da Coppe/UFRJ e ex-presidente da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), analisa que a pouca transparência também impediu que a população decidisse qual era a opção mais econômica: recorrer a termelétricas que encarecem a conta de luz ou, ele propõe, ter feito uma economia compulsória em escala menor, algo equivalente a 5% do consumo mensal. Na crise de 2001, o racionamento impôs uma economia compulsória de 20% aos consumidores, para que não houvesse falta de luz.

“Menos de 5% de redução de consumo já daria para afastar os riscos atuais. Como é pouco, talvez as pessoas absorvessem isso. Não estou falando que isso seria o ideal, nem melhor. Mas deveria ter sido estudado”, afirma Tolmasquim.

Ele também avalia que medidas de redução do consumo deveriam ter sido lançadas há cinco meses. “Não é só a hidrologia que explica o problema. Houve um problema de gestão também: tanto do lado da oferta quandoda demanda. Agora estão tentando segurar água nos reservatórios, botando termelétricas para operar. Fizeram isso com vários meses de atraso”, afirma o ex-presidente da EPE.

Sem considerar todas as medidas adotadas pelo governo, Barroso, presidente da PSR consultoria, tinha calculado que, no fim de agosto, existia um risco de 20% de racionamento, entre outubro e dezembro deste ano. Para o mesmo período, havia estimado que a chance de apagões era de 30%.

No entanto, depois de medidas como o início da operação da termelétrica de Açu, no norte fluminense, e das termelétricas de Uruguaiana e Cuiabá, programadas para os próximos meses, ele estima que o risco de racionamento caiu para 1% e que o risco de apagão diminuiu para 4%.

“Se o governo executar bem a antecipação dessa oferta de termelétricas e fizer uma operação para transferir mais energia do Nordeste para o Sudeste e o Centro-Oeste, a gente passa de ano e tudo isso vira um grande susto”, avalia o consultor.

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