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O Brasil varre as últimas serpentinas das ruas na quinta-feira pós-Carnaval. Em algum lugar de Brasília, uma zabumba ecoa sinais de um samba ressaqueado a sobreviventes da folia. Mas, no Carmelo Nossa Senhora do Carmo, onde 13 monjas católicas vivem em clausura absoluta, impera o silêncio. Na antessala da capela da construção gasta – embora tenha sido erguida nos anos 1990, quando o mosteiro foi fundado –, a única coisa que se escuta é o tic-tac preguiçoso de um relógio de pêndulo afixado na parede. Parece velho.

Até o manuseio desajeitado de um copo de plástico desequilibra a paz do recinto. “Tudo passa”, promete a oração à Santa Teresa D’Ávila, fundadora da Ordem das Carmelitas Descalças, espalhada em quadros e paredes por todo o lugar. Tudo, menos o tempo.

É 2018, mas as carmelitas da capital seguem as mesmas regras desde a fundação da ordem, pela santa espanhola, no século 16. Vivem sob os votos da castidade, da pobreza e da obediência – a Deus, à Santa Igreja, às suas superioras dentro do convento.

Escondem as mãos sob o Santo Hábito, veste marrom que usam como uniforme. Levantam-se às 4h30. Rezam, pelo menos, seis vezes ao dia. Não podem deixar as grades da vida monástica nunca, exceto em casos excepcionais, como doença na família, própria, ou para votar, mesmo que a clausura as deixem um tanto alheias aos desdobramentos políticos aqui do lado de fora. A “exclaustração” é sempre avisada ao bispo – não fosse assim, o último dos votos estaria comprometido.

Nada te perturbe, Nada te espante,
Tudo passa, Deus não muda,
A paciência tudo alcança;
Quem a Deus tem, Nada lhe falta:
Só Deus basta"
Oração à Santa Teresa D’Ávila, fundadora da Ordem das Carmelitas Descalças na Espanha, em 1593

A Conferência dos Religiosos do Brasil calcula que exista hoje uma casa de monjas contemplativas – como são chamadas as religiosas em ordens de clausura – para cada diocese no país. São 260 no total. De casas masculinas, o número é bem menor: 40. Só de carmelos, são 57. O Nossa Senhora do Carmo, que divide a paz da Ermida Dom Bosco com o Mosteiro de São Bento, no Lago Sul, é o único em Brasília. Como todos os mosteiros da ordem, tem capacidade para até 21 enclausuradas. Hoje, abriga 13.

 

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A vida em clausura: carmelitas descalças só podem deixar o carmelo em casos de doença ou para votar


As Marias do carmelo

No período da Quaresma – época de penitência entre o Carnaval e a Páscoa – as grades que as separam do mundo exterior se fecham um pouco mais. “É como se fosse nosso retiro, um período intenso de orações”, comenta a irmã Maria Isabel, veterana da casa, aos 55 anos. Mesmo assim, ela recebe a visita da reportagem – artigo raro nas dependências do carmelo – com um sorriso no rosto, ainda que tímido. Tira as mãos do escapulário debaixo da indumentária para cumprimentar os intrusos. Gesticula alegremente quando fala sobre a vida no claustro – “contemplativa”, como se diz na Igreja.

Maria Isabel nasceu Edna Maria, em Umuarama, no interior do Paraná. O nome de consagração é escolhido com a ajuda das superioras no carmelo e revelado a sua comunidade na cerimônia de entrega do Santo Hábito, quando faz os votos. É emocionante, ela garante. A partir desse dia, vale, para a comunidade, a nova alcunha: sempre um “Maria” seguido por um nome santo. O seu, homenageia a mãe do profeta João Batista. Há 19 anos, Edna virou Irmã Maria Isabel.

 

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Irmã Maria Isabel: Aos 55 anos, é a veterana entre as 13 freiras do único carmelo de Brasília

 

Ela tinha 36 anos quando recebeu o “chamado” para a vida de devota. Na época, o recanto das carmelitas descalças da sua cidade se desmanchava. As que sobraram foram para outros carmelos. Algumas ajudaram a fundar, em 1992, o primeiro e único mosteiro da ordem na capital da República. Maria Isabel foi uma das primeiras enclausuradas. “Mal tinha”, lembra, com graça.

Ela nunca quis ser outra coisa senão católica. Mesmo tendo entrado para a vida monástica não tão “noviça”, não fez faculdade, não se casou nem teve sonhos, além dos religiosos. Segundo conta, “vivia na igreja” até conhecer a vida de contemplação. Quando soube o que era um carmelo, não teve dúvidas.

Ao lado dela, a noviça irmã Maria Verônica anui com a cabeça, como quem se reconhece na história. A sua, no entanto, guarda particularidades. Batizada Ana Carolina, ela tem 26 anos. Foi mais precoce do que a “irmã” na vocação: desde os 19 anos. Nasceu em Brasília, mas não foi criada entre rezas e santos. Ia à missa de domingo. Queria ser servidora e estudou para concursos durante cinco anos. Até que teve o que chama de “encontro com Deus. Um chamado da Virgem Maria”, como descreve.

A permanência na igreja aumentou gradativamente. Passou da comunhão dominical aos grupos de jovens e aos estudos católicos. “Eu só queria ficar 24 horas por dia na igreja e nunca bastava”, lembra. “Até que um diretor espiritual me apresentou à vida religiosa. Mas a ativa. A de clausura, eu nunca quis. Não era para mim”, lembra.

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A noviça Irmã Maria Verônica: caçula das carmelitas descalças do DF

 

Mas foi. Quando conheceu o carmelo, sentiu-se atraída pelo carisma da vida monástica. As grades, a comunidade. Afastou-se dos amigos “do mundo” – palavras dela – e passou a se dedicar aos estudos da contemplação. Já são quatro anos de clausura e, pelo menos, mais três a separam dos votos perpétuos, quando deve trocar a cor do véu, que hoje é branco, como o de toda noviça, pelo preto.

“Representa que a pessoa ‘morreu’ para o mundo, mas aqui dentro tem muita vida”, explica Maria Isabel sobre a cor da roupa, fazendo o sinal das “aspas” com os dedos.

À família, a dor da despedida
Morrer para o mundo significa uma série de “mortes”. Quando atravessam a porta de madeira do carmelo, uma estrutura imponente com tranca apenas do lado de dentro, a religiosa deixa para trás amigos e familiares. Muitas vezes, de luto. Nem Maria Isabel nem Maria Verônica têm histórias fáceis sobre o impacto de suas decisões na família. É “doído”, dizem.

“Assusta. Machuca muito”, afirma Maria Isabel. “Acredito que um pouco porque se tenha a visão da mulher como mãe. Mas entrar aqui é um presente de Deus”, comenta.

Deus fez todas as mulheres com o dom da maternidade. Não deixamos de ser mães quando entramos para a vida religiosa. Nos tornamos mães espirituais."
Irmã Maria Isabel

A ainda noviça Maria Verônica também não trouxe exatamente alegria ao pai quando comunicou a decisão de trocar os planos que ele tinha para a filha pela clausura religiosa. “Quando saímos, a graça de Deus acompanha nossos pais. Não existe vazio”, diz. Passou. Hoje, afirma a religiosa, o pai é o “primeiro a defender” a permanência dela no claustro, se alguém lhe questiona a decisão.

Na análise de Regina Soares Jurkewicz, doutora em sociologia da religião, estudiosa na área de gênero e religião e membro da coordenação do grupo Católicas pelo Direito de Decidir, o “luto” da família passa um pouco pelo papel da mulher na Igreja Católica. Ao contrário de filhos que deixam o lar pelo seminário, elas jamais ocuparão uma posição na hierarquia da religião, reservada apenas ao sexo masculino.

“Um padre é alguém que ocupa um espaço de poder. Vai ter um salário – mesmo que pequeno –, uma série de relações sociais. Há um certo respeito. Para a freira, até há respeito, mas não uma consideração maior”, compara a religiosa e acadêmica. “Ela é vista como alguém que está para servir, trabalhar em colégios. Mas não para tomar decisões”, diz.

As mulheres na nossa sociedade são vistas fundamentalmente como mães, procriadoras. Parece que falar de mulher é a mesma coisa que falar de mãe. Quando uma religiosa sai dessa proposta, ela está negando o papel. Esse é outro fator. Ninguém cobra que um homem seja pai."
Regina Soares Jurkewicz, doutora em sociologia da religião e membro da coordenação do grupo Católicas pelo Direito de Decidir

Liberdade atrás das grades
As grades que tornam desajeitado até mesmo um aperto de mãos com alguém do outro lado do claustro não significam uma prisão. Pelo menos, não na visão de quem está detrás das barras de ferro. Mas, são, como define a veterana das carmelitas brasilienses, um símbolo do que a vida monástica é: obediência, silêncio e oração. “Não é o fim da liberdade. A liberdade de cada um está na sua vocação. A minha é essa. A de outra pessoa pode ser a maternidade, o trabalho”, compara Maria Isabel.

A cruz existe. Tem de ter. Faz parte da vida do cristão e da vida sobrenatural."
Irmã Maria Isabel

“A minha liberdade só começou aqui dentro”, complementa a noviça Maria Verônica. “A felicidade é uma escolha. Se eu escolhi, é porque é bom, porque me faz feliz”, simplifica.

Os dias no claustro são longos. Começam às 4h30, para a primeira oração do dia, e se estendem até lá pelas 22h, quando as irmãs se recolhem em suas celas – assim são chamados os quartos, individuais e simplórios. Nelas há apenas uma cama, uma escrivaninha, alguns poucos objetos pessoais. As freiras rezam em silêncio por duas horas, pelo menos. Podem fazer o que bem entendem durante uma hora todos os dias, após o almoço. Usam-na, quase sempre, para rezar ou dormir.

Nos chamados “recreios”, conversam e riem sobre o que quiserem. Tema livre, ou “mais ou menos”, brinca Maria Isabel. O carmelo tem uma quadra esportiva, mas serve só de enfeite. As carmelitas do DF não são muito de esportes. Os hábitos são iguais – exceto pela cor dos véus que diferenciam as solenes das noviças –, mas cada uma tem o seu próprio. O pijama, uma veste branca, também é igual para todas. Podem receber presentes das visitas, mas eles são fiscalizados pela Madre Superiora. Se pensam que não há sentido no que ganharam, doam ou repassam a outra carmelita. Coisas materiais mudam de significado da cela para dentro.

Modernidades
Há, no entanto, uma centelha de vida moderna no mosteiro. Uma TV, um computador e um celular com WhatsApp. As monjas aparecem sorridentes e enfileiradas na foto de perfil do aplicativo de conversa, posando ao lado do arcebispo militar do Brasil, Dom Fernando Guimarães. Não trocam correntes nem gifs animados em grupos de família. Usam com “parcimônia”, como descreve Irmã Maria Isabel, principalmente para tarefas como marcação de consulta ou trocar uma ou outra palavra com familiares: uma mensagem no aniversário da sobrinha, por exemplo. Tudo com aprovação da superiora.


Em 2016, ao atualizar as regras da vida contemplativa, o papa Francisco pediu que as freiras enclausuradas não se deixassem “dissipar” pela internet. Na época, ele disse que os meios digitais podiam até ser úteis, mas pediu “discernimento prudente” no seu uso. “Que sejam colocados a serviço da formação à vida contemplativa, e não de ocasiões de dissipação e fuga da vida fraterna em comunidade nem prejudiciais a sua vocação ou um obstáculo a sua vida inteiramente dedicada à contemplação”, rogou. A última Constituição sobre a vida em clausura havia sido publicada em 1950, pelo papa Pio 12, muito antes do advento do “zap”.

Para a TV, vale o mesmo. As monjas raramente ligam o aparelho, a não ser para se informarem sobre grandes acontecimentos, como guerras ou ataques terroristas. Assim, podem, inclusive, rezar pelas vítimas.

“A clausura não significa alienação”, avisa o padre João Cândido, assessor da Comissão Episcopal Pastoral para os Ministérios Ordenados e a Vida Consagrada da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). “A vida religiosa nunca é uma fuga do mundo. É uma vocação, uma escolha de vida, uma missão específica dentro da Igreja”, diz o religioso.

Regina Soares Jurkewicz ressalta que a clausura física não significa alienação social e política. Pelo contrário. Ela lembra de uma experiência com religiosas oblatas de São Bento, em São Paulo, ainda no início da ditadura. “Elas tinham uma perspectiva bastante progressista e eram muito inseridas – não fisicamente – no contexto social. Elas sabiam o que estava acontecendo. Não eram pessoas desinformadas. A clausura e a contemplação não necessariamente casam com a ideia de uma igreja conservadora social e moralmente”, analisa.

Regina lembra ainda que, apesar da visão de que o tempo parou na Idade Média para quem vive em convento, o Brasil foi um dos últimos países da América Latina a instalar um, lembra a irmã Regina. “O caminho conventual no Brasil é bastante tardio. Viver fechado não é clausura. A clausura é uma contemplação. E pode-se, inclusive, contemplar a realidade. Elas têm um papel importante”, diz.

Para o religioso da CNBB, por sua vez, o papel vai além da contemplação: as enclausuradas resumem, na sua visão, a missão da Igreja Católica. “A missão da igreja é rezar. Essas monjas e monges são como que um para-raios para a Igreja. Eles intercedem por ela [a Igreja]. É uma vida programada para a oração”, conclui padre João Cândido.