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Brasil

Professores da rede pública relatam desafios do uso do celular em sala

O uso do celular em sala de aula é discutido em projeto de lei que visa vetar o uso do aparelho no ambiente escolar

11/11/2024 02:00, atualizado 12/11/2024 14:16
Chokniti Khongchum / EyeEm/ Getty Images
Celular sendo utilizado

No auge da discussão sobre o projeto de lei (PL) nº 104/2015, que veta o uso de aparelhos eletrônicos na sala de aula, professores relatam desafios diários para manter o controle sobre o uso do celular em sala e garantir uma aprendizagem menos dispersa para os alunos.

O objetivo é ter uma lei de âmbito nacional que possa regular e proibir o uso do aparelho celular dentro da sala de aula, seja na escola pública ou privada. O uso é proibido apenas em caso de recreação, sem se estender para emergências ou para fins pedagógicos.

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Ao longo dos 18 anos de sala de aula, Hakelly Cruz, professora de português do ensino fundamental da rede pública, percebeu na prática a diferença de gerações dos alunos que passaram por sua docência, acompanhando a evolução da tecnologia e a chegada dela para a sala de aula.

“Antigamente eu percebia alunos menos dispersos e ansiosos. É uma percepção que vem do dia a dia enquanto acompanho o vício que vai além do ambiente escolar. Muitos alunos chegam cansados, com olheiras e com sono por ter virado a noite na internet e sem o controle dos pais.”, relata a professora.

Como professora de português, a docente relata que o desinteresse aparece também no hábito de escrever e atrapalha em matérias essenciais, como a redação. “Durante correções de redações do CAED [Centro de Políticas Públicas e Avaliação da Educação], um programa de avaliação contínua das aprendizagens, vemos o ‘internetês’ indo para as redações. Muitas abreviações, como se fosse uma conversa informal no WhatsApp.”

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Aliados e riscos

Apesar de reconhecer os avanços tecnológicos como possíveis aliados e a possibilidade de usá-lo de forma pedagógica dentro de sala, Hakelly também alerta que dentro do ambiente da escola pública, ele pode ser um objeto de segregação dos alunos.

“Existe o outro lado da história, temos alunos que sequer tem celular. Na rede pública, lidamos com alunos de todas as classes sociais e dentre elas, tem aqueles que vão para a escola buscando acesso a alimentação e nessas condições, obviamente não possuem um celular. Nessa hora, esbarramos nas limitações e pode surgir uma forma de prejudicar uns enquanto potencializamos o privilégio de outros.”

Larine Araújo é professora de química e também atua na rede pública. Em oito anos de sala de aula, ela relata perceber uma mudança comportamental

“Os alunos estão menos focados em sala de aula e estão mais apegados ao celular e as informações de fácil acesso. Eles demonstram estar mais ‘viciados’ nas redes sociais e até mesmo em criar conteúdo dentro da escola.”

Dentro das exigências que o corpo docente tem com os alunos, a professora optou por tentar flexibilizar e encontrar acordos em algumas brechas da aula. “Enquanto não estou explicando matéria ou quando termina a atividade. É algo combinado, assim como ida ao banheiro e beber água, mas tem consequências caso insistam em descumprir o que foi acordado.”

Na questão didática, para ela a tecnologia faz parte da sua área de atuação então ela tenta ao máximo adaptar para uma questão pedagógica.

“A gente tenta viabilizar a saída da questão de testes, avaliações de papel e caneta para tentar sair da rotina e despertar um pouco mais de interesse. A gente traz a tecnologia porque já tá na palma da mão dele e para lidar com a questão de alguns não terem aparelho celular, a gente monta atividades em duplas ou trios, já que temos uma maioria com o aparelho.”

A docente também reforça que é importante os educadores e a família assumirem um papel de orientação para esses jovens e as questões que envolvem tecnologias e redes sociais.

“Os adolescentes estão sendo bombardeados de informações, então a gente precisa trabalhar para que eles consigam perceber e serem críticos em relação a usar essa ferramenta. É difícil, mas temos esse papel de orientá-los em relação à utilização desses equipamentos e esse é um trabalho em conjunto com a família.”

PL nº 104/2015

O projeto de lei, que veta o uso de aparelhos eletrônicos nas salas de aula, foi aprovado na quarta-feira (30/10) na Comissão de Educação da Câmara dos Deputados. O texto, agora, segue para a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) e, depois, para votação no plenário.

O ministro da Educação, Camilo Santana, afirmou ser consenso no Ministério da Educação (MEC) o veto do uso de celular no ambiente escolar, principalmente dentro de sala de aula. Durante a coletiva realizada no G20 Educação em Fortaleza (CE),  no mesmo dia em que o PL foi aprovado na comissão, o chefe da pasta informou que a ideia é aproveitar os projetos de lei que já tramitam no Congresso, em vez de apresentar proposta própria.

“Temos a ideia de aproveitar projetos de lei já estão na Câmara. O MEC está dialogando com projeto que já está sendo discutido na Comissão de Educação, para que a gente possa aprovar um projeto que possa regular e proibir o uso do aparelho celular individual dentro da sala de aula”, afirmou Santana.