Povo Yanomami narrou, em documento, morte de seis crianças em 18 dias

Comunidade Yanomami enviou pedido de socorro a diferentes órgãos, alertando sobre aumento de óbitos por doenças tratáveis

atualizado

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Fernando Frazão/Agência Brasil
Crianças Yanomami
1 de 1 Crianças Yanomami - Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Antes de serem tidos como vítimas de uma crise humanitária, em janeiro deste ano, após anúncio do governo federal, indígenas do povo Yanomami já haviam pedido ajuda meses antes a diferentes órgãos do Poder Executivo. Em ofício de 13 de setembro do ano passado, eles narram uma situação desesperadora: no mínimo seis crianças teriam morrido em menos de 18 dias — todas por doenças tratáveis.

“Um quadro de desassistência à saúde generalizada na região vem levando à morte indígenas por doenças que poderiam ser facilmente tratáveis, como síndromes respiratórias, diarreia, e verminoses. Apenas nas últimas três semanas, seis crianças tiveram a morte confirmada. Duas morreram no hospital de Boa Vista, uma faleceu a caminho do hospital, a quarta foi resgatada e morreu na UBSI de Surucucu, e outra morreu na sua comunidade”, afirma o documento.

As mortes aconteceram entre 23 de agosto e 10 de setembro de 2022, portanto. Fora essas seis crianças mortas, outras três haviam morrido em julho por enfermidades parecidas, pneumonia e verminoses. A causa dessas complicações, como se sabe, foi o garimpo, e os Yanomamis deixaram isso claro no pedido de ajuda. A situação ficou pior por falta de remédios, afirma o documento.

Ainda em 2021, os Yanomamis denunciaram ao governo federal que garimpeiros estavam desviando remédios e vacinas do Distrito Sanitário Especial Indígena Yanomami (DSEI-Y) com ouro. “Segundo relatos de área, os postos de saúde não dispõe da quantidade de medicamentos necessária para o controle de verminoses, impossibilitando o tratamento e a prevenção de comunidades inteiras”, diz o documento de 2022.

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Garimpo na terra Yanomami
Crianças Yanomamis com desnutrição grave apresentaram melhora
Indígenas Yanomamis caminham em estrada de barro e carregam suprimentos
Grupo de cerca de 20 Yanomamis vive às margens da BR-174
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Indígenas Yanomamis caminham em estrada de barro e carregam suprimentos
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Indígenas Yanomamis caminham em estrada de barro e carregam suprimentos

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Grupo de cerca de 20 Yanomamis vive às margens da BR-174
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Grupo de cerca de 20 Yanomamis vive às margens da BR-174

Rovena Rosa/Agência Brasil

O pedido de socorro foi feito pela Hutukara Associação Yanomami, entidade que representa o povo originário, e foi enviado à Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), à Polícia Federal, ao Exército Brasileiro, ao Distrito Sanitário Especial Yanomami e Ye’kwana, ao Conselho Distrital de Sáude Indígena Yanomami e Ye’kwana e ao Ministério Público Federal (MPF).

Subnotificação de mortes

O apelo ao governo federal conta ainda que, apesar do alto número de mortes, há subnotificação dos óbitos. Isso acontece porque, com poucos médicos disponíveis para atender o povo indígena, não havia quem assinasse os fichas de óbito. Em outras situações, não estava presente alguém responsável no momento da morte. “Infelizmente, a situação real só poderá ser dimensionada quando for retomado o censo populacional de maneira precisa”, diz o texto.

Yanomami: investigação do MPF detalha ação de garimpeiros em terra indígena

Sensação de insegurança

Outra questão posta pelos indígenas é que muitos postos de saúde foram fechados pela sensação de insegurança causada pelo garimpo. Na Serra dos Surucucus seis postos foram abandonados; em Homoxi, o posto de saúde foi sequestrado pelos garimpeiros, que passaram a usar a pista de pouso que deveria servir o estado. No Xitei, um conflito armado fechou a unidade de saúde.

“Como se vê, a maioria dos postos de saúde foram fechados em razão da sensação de insegurança, que por sua vez é efeito direto do avanço do garimpo ilegal e do consequente aumento do fornecimento de armas e bebidas alcoólicas nos mesmos. O crescimento do garimpo na região incita um ciclo de violência e insegurança que leva ao aumento de conflitos sangrentos”, diz ainda o documento.

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