
Por governabilidade, Lula inicia conversas com partidos que apoiaram Flávio
Encontro com Motta e Alcolumbre marca início da aproximação com o Centrão, que apoiou Flávio e deve negociar espaço no novo governo
27/10/2026 04:30

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) começou pelo caminho mais fácil a articulação política para seu quarto mandato. Fez uma reunião com os presidentes da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), e do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), nessa segunda-feira (26/10), no Palácio da Alvorada.
Os dois apoiaram a reeleição do petista, apesar de seus partidos terem declarado apoio a Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno. Agora, deverão funcionar como pontes entre o Planalto e o Centrão, cujas legendas serão fundamentais para assegurar a governabilidade a partir de 2027.
O encontro durou cerca de duas horas. Motta e Alcolumbre articulam a recondução às presidências das respectivas Casas em fevereiro de 2027 e devem contar com o apoio do governo.
Nas redes sociais, Motta afirmou que foi ao Alvorada para cumprimentar Lula e “reafirmar nosso compromisso de harmonia entre os Poderes”. O presidente da Câmara também defendeu o trabalho conjunto do Congresso para avançar nas pautas do país.
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesDiálogo, respeito institucional e compromisso com o futuro. Estivemos hoje com o presidente Lula para cumprimentá-lo e desejar êxito no novo mandato, reafirmar nosso compromisso de harmonia entre os Poderes e o trabalho conjunto do Congresso pelo avanço do Brasil. 🇧🇷 https://t.co/zbJU2xTNjw
— Hugo Motta (@HugoMottaPB) October 26, 2026
A relação dos dois parlamentares com Lula, entretanto, não significa que as negociações com as cúpulas partidárias já estejam formalizadas.
O Republicanos e a federação União Progressista, formada por PP e União Brasil, apoiaram Flávio no segundo turno.
Em conversa reservada com o Metrópoles, um dirigente do Centrão afirmou que, até esta segunda-feira, não foi realizada contato entre Lula e a direção da sua legenda para tratar da composição do próximo governo.
Publicamente, o presidente nacional do partido, Marcos Pereira, declarou que reconhece a vitória do petista e defendeu que o novo mandato contemple também os eleitores de Flávio, com “respeito às diferenças e diálogo com o Congresso Nacional”.
Centrão
O PP também iniciou movimentações internas diante do novo cenário político.
Nesta segunda-feira, integrantes da legenda, entre eles a senadora Tereza Cristina (MS) e o senador eleito Arthur Lira (AL), reuniram-se no Senado.
As manifestações dos dois parlamentares ilustram as diferentes posições dentro da legenda.
Lira reconheceu o resultado das urnas e afirmou que chegou a hora de trabalhar com “diálogo e responsabilidade”. Tereza Cristina, por outro lado, sinalizou que pretende atuar na oposição: “Nós estaremos lá para fiscalizar esse governo e lutar pelo país que queremos”.
A negociação por espaços na Esplanada dos Ministérios faz parte da dinâmica tradicional do Centrão, formado por partidos que costumam negociar participação no Executivo em troca de apoio no Legislativo.
Lula, por sua vez, tem um histórico de governos de coalizão. Desde o primeiro mandato, em 2003, o petista buscou reunir partidos de diferentes orientações políticas para assegurar maiorias no Congresso.
O modelo, porém, não garante fidelidade automática. No terceiro mandato, Lula distribuiu ministérios a legendas como MDB, PSD e União Brasil, mas enfrentou derrotas em votações importantes.
A disputa por espaço na Esplanada
A composição do novo governo também terá de acomodar aliados próximos de Lula, incluindo nomes da esquerda e da centro-esquerda que não se elegeram neste ano. Entre os políticos citados nas articulações para 2027 estão:
- Gleisi Hoffmann (PT): ex-ministra das Relações Institucionais, não conseguiu se eleger senadora pelo Paraná e é cotada para retornar à Esplanada.
- Marina Silva (Rede) e Simone Tebet (PSB): deixaram o governo para disputar vagas no Senado por São Paulo, mas foram derrotadas.
- João Campos (PSB): presidente nacional do partido e derrotado na disputa pelo governo de Pernambuco, é mencionado para uma pasta ligada à ciência e tecnologia.
- Fernando Haddad (PT): derrotado na eleição para o governo de São Paulo, também é considerado para um ministério de destaque.
- Randolfe Rodrigues (PT): senador e aliado de primeira hora de Lula, não conseguiu se reeleger pelo Amapá.
A necessidade de contemplar esses aliados reduz o espaço disponível para negociações com partidos de centro. Ao mesmo tempo, Lula precisará de sustentação parlamentar para aprovar projetos, medidas provisórias e propostas que exigem quórum elevado.
Outra possibilidade de aceno ao Senado envolve a vaga no Supremo Tribunal Federal (STF) ainda pendente de preenchimento. O nome do ex-presidente da Casa Rodrigo Pacheco, atualmente no Tribunal de Contas da União (TCU), voltou a circular como alternativa capaz de aproximar Lula de Alcolumbre.
O petista havia optado anteriormente por Jorge Messias, advogado-geral da União e nome de sua confiança, mas a indicação foi rejeitada pelos senadores. Uma nova escolha ainda depende de decisão do presidente, e não há acordo anunciado.
A dificuldade de construir uma maioria fica evidente na composição do Congresso eleito para 2027:
Câmara: o PL terá 121 dos 513 deputados, enquanto o PT contará com 70.
Senado: o PL terá 29 dos 81 senadores, contra 10 do PT.
Comando das Casas: Motta reúne apoio de partidos que elegeram 273 deputados, enquanto Alcolumbre enfrenta a possibilidade de uma candidatura de oposição, liderada por Rogério Marinho (PL-RN).
No discurso da vitória, Lula reconheceu que precisará negociar com um Legislativo escolhido pelos eleitores.
“Eu não escolhi o Congresso, foi o povo que escolheu”, afirmou.






