Pré-candidatos Ciro e Boulos tropeçam em dados sobre economia
Em entrevistas e eventos, os políticos do PDT e do PSOL falaram sobre trabalho informal, salário mínimo e bancos
Na semana passada, Ciro Gomes (PDT) e Guilherme Boulos (PSOL) lançaram-se pré-candidatos à Presidência da República e começaram a disputar o voto dos eleitores de esquerda. A Lupa verificou algumas de suas falas em entrevistas, artigos e discursos recentes. Veja a seguir o resultado:
“Não por acaso, a Alemanha tem o maior custo [do trabalho] por hora trabalhada do mundo e a economia mais competitiva do planeta Terra”
Ciro Gomes, pré-candidato à presidência da República, em entrevista ao Poder360, no dia 8 de março de 2018

Além disso, segundo o Fórum Econômico Mundial, o país tem a quinta economia mais competitiva do planeta. A liderança fica com Cingapura. Para o Centro Mundial de Competitividade, ligado ao International Institute for Management Development (IMD), atualmente classifica a economia alemã como a 13ª mais competitiva do mundo. Para eles, a número um é Hong Kong.
Procurado, Ciro não respondeu.
“Chegamos ao cúmulo de, em janeiro agora, a quantidade de brasileiros na informalidade (…) ser maior que o setor formalizado de trabalho”
Ciro Gomes, pré-candidato à presidência da República, em entrevista ao Poder360, no dia 8 de março de 2018

Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua Trimestral (Pnadc/T), do IBGE, o Brasil tem 44,2 milhões de empregados formalizados e 43,5 milhões de empregados informais, autônomos ou auxiliares familiares. Esses dados, no entanto, referem-se ao último trimestre de 2017 – anterior à data citada por Ciro. Vale destacar que a série histórica sobre esse assunto mostra que, desde o primeiro trimestre do ano passado, o país observa um crescimento significativo no número de trabalhadores informais e uma estagnação no total de formalizados. Isso faz com que a proporção de empregados informais frente ao total de trabalhadores ocupados esteja no ponto mais alto desde 2012.
A melhor forma de analisar o número de trabalhadores formais no Brasil utilizando dados do IBGE é pela Pnadc/T. Nela, a força de trabalho é dividida em dez categorias: empregadores, empregados do setor privado (com e sem carteira assinada), do setor público (efetivos, com e sem carteira assinada), trabalhadores por conta própria, domésticos (com e sem carteira assinada) e trabalhadores auxiliares familiares.
De acordo com os números da última Pnadc/T, 44,2 milhões de brasileiros são empregados com carteira assinada, considerando o setor público, o setor privado e os trabalhadores domésticos. Nessas três categorias, são 18,1 milhões de trabalhadores sem carteira assinada.
Além disso, há 23,2 milhões de pessoas trabalhando por conta própria e 2,2 milhões de trabalhadores familiares auxiliares. Se somadas essas três categorias, chegamos a 43,5 milhões de pessoas cujo trabalho não é formalizado — ligeiramente abaixo dos 44,2 milhões de formais. A pesquisa é referente ao quarto trimestre de 2017.
Desde o início da série histórica da atual metodologia, no primeiro trimestre de 2012, a relação entre informais e formais está no seu ponto mais alto. No segundo trimestre de 2014, o número de informais era equivalente a 84,2% ao número de formais. Hoje, essa razão está em 98,5%.
Isso ocorre porque, enquanto o número de empregos formais está estagnado desde o primeiro trimestre de 2017 (após 11 trimestres de queda), o número de trabalhos informais cresce.
Há, ainda, a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Mensal (Pnadc/M), cujos dados referentes a janeiro (tecnicamente, ao trimestre novembro, dezembro e janeiro) já estão disponíveis. Entretanto, as categorias utilizadas nesta pesquisa são menos pormenorizadas, logo, o cálculo é menos preciso.
Considerando somente os trabalhadores do setor privado, formais e informais, os por conta-própria e os trabalhadores familiares auxiliares, é possível dizer que o número de informais ultrapassou o número de formais no trimestre móvel de novembro, dezembro e janeiro de 2015/2016. Entretanto, é preciso frisar que esse número desconsidera tanto o setor público quanto os trabalhadores domésticos.
Procurado, Ciro não respondeu.
“[O governo] Deu uma isenção fiscal, em momento de gravíssima crise no Brasil, de R$ 1 trilhão nos 20 anos próximos [às petrolíferas]”
Ciro Gomes, pré-candidato à presidência da República, em entrevista ao Poder360, no dia 8 de março de 2018

A Medida Provisória nº 795, convertida na Lei nº 13.586/2017, foi apresentada pelo governo Temer em agosto, e isenta ou reduz a cobrança de vários impostos sobre a aquisição de equipamentos para a exploração de petróleo para empresas petrolíferas. Inicialmente, o prazo era de cinco anos, mas ele foi estendido para 22 anos durante a votação na Câmara.
Uma nota técnica
Entretanto, esse não é o único estudo sobre o assunto. Outra nota técnica

“O salário mínimo aumentou 70% [em razão do governo Lula]”
Guilherme Boulos (PSOL), no debate entre pré-candidaturas à Presidência pelo PSOL, no dia 7 de março

O salário mínimo aumentou 63,7% durante o governo Lula. Em janeiro de 2003, primeiro mês de Lula como presidente da República, o salário mínimo era de R$ 200,00. Em valores corrigidos pelo IPCA, isso representa R$ 485,01 em valores atuais. Em dezembro de 2010, no último mês de governo Lula, o salário mínimo era de R$ 510,00, ou R$ 794,32 em valores atuais. Procurado, Boulos sustentou que, em valores reais, o aumento havia sido de 70%.
“Lucro do Itaú, Bradesco, Santander e Banco do Brasil somaram R$ 65 bilhões em 2017”
Guilherme Boulos (PSOL) em sua conta no Twitter, no dia 23 de fevereiro

O Banco Central só divulgará essa informação de forma oficial no fim do mês de março. Há, no entanto, um levantamento feito pela consultoria Economática que indica que a soma dos lucros obtidos por esses quatro bancos em 2017 é de R$ 57,63 bilhões
“Existem 7,05 milhões de imóveis vazios, em situação de abandono [no Brasil]”
Guilherme Boulos (PSol) em artigo na revista Carta Capital no dia 5 de março

Segundo o estudo, o Déficit Habitacional de 2013-2014, da Fundação João Pinheiro, instituição de pesquisa e ensino do governo de Minas Gerais, existiam 7,2 milhões de moradias vazias no país naquele período (página 39). Os dados oficiais mais recentes sobre o assunto são mais antigos que isso, do Censo de 2010, do IBGE, mostra que há cerca de 6,07 milhões de domicílios vagos no Brasil. São Paulo e Minas Gerais são os estados com mais domicílios vagos – respectivamente, 1,112 milhão e 689 mil.
*Por Chico Marés, Nathália Afonso



