Marina vive pior momento das três campanhas presidenciais
Candidata da coligação Rede-PV despenca nas pesquisas e, na reta final do primeiro turno, prioriza Nordeste e discurso contra radicalização
atualizado
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Antes do início do horário eleitoral na TV, Marina Silva (Rede-PV) figurava na vice-liderança nos levantamentos sem o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva entre os concorrentes. Ficava atrás apenas do líder, Jair Bolsonaro (PSL). Mais do que isso, nas simulações de segundo turno, a candidata vencia o militar reformado com margem superior a 10 pontos percentuais.
A performance exibida nas projeções eleitorais posicionava a presidenciável da Rede como uma das favoritas para o Palácio do Planalto. A pesquisa Datafolha da última sexta-feira (14/9) mudou essa perspectiva. Em pouco mais de três semanas, de acordo com a sondagem, a postulante ao Executivo nacional caiu de 16% para 8% nas intenções de voto.
Esse é o menor índice alcançado nas três eleições presidenciais disputadas por Marina. Um histórico de levantamentos do Datafolha desde a redemocratização, publicado pela Exame, mostra que o menor percentual obtido pela ex-ministra do Meio Ambiente, até então, era de 9%, em março de 2010, na primeira consulta com seu nome entre concorrentes à Presidência da República.
Uma das coordenadoras da campanha, Andrea Gouveia considera natural o resultado da consulta acerca da preferência dos eleitores. “Na verdade, a campanha começou agora. Antes, não era real, era uma ilusão. Nem havia o candidato do PT”, diz a dirigente política, referindo-se a Fernando Haddad, oficializado pela sigla petista, na última semana, para disputar a corrida pelo Planalto.
Na opinião de Andrea, o eleitorado permanece em movimento. Não se mediu, por exemplo, o potencial de Haddad depois de ele ter sido confirmado como cabeça de chapa. “Por enquanto, está todo mundo embolado em segundo lugar. Só o Bolsonaro está isolado”, acrescenta. O presidenciável do PSL tem 26% dos votos, com base na mais recente sondagem do Datafolha.
Para as últimas semanas de caça aos votos para o primeiro turno, o comando de campanha da presidenciável prevê poucas mudanças – nenhuma brusca. O foco da candidata deve ser o Nordeste, onde ela perdeu boa parte do eleitorado que teve nas duas eleições anteriores e, também, nas pesquisas de até um mês atrás.
Ao mesmo tempo que fugiram de Marina, os nordestinos transferiram suas intenções de voto para Haddad e Ciro Gomes (PDT), agora empatados em 13%.
Embora a diferença de um ponto percentual esteja dentro da margem de erro, o patamar atual, de 8%, expõe um momento crítico para as pretensões da candidata da Rede. A perda de metade dos votos, em tão pouco tempo, levou a equipe da ex-senadora a repensar as ações para a reta final do primeiro turno.
Governo de transição
Na nota distribuída logo depois da divulgação da última pesquisa, Marina tratou os números como “retrato momentâneo” da eleição “mais incerta” da história recente do país.
A presidenciável reforça, no mesmo comunicado, os eixos principais de seu discurso em 2018: “Seguiremos percorrendo o Brasil e vamos mostrar aos eleitores que existe, sim, uma candidatura capaz de fazer um governo de transição e ficha limpa, encerrar o ciclo de polarização e ódio que assola o país e reconduzir nossa economia ao caminho do crescimento, com sustentabilidade, ética e competência”, diz trecho do documento.
A partir da próxima terça-feira (18), os programas de TV vão centrar as peças de campanha nessas linhas de atuação. Em entrevista ao Metrópoles, Andrea Gouveia reafirmou a importância da disposição de Marina para fazer um governo de “transição” de quatro anos, sem reeleição, para o unir o Brasil e fugir dos extremos que dominam a discussão política nacional.
A curva descendente no gráfico dos institutos de pesquisa contraria a expectativa criada pelo desempenho nas duas primeiras tentativas, quando Marina se revelou uma candidata surpreendente e competitiva. Em 2010, na primeira disputa à Presidência da República, à época filiada ao PV, a ex-ministra chegou em terceiro lugar, com 19,3%, atrás de Dilma Rousseff (PT) e José Serra (PSDB), que passaram para o segundo turno.
Em 2014, a morte do ex-governador de Pernambuco Eduardo Campos (PSB), de quem era vice na chapa presidencial, colocou a ex-ministra mais uma vez na corrida ao mais elevado posto do país. Com o apoio dos socialistas, por algum tempo, alcançou 34% e dividiu a liderança com Dilma, candidata à reeleição.
Apresentada pelos adversários, sobretudo petistas, como vacilante e ligada ao sistema financeiro, Marina ficou em terceira posição. Ainda assim, destacou-se na votação por conquistar 21,3% dos votos.
Em outras palavras, um em cada cinco eleitores deu preferência para a ex-ministra do Meio Ambiente na disputa ao Executivo nacional. Para se ter uma ideia do que esse número representa, nas eleições atuais, apenas Bolsonaro ultrapassa esse patamar, seguido de Ciro Gomes (PDT) e Fernando Haddad (PT), na faixa dos 13%, segundo o Datafolha.
Rejeição
Um dos fatos negativos observados nos levantamentos eleitorais é alta taxa de rejeição da presidenciável. Nesse quesito, a candidata da Rede alcança 30% e perde apenas para o deputado do PSL, com 44%.
A aversão ao nome de Marina, em parte, explica-se pelo seu afastamento de parcela significativa da esquerda tradicional. Particularmente do PT, partido com o qual rompeu em 2009 depois de mais de duas décadas de filiação.
A ex-petista passou a ser tratada como traidora pelos integrantes da sigla, principalmente em 2014, depois que apoiou Aécio Neves (PSDB) no segundo turno contra Dilma, que saiu vitoriosa. Também por ter se mostrado favorável ao impeachment da então presidente da República, em 2016.
Ao analisar os últimos resultados obtidos pelo Datafolha, Andrea Gouveia relativizou as preocupações quanto à alta taxa de rejeição e, também, ao fato de que setores contemplados pelo discurso de Marina não correspondam na hora de definir os votos. É o caso, por exemplo, das mulheres e de minorias. “Achamos natural que, quando a intenção de votos cai, aumente a rejeição”, diz a dirigente.
Com apenas 21 segundos nos programas de TV e com pouco dinheiro em caixa – por causa da concentração dos recursos do Fundo Eleitoral nos grandes partidos – a candidata da Rede tem pela frente um dos maiores desafios de sua vida.
Para quem nasceu em um seringal no Acre, alfabetizou-se aos 16 anos e, por duas vezes, ficou em terceiro lugar nas disputas pelo Planalto, não parece um sonho impossível. Para a realidade eleitoral brasileira, o desafio toma proporções amazônicas.
