Investidores veem risco de reforma da Previdência travar no Congresso

Em Davos, clima é de preocupação com a resistência de parlamentares à aprovação do texto

atualizado 22/01/2019 8:40

Rafaela Felicciano/Metrópoles

No discurso de abertura do Fórum Econômico Mundial, o presidente Jair Bolsonaro vai falar da importância da reforma da Previdência para o país, mas investidores internacionais têm dúvidas se o novo governo conseguirá apoio do Congresso Nacional para aprová-la.

Essa desconfiança foi expressa ontem pelo diretor adjunto do Departamento de Pesquisa do Fundo Monetário Internacional (FMI), Gian Maria Milesi-Ferretti, a jornalistas brasileiros, em Davos. “Na área fiscal, a reforma da Previdência é importante, mas pode não passar pelo Congresso”, disse Milesi-Ferreti.

O executivo de um banco suíço de investimentos diz que não vê mudanças no Congresso brasileiro a ponto de garantir a aprovação da reforma. Ele lembrou da dificuldade que Michel Temer teve quando tentou, sem sucesso, mudar as regras de aposentadoria no país.

A proposta começou com uma economia de R$ 800 bilhões em 10 anos. Com as modificações feitas para conseguir aprovar o texto no Congresso, esse ganho foi desidratado para menos de R$ 400 bilhões e virou motivo de incerteza entre os investidores diante da perda de força do seu impacto para as contas públicas e para a sustentabilidade da Previdência.

Agora, a equipe do ministro da Economia, Paulo Guedes, estuda entre as propostas uma reforma que tenha impacto de até R$ 1 trilhão em 10 anos – o que, segundo esse investidor, também é um fator de incerteza.

Em conversas informais na véspera da abertura, investidores também manifestaram preocupação de que as denúncias envolvendo Flávio Bolsonaro, o filho mais velho do presidente, minem o capital político de Bolsonaro entre os parlamentares justamente no momento de votação da proposta.

A expectativa em Davos é de que Bolsonaro e Guedes avancem em detalhes da proposta durante o evento. Um assessor do presidente que está em Davos informou ao Estadão/Broadcast que essa é uma possibilidade. O deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), filho do presidente, disse, no entanto, que os detalhes serão dados no Brasil, por ser um assunto que interessa mais aos brasileiros do que à comunidade internacional. “Todos sabem que estamos estudando. Mas isso é para apresentar no Brasil.”

Bolsonaro recebeu a proposta na última quinta-feira (17/1) e aproveitou a viagem para discutir a estratégia com seus ministros. Um ministro que integra a comitiva do presidente disse que os militares vão entrar na reforma da Previdência em linha com as declarações do presidente em exercício, Hamilton Mourão.

Nessa segunda-feira (21), em Brasília, ele defendeu um período de transição para aumentar de 30 para 35 anos o tempo mínimo de serviço para que militares se aposentem. Além disso, voltou a propor o fim do pagamento integral de pensão por morte de integrantes das Forças Armadas. Ele negou que haja resistência a esses temas. “São assuntos que estão sendo discutidos. Militar não resiste, militar é tranquilo, são os mais fáceis”, declarou.

Mourão disse que a proposta de reforma da Previdência deverá ser apresentada pelo governo só depois das eleições para a presidência da Câmara e do Senado. E negou que o caso envolvendo Flávio Bolsonaro atrapalhe a negociação da proposta no Congresso. “Isso não tem influência.”

Ainda nessa segunda, Guedes disse ao governador de São Paulo, João Doria, que a reforma é “prioridade absoluta” e pediu apoio para que o texto seja votado no primeiro quadrimestre deste ano. Os dois se encontraram rapidamente no hotel onde estão hospedados em Davos. Ao chegar para a reunião do fórum, Bolsonaro disse que está lá para mostrar que “o Brasil mudou”.

Últimas notícias