Denúncia de cobrança de propina de US$ 1 por vacina é “gravíssima”, diz Aziz

Vice-presidente da CPI, Randolfe Rodrigues (Rede AP) também se pronunciou sobre o assunto nas redes sociais: "Corrupção, ladroagem"

atualizado 29/06/2021 22:24

CPI da Covid _ CPI da Pandemia _ Randolfe rodrigues _ Omar AzizRafaela Felicciano/Metrópoles

O presidente da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid-19, senador Omar Aziz, considerou “gravíssima” a notícia de que um diretor do Ministério da Saúde pediu propina de US$ 1 por cada dose de vacina durante tentativa de fornecer imunizantes ao governo.

O senador afirmou que a CPI chamará o funcionário do Ministério da Saúde Roberto Ferreira Dias, diretor de Logística da pasta, para prestar depoimento. A denúncia foi feita em reportagem da noite desta terça-feira (29/6) do jornal Folha de S.Paulo.

“Essa matéria é gravíssima. Lembram que o Luis Miranda disse que ele conversou ao telefone com uma pessoa que falou que poderia dar vantagens para ele. Ele fala desse servidor, e esse servidor terá que explicar muita coisa,  inclusive isso que saiu nessa matéria”, disse o senador, em entrevista à Globonews.

“O governo pedindo um dólar por vacina, quando você fala um dólar, a pessoa acha que não é nada. Mas o Brasil está comprando 100 milhões de doses, 20o milhões de doses. Aí se multiplica por R$ 5, que é o valor do dólar, dá R$ 1 bilhão [na verdade, R$ 2 bilhões]. Não são números pequenos. São números que assustam qualquer brasileiro”, contabilizou o senador.

Aziz também se manifestou pelas redes sociais. Ele afirmou que pretende ouvir o representante Luiz Paulo Dominguetti Pereira na próxima sexta-feira (2/7). “Denúncia forte. Vamos convocar o senhor Luiz Paulo Dominguetti Pereira para depor na #CPIdaPandemia na próxima sexta-feira, dia 02/07″, disse o senador.

Denúncia forte. Vamos convocar o senhor Luiz Paulo Dominguetti Pereira para depor na #CPIdaPandemia na próxima sexta-feira, dia 02/07. https://t.co/iGPGDV2aD6

Vice-presidente da CPI, Randolfe Rodrigues (Rede AP) também se pronunciou sobre o assunto nas redes sociais: “Corrupção, ladroagem”, disse o senador.

Randolfe se mostrou indignado diante das revelações da matéria: “E tudo não passava de corrupção! As pessoas morrendo e os caras ganhando dinheiro!”, disse o senador.

Outro que usou as redes sociais para se manifestar foi o senador Rogério Carvalho (PT-SE). Um dos mais atuantes da comissão, o parlamentar afirmou que “o governo não queria vacina queria propina”. “Mais de meio milhão de brasileiras e brasileiros mortos pela Covid-19 e recebemos novas denúncias de corrupção”, acrescentou.

Humberto Costa (PT-PE) endossou a fala do colega de bancada. O senador defendeu que o colegiado “irá atrás da verdade”. “Enquanto o mundo esperava na vacina uma salvação, Bolsonaro viu uma oportunidade de fazer dinheiro. Isso explica a demora para adquirir vacinas. Isso explica os motivos dos e-mails sem resposta. Isso explica por que tal vacina transformaria você em jacaré”, disse.

 

Entenda

O representante da empresa de vacinas Davati Medical Supply, Luiz Paulo Dominguetti Pereira, afirmou ter recebido pedido de propina de US$ 1 por dose em troca de fechar contrato com o Ministério da Saúde. A informação foi revelada à repórter Constança Rezende, do jornal Folha de S. Paulo.

A proposta teria partido do diretor de Logística do Ministério da Saúde, Roberto Ferreira Dias, durante um jantar no restaurante Vasto, no Brasília Shopping, região central da capital federal, no dia 25 de fevereiro.

Roberto Dias foi indicado ao cargo pelo líder do governo de Jair Bolsonaro na Câmara, Ricardo Barros (PP-PR). Sua nomeação ocorreu em 8 de janeiro de 2019, na gestão do ex-ministro Luiz Henrique Mandetta (DEM). A Folha buscou, sem sucesso, contato com Dias na noite desta terça. Ele não atendeu as ligações.

A empresa Davati procurou a pasta para negociar 400 milhões de doses da vacina AstraZeneca com uma proposta feita de US$ 3,5 por unidade (depois disso passou a US$ 15,5). “O caminho do que aconteceu nesses bastidores com o Roberto Dias foi uma coisa muito tenebrosa, muito asquerosa”, disse Dominguetti.

Proposta

“Aí ele me disse que não avançava dentro do ministério se a gente não composse com o grupo, que existe um grupo que só trabalhava dentro do ministério, se a gente conseguisse algo a mais tinha que majorar o valor da vacina, que a vacina teria que ter um valor diferente do que a proposta que a gente estava propondo”, afirmou à Folha o representante da empresa.

Dominguetti deu mais detalhes: ​”Aí eu falei que não tinha como, não fazia, mesmo porque a vacina vinha lá de fora e que eles não faziam, não operavam daquela forma. Ele me disse: ‘Pensa direitinho, se você quiser vender vacina no ministério tem que ser dessa forma”.

A Folha perguntou então qual seria essa ‘forma’. “Acrescentar um dólar”, respondeu. Segundo ele, US$ 1 por dose. “E, olha, foi uma coisa estranha porque não estava só eu, estavam ele [Dias] e mais dois. Era um militar do Exército e um empresário lá de Brasília”, ressaltou Dominguetti.

Questionado se teria certeza de que o encontro foi com o diretor de Logística do ministério, Dominguetti respondeu: “Claro, tenho certeza. Se pegar a telemetria do meu celular, as câmeras do shopping, do restaurante, qualquer coisa, vai ver que eu estava lá com ele e era ele mesmo”.

“Ele [Dias] ainda pegou uma taça de chope e falou: ‘Vamos aos negócios’. Desse jeito. Aí eu olhei aquilo, era surreal, né, o que estava acontecendo.”

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