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Debates de temáticas nacionais com ampla repercussão nas redes sociais têm provocado um fenômeno que chama a atenção dos usuários brasileiros: a presença de hashtags sobre assuntos domésticos nos Trending Topics (TTs) de países aparentemente nada vinculados com a discussão. A suspeita levantada pelos internautas é que as postagens estariam sofrendo interferências de robôs, usados para impulsionar tais temas. No entanto, análise feita pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) indica que não tem havido interações automatizadas no Twitter.

Um dos focos de discussões na última semana — e de dúvidas sobre robôs impulsionando alguns TTs — foi a mobilização nas redes sobre a descriminalização do aborto até a 12ª semana de gravidez, motivada por audiência pública no Supremo Tribunal Federal (STF) sobre o assunto.

Para verificar a hipótese de interferências ilegítimas, primeiramente, a FGV analisou 1.120.493 tweets, gerados por 348.731 contas presentes em três grandes grupos de discussões que se formaram em torno do tema. Delas, apenas 631 (0,18%) foram classificadas como automatizadas de acordo com a Metodologia DAPP, seja por criarem publicações com intervalo inferior a um segundo pelo menos duas vezes no período analisado, seja por utilizarem plataformas de automatização para produzirem seus tuítes — os dois parâmetros utilizados pela FGV para a identificação de robôs.

No grupo azul, composto de perfis contrários à descriminalização, 228 contas automatizadas foram responsáveis por 3% das interações. No grupo vermelho, favorável à descriminalização, 246 perfis automatizados geraram apenas 0,17% das interações do grupo. O que deixa claro que os bots presentes no grupo azul (contra a legalização do aborto) foram mais ativos no debate.

Localização dos usuários
Tais proporções são pouco significativas diante do volume do debate orgânico que ocorreu na rede. No entanto, com a suspeita levantada pelos usuários de que robôs de fora do Brasil estariam sendo utilizados para a promoção de Trending Topics relacionados à discussão do aborto, também foi analisada a localização das contas que participaram deste debate.

Dos 624.947 tuítes coletados com informação de localização, 528.984 (84,6%) foram identificados no Brasil. Mas, de fato, outras localizações pareceram suspeitas, como Bósnia, que teria originado 14.241 tuítes, São Vicente e Granadinas (6.827 tuítes) e São Tomé e Príncipe (2.131).

No entanto, ao observar a localização informada diretamente no perfil das contas, nota-se que a maioria identificada como oriunda da Bósnia, por exemplo, tinha, na verdade, expressões como “Na Sua” ou “Na PQP” no espaço destinado à localização. O mesmo aconteceu para São Vicente e Granadinas: a maioria das contas que produziu tuítes com informação de localização nesse país tem como localização informada pelo perfil nos termos “Lixo” ou “Inferno”. Esse processo se repetiu ainda para São Tomé e Príncipe, com os termos “São Januário” e “São Gonçalo”.

Consultado sobre essa possível inconsistência na classificação, o Gnip, que fornece os dados da plataforma Twitter, afirmou que a localização informada pelos usuários serve de base para a estimação da localização geográfica da conta. Na maioria das vezes, essa estimação produz resultados corretos e, residualmente, existem inconsistências, como nos exemplos apresentados anteriormente.

Esse dado, porém, ainda não é suficiente para descartar a possível utilização de contas localizadas no exterior, automatizadas ou não, influenciando o debate nacional e a suspeita levantada pelos Trending Topics estrangeiros ainda não pode ser invalidada.

Twitter justifica
Em seu site, o Twitter afirmou que os termos do Trending Topics são determinados por um algoritmo e, por padrão, são personalizados para o usuário com base nos perfis seguidos, nos seus interesses e na sua localização. Além disso, o algoritmo identifica tópicos populares na atualidade, e não termos em alta ao longo do dia, por exemplo.

Em resposta à imprensa sobre os casos recentes, a plataforma ainda afirmou que “é possível que a aceleração do uso das hashtags em um período concentrado tenha levado o algoritmo a entender que os assuntos relacionados fossem de interesse de outros países (como é de costume aparecerem tags em outros idiomas nos Trending Topics no Brasil, por exemplo)”.

Registros não confirmados
Para finalizar a investigação, foi feita ainda uma busca histórica do serviço Gnip por tuítes criados entre os dias 1º e 8 de agosto mencionando #AbortoÉCrime nos países Ucrânia, Vietnã, Bielorrússia, Noruega e Suíça, que foram denunciados pelos usuários como lugares onde ela teria aparecido nos Trending Topics. A busca não obteve nenhum resultado, ou seja nenhuma publicação com a hashtag teria sido produzida nestes países.

Portanto, verificando a personalização dos resultados das listas de Trending Topics e a aparente inexistência de publicações contendo #AbortoÉCrime nos países onde os assuntos do momento foram observados, pode-se considerar que a simples presença de uma hashtag relacionada ao debate político nacional em listas de assuntos “mais comentados” estrangeiros não deve ser conclusiva sobre uma eventual interferência externa, seja por contas robôs ou não.