Gleisi Hoffmann: “Na política brasileira, o ‘centro’ está na direita”

Presidente nacional do PT, deputada federal não vê espaço para outsider nas próximas eleições e aposta na continuidade da polarização

Rafaela Felicciano/MetrópolesRafaela Felicciano/Metrópoles

atualizado 03/09/2019 7:30

Presidente nacional do PT, ex-ministra do governo da ex-presidente Dilma Rousseff, ex-senadora e atual deputada federal, Gleisi Hoffmann (PR) esteve à frente da inusitada estratégia do PT nas últimas eleições presidenciais, de, até o último momento, defender a candidatura da maior estrela do partido, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, preso em Curitiba, pela Lava Jato.

Agora, além de enfrentar mais uma vez um processo de eleições diretas dentro do partido, com o aval de Lula para sua recondução, a deputada se prepara para implantar mais uma estratégia: fazer com que o PT, hoje fora do poder, consiga ter candidatos competitivos nas eleições municipais, tanto nas capitais quanto nos principais municípios.

A disputa em 2020 lança as bases para as eleições presidenciais de 2022. Para a presidente do PT, a comparação entre o governo Jair Bolsonaro e os feitos petistas pautarão a disputa.

Para ela, ainda não há espaço na política brasileira para os chamados outsiders, novos candidatos e fora da política tradicional. Em sua opinião, o que ainda prevalecerá nas próximas eleições é a polarização e a inevitável comparação dos feitos dos governos do PT e de Bolsonaro, principalmente na condução da economia.

“Não vejo espaço para um outsider em um momento como esse, que seja crível ao ponto de gerar uma alternativa, um meio termo. As pessoas tendem a olhar as propostas e avaliar o que está colocado”, disse a deputada.

Quanto ao chamado “centro”, Gleisi é enfática. “Não existe centro na política brasileira. No caso brasileiro, o ‘centro’ está na direita”, disse, referindo-se às defesas feitas pelos partidos considerados de centro da política de privatização e da condução econômica bolsonarista, além de apoio à boa parte da pauta de costumes dos novos donos do poder.

“O que alguém de centro iria oferecer em termos de direitos e termos de política econômica diferente do que está aí? Temos que lembrar que o centro, ou quem quer ser outsider, tem posições, pelo menos pelo que eu vejo, que corroboram as reformas econômicas do governo Bolsonaro, que são reformas que, até agora, não trouxeram soluções para a vida do povo. A reforma trabalhista, agora a reforma da Previdência. Não são medidas que vão tirar o povo da crise. Então eu gostaria de saber qual é a proposta do centro para ele se tornar alternativa”, argumentou em entrevista ao Metrópoles.

“O cento está na direita. Pode não ser uma direita como o Bolsonaro, que é de extrema direita, raivosa, de destruição. Mas, do ponto de vista da pauta econômica, de ajuda para o povo brasileiro, não oferece absolutamente nada de diferente”, enfatizou.

Reservas
Para a deputada, a economia brasileira só não está pior devido às reservas internacionais, parte formada durante os governos petistas.

“Se não tivéssemos uma polpuda reserva internacional, cerca de U$ 370 bilhões, estaríamos como a Argentina, fazendo default e começando a pedir ajuda do Fundo Monetário Internacional (FMI). Essas reservas devemos aos governos do PT. Desta forma, quem está salvado a economia brasileira ainda é Lula”, disse a parlamentar.

“Pibinho”
Na comparação entre governos, a deputada enfatizou a lenta recuperação do Produto Interno Bruto (PIB), em 0,4% no segundo trimestre de 2019, em relação ao trimestre anterior.

“Se o PIB continuar na mesma toada que veio agora, nós só vamos recuperar o PIB do primeiro trimestre de 2014 em 2026. Não será uma década perdida. Já serão 12 anos perdidos. E era a Dilma (Rousseff – ex-presidente) que sofria com as perguntas sobre o ‘pibinho’. O PIB que nós entregamos ao país foi potente, que gerava emprego, que gerava renda.”

Gleisi aposta ainda que haverá, nas próximas eleições um arrefecimento do sentimento antipetista devido ao descrédito do governo Bolsonaro e da própria Lava Jato, desmoralizada pelos vazamentos dos diálogos entre o ex-juiz Sergio Moro, atual ministro da Justiça e Segurança Pública, com o Ministério Público.

“Acho que as pessoas estão começando a ver o que aconteceu nas eleições de 2018. O engodo que foi e a forma que ela [a Lava jato] foi feita. Claro que houve uma narrativa construída depois do impeachment da Dilma para tentar responsabilizar o PT, principalmente lideranças petistas, por uma crise econômica, por uma crise moral, por uma crise social”, disse.

“Está todo mundo olhando e dizendo: ‘ Bom, não é isso que me venderam’, e as pessoas começam a se abrir agora para escutar o outro lado. Escutar nossos argumentos”, avaliou.

Alianças
Gleisi aponta que o PT começou a avaliar o quadro de candidaturas e o leque de alianças, mas que esse trabalho será retomado após as eleições internas do partido, marcadas para o próximo dia 8 de setembro.  “Acho que vamos ter um quadro mais definido a partir de setembro, com possíveis nomes, com definição de estratégia”, disse.

Ela adianta, no entanto, que as conversas estão avançadas para capitais como Rio de Janeiro e São Paulo. No Rio, o partido deve caminhar com o PSol em torno da candidatura do deputado Marcelo Freixo. Em São Paulo, o partido quer lançar candidato próprio e tentar recuperar o reduto perdido para o bolsonarismo nas últimas eleições. O nome, no entanto, ainda é uma incógnita.

Ao ser questionada sobre a disposição da legenda em ceder espaços a partidos menores, mas com nomes viáveis para a disputa, Gleisi aponta total disposição do PT para esse movimento.

“A ideia é fortalecer as candidaturas do PT, mas também fortalecer este bloco de esquerda. Então a gente está muito disposto a fazer essa conversa com os partidos. Cedendo lugares. Nós não temos, a priori, nenhuma determinação de não fazer isso. É claro que é importante, do ponto de vista da estratégia do partido, de fortalecer nossa chapa de vereadores, mas também reconhecemos que há situações em que partidos nossos aliados podem ter candidatura mais fortes e isso não nos impediria de estar juntos com esses partidos e termos candidatura do PT˜, destacou.

“O Rio é um exemplo que estamos discutindo. Ainda não definimos se vamos ter uma candidatura lá, porque é uma eleição de dois turnos, mas temos uma discussão bastante concreta com o PSol, que apresenta a candidatura do Marcelo Freixo.”

Lula Livre
Apesar de críticas de partidos aliados ao PT, de que a legenda se envolveu na campanha pela libertação de Lula, pautando as eleições com este mote, Gleisi garante que a campanha Lula Livre continuará sendo a principal bandeira do partido, nas eleições municipais.

“Nós temos convivido com partidos de oposição levando a bandeira Lula Livre. Embora possa ter resistências de alguns setores desses partidos, isso nunca nos foi colocado como uma condição para a gente estar junto: abandonar a bandeira Lula Livre. Nós temos avançado, inclusive, no convencimento desses partidos sobre a representatividade dessa situação do ex-presidente Lula, que faz parte da luta pela democracia do país. É obvio que nas eleições municipais de 2020 a bandeira da democracia vai estar presente, não só pelo processo de Lula, que monopoliza muito isso, mas também por outras questões”, observou.

“Ideologia do desmonte”
Para a deputada, o governo de Jair Bolsonaro pratica a “ideologia do desmonte”. “É o governo da destruição. A concepção de Bolsonaro é a concepção de um país dependente, principalmente alinhado aos Estados Unidos, e que não vê nas questões dos direitos humanos e na questão ambiental algo que seja relevante e importante. É a concepção dele. As pessoas dizem que Bolsonaro não tem um projeto. Ele tem, sim. Trata-se de um projeto de desmonte de tudo aquilo que nós construímos pós-Constituição de 1988 e aprofundamos durante os governo do Lula e da Dilma. Ele quer desmontar isso”, enfatizou.

Amazônia
Para Gleisi, o discurso de Bolsonaro nada tem de nacionalista quando se trata da Amazônia. “Ele não se importa em entregar a Amazônia. Aliás, esse discurso dele que tenta ser nacionalista é um contrassenso. Ele se remete contra a Europa, mas é a favor da intervenção norte-americana aqui. Seja na base de Alcântara, seja na exploração da Amazônia. Nós somos contra a internacionalização da Amazônia”, enfatizou.

“Surgiu esse papo do Macron (Emmanuel Macron, presidente francês). Isso nunca. A Amazônia é um patrimônio do Brasil e nós temos a responsabilidade de cuidar dela. De mostrar aos outros países que nós sabemos fazer diferente, que nós aprendemos com a história deles de devastação do meio ambiente que prejudicou nas questões ambientais. O Brasil estava mostrando isso. Nós reduzimos o índice de desmatamento da Amazônia a níveis muito baixos. No governo Dilma, chegamos  a ter 5 mil quilômetros de devastação. Esse é um dos níveis mais baixos de nossa história de devastação da Amazônia”, disse a deputada.

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