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Acusado pelo ex-ministro da Cultura Marcelo Calero de tê-lo pressionado a mudar relatórios do Iphan para liberar uma obra onde tem apartamento na Bahia, o ministro de Governo, Geddel Vieira Lima, rebateu a guerra de versões sobre a saída do colega alegando ter aparecido “uma verdade dentre muitas inverdades”.

Geddel confirmou à Coluna do Estadão ter tratado do tema com Calero e admitiu ter comprado, em 2015, o apartamento no 23° andar, negando que tenha feito algum tipo de pressão. “Essa história está mal contada. Como justificar o pedido de demissão se ele foi prestigiado na posição dele? Ele poderia ter se sentido constrangido se tivesse sido forçado a tomar uma posição que não quisesse”, rebateu. Leia os principais pontos da entrevista:

 

O senhor foi acusado pelo ex-ministro Calero de pressioná-lo em relação ao Iphan.

Lamento profundamente essa declaração do Calero, com quem eu sempre tive uma relação afável e tranquila. Não tive nenhum desentendimento com Calero, nenhum bate boca com ele.  Ele diz uma verdade e muitas inverdades.

Quais seriam as inverdades?

As inverdades é que eu teria dito, por exemplo, que iria pedir a cabeça da presidente do Iphan, que eu poderia tratar com o presidente da República. Eu nunca tratei desse tema com o presidente da República. Nada, absolutamente nada. Aí há um certo exagero.

E qual seria a verdade?

A verdade é que eu tratei do tema com ele sob a ótica de que “Calero, tem que tomar cuidado com isso. Esse assunto tá em discussão na Bahia há muito tempo. Está judicializado”. Já tá na Justiça há muito tempo e isso termina gerando insegurança política para quem comprou unidade, isso termina gerando desemprego na cidade, mas sem nenhuma pressão devida. Tanto não há pressão que a posição ao final e ao cabo que prevaleceu foi a dele. Não estou entendendo e me surpreendo que venha isso agora. A posição que prevaleceu, apesar de eu ter uma visão diferente desse processo, mesmo ele judicializado, foi a dele. Os incorporadores vão buscar agora reparos tanto administrativos tanto na justiça. A posição dele prevaleceu.

Houve ou não houve pressão?

Que pressão é essa? Tratei com o Calero com tranquilidade, por telefone, até porque não tenho medo de tratar por telefone, de estar grampeado, O que eu trato por telefone eu trato publicamente. Qual a ilegalidade que há nisso? Qual a imoralidade que há em tratar desse tema com um colega meu? Nunca tratei desse tema com o Iphan, nunca fiz pressão no Iphan. Tratei com ele, nunca tive briga com ele.

Mas o senhor tem esse apartamento?

Tenho uma promessa de compra e venda de um apartamento no empreendimento de 2015, no 23º andar. Adquiri um apartamento depois de morar 22 anos no meu antigo apartamento eu pretendia mudar com minha família. Mas isso não me tira a legitimidade. Aliás, me dá legitimidade para mostrar que o que estava se fazendo era um equívoco.

E o Iphan só autorizou a construção até o 13º andar?

Isso foi agora! O Iphan da Bahia, a prefeitura, todos deram a licença. A obra foi lançada, várias pessoas compraram.

O senhor tratou desse tema com Iphan?

Nunca tratei desse tema com Iphan. Não tive o privilégio de conhecer nem a ex-presidente nem a presidente.

O ex-ministro Calero afirma que o Iphan da Bahia teria liberado a licença do projeto porque o superintendente regional teria sido indicado pelo senhor.

Não é verdade. A pessoa que está lá não foi indicada por mim. Essa licença foi dada pelo Iphan, me parece, em 2014, quando eu estava na oposição ao governo federal, ao governo baiano, em todos os lugares.

Por que o senhor acha então que ele deixou o cargo, se não havia pressão?

Não tenho a menor ideia. Agora pare e pense uma coisa. A minha pressão, segundo ele, não deu resultado. A posição dele foi a que prevaleceu. Como justifica então ele pedir demissão se ele foi prestigiado na posição dele? Ele poderia ter se sentido constrangido, se tivesse sido forçado a tomar uma posição que não quisesse. Tá mal contada essa história. Ele embargou a obra e manteve o relatório dele, ainda que haja divergência. Isso tá judicializado. Essas licenças foram dadas na Bahia em 2014.

Não é por ter seguido uma posição contrária ao senhor?

Primeiro que eu repilo pressão. Não houve pressão nenhuma. Houve conversa com um colega de ministério sobre um tema relevante alguns dias atrás. Eu não encontrei com ele no Palácio do Alvorada. Ela vinha entrando e eu vinha saindo. Tratei desse tema com naturalidade, inclusive, por telefone. Não tenho medo de grampo telefônico quando estou tratando de qualquer assunto. Falei com tranquilidade, com serenidade.  Inclusive não entendo a partir de qual momento ele achou que não era correto. Ele diz lá na entrevista dele [ao jornal Folha de S.Paulo] que não era correto. Se ele achou incorreto, porque, naquele momento lá atrás, não falou nada? Esse empreendimento teve todas as licenças dos órgãos municipais, estaduais e federais lá atrás, não é de agora não.

O senhor nos deu ontem uma versão de que havia um impasse em torno da vaquejada…

Porque eu só sabia disso. Então, imaginei que fosse isso. Ele não tinha falado nada a respeito disso. O Iphan mandou uma proposta de veto ao presidente, ainda que tivesse sido avisado ao Calero de que não haveria veto. Não ia vetar. Mas isso eu te falei ontem porque eu não sabia de outra coisa. Como eu poderia comentar?

E qual é o impasse em relação ao Iphan da Bahia?

Nenhum, até porque essas licenças não foram feitas pelo atual superintendente do Iphan. Isso vem de lá de trás.  Vem do governo passado. O atual superintendente da Bahia, que é funcionário de carreira, foi indicação da bancada, me parece que do DEM. Não tem nenhuma picuinha. Nunca tive problema nenhum com Calero, firmemente. Nenhum atrito, nenhum bate-boca. Ele sempre foi muito educado, vinha fazendo um bom trabalho no ministério, na minha avaliação.

Vocês chegaram a despachar sobre esse impasse do apartamento?

Ele tinha audiências comigo muitas vezes. Teve audiência para tratar de CPI da Lei Rouanet, teve audiência para tratar de nomeações, para tratar de tudo. Não tratamos desse assunto na audiência passada, ao contrário do que ele falou. Não tratamos.

Então, por que o senhor achar que ele justificou com essa versão?

Não tenho a menor ideia.

O senhor conversou com o presidente Michel Temer. O que ele falou disso?

Falei de manhã com Temer. Eu liguei para o presidente e ele disse: ‘apresente sua resposta com tranquilidade.  Não tem nada de problemático disso não, só o desgaste. Recebi dele o maior apoio. Sereno, tranquilo, ele compreende perfeitamente.

Temer pediu o cargo?

Não. Deixar cargo por isso, pelo amor de Deus.

O senhor não se sente desconfortável de continuar no governo?

Por que desconfortável? Por causa de uma fala de um ex-ministro que não está falando a verdade inteira? Eu tratei do tema com absoluta transparência. O que me deixaria desconfortável? Onde é que tem maracutaia, problema, irregularidade nisso? Lamento que o ministro saia nessas circunstâncias.

O presidente da Comissão de Ética da Presidência, Mauro Menezes, disse que vai analisar o caso na segunda-feira de manhã, em reunião. Algum receio? Algum constrangimento?

Nenhum, nada.

 

 

 

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