Centro do poder federal, Brasília tem a rota político-gastronômica moldada pelos hábitos dos figurões que por ela transitam. Em tempos de mudança de governo, os membros do alto escalão acabam direcionando holofotes para seus restaurantes preferidos na capital. Se o ramo for influenciado pelos gostos do presidente Jair Bolsonaro (PSL), desta vez, a sofisticação de almoços, como o oferecido nesta semana ao colega argentino, Mauricio Macri, no Palácio do Itamaraty (foto em destaque), ficará em segundo plano. O capitão da reserva do Exército prefere mesmo comida simples, boa e farta. 

Os hábitos do tempo de parlamentar indicam que o atual chefe do Executivo brasileiro é fiel ao tradicional churrasco. Nos últimos meses, pedidos de selfies e tietagens próprias de celebridades ocupam o horário de almoço do clã Bolsonaro e sua turma, em especial o do ministro Sérgio Moro.

Quando não comia nas dependências da Câmara na época de deputado, Bolsonaro fazia várias refeições no Gaúcho da Vila, restaurante simples, localizado na Vila Planalto, próximo ao Palácio do Planalto. O estabelecimento serve uma costela de angus uruguaia muito apreciada pelo atual presidente, a R$ 99, para duas pessoas.

Outro local apreciado pelos novos integrantes da cúpula federal é a Galeteria Beira Lago, no Setor de Clubes Sul, com rodízio do prato principal por R$ 54,90. Como parlamentar, o atual chefe do Executivo pagou R$ 43,90 por uma refeição composta por bisteca suína, arroz, feijão, ovo, batata frita e molho vinagrete, na rede de fast-food Giraffas, fundada em Brasília. Escolheu 300 ml de suco de laranja para beber na ocasião.

Os restaurantes do Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac) também são aprovados pelo primeiro escalão. Em janeiro deste ano, Sérgio Moro chamou a atenção de funcionários e clientes quando apareceu no restaurante-escola instalado no anexo II do Ministério da Justiça, chefiado por ele (foto abaixo).

Funcionários disseram que o ministro tem feito suas refeições lá desde que assumiu o cargo. O prato é sem salada, com pouca comida e sempre acompanhado por uma Coca-Cola Zero. O quilo da comida custa R$ 29,91.

 

Enquanto isso, o ministro da Economia, Paulo Guedes, propõe cortes no Sistema S, formado por instituições como o Senac – cujo restaurante é apreciado por Moro – e outras que fornecem serviços de treinamento profissional, assistência social, consultoria, pesquisa e assistência técnica.

Guedes não segue o estilo do presidente e vai a restaurantes mais requintados, como o Taypá Sabores Del Peru, no Lago Sul, e no Lake’s, que serve pratos da culinária europeia na Asa Sul. O ministro da Educação, o colombiano Ricardo Veléz Rodriguez, também esteve nesse último. 

Já o ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio, optou várias vezes pelo buffet de comida brasileira do estabelecimento montado no anexo IV da Câmara, quando deputado federal. No dia 28 de fevereiro de 2018, por exemplo, gastou R$ 59,41 com uma refeição lá.

Um abraço e até breve
Vítima do atentado com faca que resultou numa perfuração do intestino logo no início da campanha eleitoral, em setembro de 2018, Bolsonaro não foi mais visto em seus redutos gastronômicos. Precisou colocar no corpo uma bolsa de colostomia, o que restringe sua dieta. Quem esteve nos restaurantes que servem churrasco e galetos depois da posse presidencial foi o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), um dos filhos do presidente.

Além de repassar um abraço à equipe que o serviu, Eduardo justificou a ausência do pai ao proprietário da Galeteria Beira Lago, o cearense João Miranda Lima. “Disse que assim que se livrar da bolsinha vai vir aqui”, contou Mirandinha, como é conhecido pelos clientes. “Mas não sei, né? Tem a questão da segurança”, ponderou. A primeira-dama, Michelle Bolsonaro, também já esteve lá degustando um galeto no local e posou para fotos ao lado do dono do estabelecimento (foto abaixo). Os vários seguranças que acompanharam a esposa do presidente ficaram do lado de fora. 

Imagem cedida ao Metrópoles

Michelle Bolsonaro ao lado do proprietário da Galeteria Beira Lago, João Miranda Lima, em 2018

 

O restaurante de Miranda é frequentado pela classe política e está estrategicamente dividido em cinco salões. No ano passado, quando a campanha presidencial começou a esquentar, a presidente do Partido dos Trabalhadores (PT), Gleisi Hoffmann, estava sentada quando chegaram para almoçar alguns apoiadores de Bolsonaro. Com a divisão interna, os adversários políticos não precisaram se encarar.

Mirandinha recebe todos com muita atenção. Embora diga que não está ligado a nenhum partido, o torcedor do Botafogo, classificado por ele como “time neutro”, considera-se amigo do novo mandatário do país (veja vídeo abaixo). Em determinado momento, porém, a melodia do Hino Nacional aparece como toque do celular. No WhatSapp, a foto de perfil é a bandeira do Brasil. Os dois símbolos são usados pelos apoiadores de Bolsonaro e antipetistas em geral.

Pouco depois do celular tocar, na entrada da galeteria, um dos clientes brinca com o dono do lugar: “Já comprou sua arma?”. “Vou comprar”, responde Mirandinha, aos risos. O episódio ocorreu no dia seguinte à publicação do decreto que flexibilizou a posse de armas de fogo no país.


Indicação do presidente 

Na Vila Planalto, bairro de classe média do Distrito Federal e bem perto da Praça dos Três Poderes e Esplanada dos Ministérios, o Gaúcho da Vila está instalado numa estrutura residencial. Talvez nem chamasse a atenção de quem passa pela rua se não fosse uma enorme faixa amarela estendida com o nome do restaurante.

Na lateral externa, protegida por grades pintadas de verde, os clientes têm à disposição seis mesas brancas de plástico cobertas por toalhas nas cores da bandeira do Rio Grande do Sul: vermelho, verde e amarelo. Geralmente, a família Bolsonaro escolhe um lugar no cantinho dessa área para comer costela acompanhada por arroz, feijão, salada e berinjela empanada. A sobremesa do presidente é uma porção de sagu, doce feito de tapioca e vinho.

Imagem cedida ao Metrópoles

Família Bolsonaro esteve no restaurante em 2017 com o futuro líder na Câmara, Major Vitor Hugo (1º à esq.)

 

Do lado de dentro, mesas de madeira dão um aspecto rústico ao restaurante. Numa pequena sala reservada, o gaúcho que hoje é ministro-chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni (DEM-RS), almoçou na companhia do ministro português Pedro Marques, no dia 11 de janeiro, uma sexta-feira.

Segundo os donos, o local costuma ser frequentado por outros políticos, mas essa foi a primeira vez que um integrante do primeiro escalão do governo Bolsonaro esteve lá. O prato escolhido por Onyx foi uma adaptação do “misto gaúcho” apresentado no cardápio, na faixa de R$ 100. Ele pediu uma montagem com linguiça, picanha e entrecôte.

A reportagem do Metrópoles esteve no restaurante e experimentou a opção da família do presidente na quinta-feira (17/1), inclusive ocupou uma mesa na mesma área dos Bolsonaro. A porção para duas pessoas traz cinco tiras de costela, com carne macia e gordurosa, além dos acompanhamentos. 

Na mesa ao lado, pessoas de roupa social comentavam roteiros de viagens internacionais. O tema política surge e o nome de Jair Bolsonaro é citados várias vezes, embora não pareçam conhecer a ligação do presidente com o estabelecimento. Nesse momento, vem à tona a notícia da suspensão da investigação sobre a movimentação financeira atípica identificada na conta de Fabrício Queiroz, ex-assessor do senador eleito Flávio Bolsonaro (PSL-RJ), outro filho do presidente e frequentador do restaurante.

Uma das proprietárias do Gaúcho da Vila, Patrícia Barbosa de Souza, de 37 anos, foi conquistada pela família Bolsonaro, descrita por ela como extremamente simples e educada. “Fui para a Esplanada no dia da posse, corri igual a uma louca. Quando ele se candidatou, acompanhei as propostas e pensei: esse é o meu presidente”, revelou.

Bolsonaro também não esteve lá depois de receber a faixa presidencial, mas sua presença é aguardada. Eduardo, por sua vez, já voltou duas vezes desde o dia 1º de janeiro. “A pessoa chega, olha, cumprimenta, tira foto. Até eu tirei foto com ele. É tietagem mesmo, né? Eles são bem tranquilos”, contou a dona.

Imagem cedida ao Metrópoles

Patrícia Barbosa de Souza e Jair Bolsonaro, quando ele ainda era deputado federal


Almoços de transição
A pouco mais de 600 metros do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), onde se instalou o governo de transição governamental, fica o Clube de Golfe, em cuja área está instalado o restaurante Oliver. A casa prepara receitas com carne de avestruz e lagosta, mas também tem no cardápio pratos variados e menu executivo.

Nos meses de novembro e dezembro, estiveram lá alguns membros do alto escalão de Bolsonaro, como o vice-presidente, general Hamilton Mourão (PRTB); o ministro da Justiça, Sérgio Moro; e o general Augusto Heleno, ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional.

O valor gasto por eles está dentro da média da casa, e a preferência de bebidas eram sucos e refrigerantes. Quando reconhecidos por clientes, não se furtaram a posar para fotos. “Pediam  principalmente para o Sérgio Moro. Sempre que eles entravam, duas ou três mesas se levantavam”, descreveu um funcionário.

Moro foi quem almoçou no local mais vezes, sempre rodeado por policiais federais vestidos de terno. O atual ministro comeu pratos à la carte, como filé à parmegiana e receitas à base de bacalhau, com preços entre R$ 70 e R$ 80. Muito tietado, o hoje ministro da Justiça e Segurança Pública escolhia comer numa sala reservada, para até 18 pessoas, dentro da adega do restaurante. Geralmente, estavam com ele de seis a 10 pessoas.

Para acompanhar a refeição do ex-juiz federal, nada de bebidas alcoólicas. Apesar da preferência pelo local mais reservado, Moro não deixou de tirar fotografias com admiradores durante suas passagens pelo estabelecimento. O general Augusto Heleno fez uso do mesmo espaço quando foi ao restaurante.

Já o vice-presidente, Hamilton Mourão, teve comportamento mais próximo ao do presidente nas duas vezes que foi visto no local. Andava menos protegido por policiais, sentou-se no salão principal junto aos demais clientes e comeu, assim como seus acompanhantes, apenas o menu executivo, pelo qual pagou R$ 59 – preço bastante razoável na capital do poder.