Análise: caso mal explicado atrapalha Bolsonaro ainda antes da posse

Movimentação financeira de motorista torna o início do futuro governo mais complicado do que os de Collor, Fernando Henrique, Lula e Dilma

RAFAELA FELICCIANO/METRÓPOLESRAFAELA FELICCIANO/METRÓPOLES

atualizado 10/12/2018 6:48

A julgar pelos últimos acontecimentos, vem aí uma temporada de emoções para os brasileiros. Ainda na primavera de 2018, os fatos políticos anunciam tendência de novidades surpreendentes nos próximos quatro anos.

Depois de vencer as eleições, o futuro presidente, Jair Bolsonaro, enfrenta situações vividas por seus antecessores depois de, pelo menos, um ano no Palácio do Planalto. A necessidade de apresentar explicações sobre atos praticados por pessoas próximas, por exemplo, antecede a posse no Planalto do capitão reformado.

Causa espanto desde a quinta-feira (6/12) a revelação de que o policial militar Fabrício José Carlos de Queiroz teve movimentação financeira de R$1,2 milhão, durante um ano, quando trabalhava como motorista do deputado estadual e senador eleito Flávio Bolsonaro (PSL-RJ), filho do futuro presidente.

Ainda mais intrigante foi o cheque do policial militar, no valor de R$ 24 mil, compensado na conta de Michelle Bolsonaro, futura primeira-dama. Nesse caso específico, Bolsonaro disse na sexta-feira que a transação financeira corresponde a pagamento de dívida.

Pai e filho deixaram para Queiroz a tarefa de esclarecer às autoridades do Ministério Público Federal e à sociedade sobre a origem dos recursos em sua conta. Assim, três dias se passaram sem que os brasileiros recebessem explicações para as movimentações de dinheiro consideradas “atípicas” pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf).

Mesmo que o policial militar comprove a origem lícita dos valores, falta transparência por parte do futuro governo. No mundo ideal, em circunstâncias semelhantes, a autoridade contaria logo tudo de uma vez.

Em tese, o ex-funcionário de Flávio pode demonstrar que exerce alguma atividade informal para contemplar a renda. Por exemplo, compraria e venderia automóveis para os colegas de gabinete. Algo assim seria facilmente comprovável.

Se Jair Bolsonaro emprestou dinheiro ao motorista, algo de fato plausível, imagina-se que essas operações tenham algum registro, embora não declaradas à Receita Federal. Uma resposta dessa natureza tiraria qualquer dúvida e evitaria o constrangimento de, todo dia, alguém da equipe ser questionado sobre os atos de Queiroz.

Ministro da Casa Civil escolhido por Bolsonaro, Onyx Lorenzoni mostrou-se despreparado para tratar do assunto com a imprensa. Sem argumentos, irritou-se com um repórter e abandonou uma entrevista coletiva. Esse tipo de temperamento em nada ajuda quem precisa de sangue frio para negociar com políticos experientes.

Perto de assumir o Ministério da Justiça, Sérgio Moro vive o desafio de servir a um governo e manter a imagem de rigoroso com o comportamento das autoridades. Também ainda não se pronunciou sobre o caso.

Governos em dívida com a opinião pública tornam-se mais vulneráveis no Congresso e encontram dificuldades maiores na aprovação de suas propostas. A história recente mostra que, no jogo duro do Congresso, o prestígio do presidente ajuda a aprovar projetos do Executivo.

As exigências de deputados e senadores por cargos e verbas aumentam à medida que fica mais difícil defender o presidente. Por isso, o prestígio do primeiro ano de mandato é importante para a implementação das propostas do Poder Executivo.

No início do mandato, Fernando Collor de Mello teve apoio até para o confisco da poupança dos brasileiros. Com a força das urnas, Fernando Henrique Cardoso quebrou monopólios estatais e Luiz Inácio Lula da Silva mexeu na Previdência Social.

Em relação a fatos mal explicados, Collor atrapalhou-se no início do terceiro ano de governo, depois das denúncias feitas pelo irmão Pedro sobre as atividades do empresário Paulo Cesar Farias.

FHC recebeu os primeiros impactos negativos com o escândalo do Sistema de Vigilância da Amazônia (Sivam) e o caso conhecido como “Pasta Rosa” – ambos no final do primeiro ano da administração do tucano. O mensalão abalou Lula no terceiro ano do primeiro mandato. No início de sua gestão, Dilma Rousseff teve os benefícios da alta popularidade do petista.

Deve-se, claro, guardar as proporções entre os escândalos citados acima e o caso atual. Como pouco se sabe, com provas, sobre a movimentação “atípica”, qualquer juízo de valor deve aguardar o resultado das investigações. O mesmo benefício da dúvida, porém, pesa contra quem precisa demonstrar força, credibilidade e maturidade para comandar o país.

Eleito com discurso de moralidade, Bolsonaro desfrutará de vitalidade política enquanto não decepcionar seus seguidores. Para governar, de nada adiantam arroubos de valentia nem uma boa rede de WhatsApp. A descoberta da conta do motorista tirou do capitão reformado até mesmo a trégua tácita de cem dias concedida a novos ocupantes do Planalto.

A certeza de emoções fica evidente também quando se observa o comportamento da bancada do PSL, formada majoritariamente por parlamentares eleitos para o primeiro mandato. Durante a semana, alguns de seus mais bem votados representantes trocaram acusações que expuseram o baixo nível das disputas internas.

Na história recente, quem acompanha a política em Brasília acostumou-se a ver governos novos que chegam de salto alto e cheios de soberba. Na maioria das vezes, terminam melancólicos e impopulares. A reversão dessa tendência depende de esclarecimentos imediatos e definitivos.

Sem informações completas, não se pode condenar o episódio do motorista nem considerá-lo normal. Explicações parciais e pouco convincentes marcam o passado recente do Brasil. Na atual pré-temporada, pelo menos por enquanto, esse filme se repete.

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