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A pouco mais de três meses do primeiro turno das eleições, a pré-candidata do Rede Sustentabilidade, Marina Silva, mais uma vez ocupa as primeiras posições da corrida presidencial. Mesmo à frente de um partido pequeno e sem alianças nacionais, a ex-ministra do Meio Ambiente resiste entre os concorrentes competitivos ao Palácio do Planalto.

Na pesquisa CNI/Ibope divulgada na quinta-feira (28/6), Marina aparece em terceiro e segundo lugar em simulações com e sem o petista Luiz Inácio Lula da Silva, respectivamente.

Marina cresce seis pontos percentuais, de 7% para 13%, quando o ex-presidente fica fora da disputa. Nesse mesmo cenário, os adversários ganham menos. Bolsonaro sobe de 15% para 17%, Ciro Gomes (PDT), de 4% para 8%, e Geraldo Alckmin (PSDB), de 4% para 6%.

Ex-seringueira, ex-petista, mulher negra, Marina tem a trajetória mais parecida com a de Lula entre todos os concorrentes. Com essas características, embora se tenha distanciado do PT, parte dos eleitores do ex-presidente ainda se identifica com ela. Também foi assim nas disputas presidenciais de 2010 e 2014, quando a ex-ministra obteve a terceira posição nas urnas.

A pesquisa CNI/Ibope não abordou o segundo turno. Mas, na última consulta do Datafolha, divulgada no dia 10 de junho, Marina também despontou entre os três primeiros colocados. Na ausência de Lula, passaria ao segundo turno e venceria a eleição com 42% da preferência dos leitores, contra 32% para Jair Bolsonaro (PSL).

Como Lula encontra-se inelegível devido à Lei da Ficha Limpa, a ex-ministra hoje seria eleita presidente da República, caso os números da pesquisa reflitam com razoável grau de acerto as intenções de voto dos brasileiros. Em uma disputa presidencial, isso é muito.

Desafios a superar
Mesmo com desempenho notável nas consultas eleitorais, ainda parece improvável que Marina chegue à Presidência da República na disputa deste ano. Ela terá apenas oito segundos nos programas de TV para apresentar propostas, e seu partido dispõe de uma fatia muito pequena do Fundo Eleitoral.

Também pesa contra Marina uma certa má vontade do mundo político. Ela tem estilo centralizador e se mostra irredutível em posições que dificultam as negociações com outros partidos. Mas, com essas características, ela, pela terceira vez, destaca-se na disputa presidencial.

Ao se manter distante das cúpulas das grandes siglas, a ex-ministra evita, pelo menos em parte, contaminar-se com escândalos de corrupção que desgastaram as imagens dos dirigentes dessas legendas. Assim, ela pode manter o discurso contra os desvios éticos que abalaram a política brasileira nos últimos anos.

Até agora, essa fórmula deu resultados. Resta saber se, quando começar a campanha oficial, ela terá forças para enfrentar o dinheiro, o tempo na TV e os ataques dos adversários. Em 2014, Marina foi desconstruída pelo marketing de tucanos e petistas, e ficou fora do segundo turno depois de ter liderado as pesquisas.

Potencial a ser considerado
Embora assuste muitos interlocutores com seu jeito restritivo, Marina preserva ligações políticas que estimulam suas pretensões de presidir o Brasil. Nome importante nas discussões eleitorais, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso vez por outra dá declarações em favor da pré-candidata da Rede.

Nas últimas semanas, FHC voltou a se manifestar sobre o assunto. Em conversas reservadas, ele alertou que o potencial eleitoral de Marina não pode ser desprezado. Se o pré-candidato tucano, Geraldo Alckmin, continuar patinando nas pesquisas, Fernando Henrique avalia que Marina pode ser o nome para aglutinar as forças de centro da campanha.

No confuso quadro eleitoral brasileiro, por enquanto, essa é apenas mais uma hipótese. O cenário real da campanha ficará mais claro depois das convenções partidárias e do início da propaganda na TV. Até lá, Marina deve continuar na sua honrosa terceira posição.