*
 

Quatro dias após o massacre que vitimou 14 pessoas em uma danceteria de Fortaleza, criminosos gravaram a execução de um homem, em plena luz do dia, nas ruas da capital cearense. O vídeo foi divulgado nas redes sociais pelos assassinos.  

O crime ocorreu na CE-040, na região metropolitana de Fortaleza, na tarde dessa quarta-feira (31/1). Na gravação, é possível ver dois homens planejando a ação dentro de um carro. Logo depois, surgem imagens de uma caminhonete. O veículo da vítima para no semáforo e um dos bandidos avisa o outro que é hora de agir.

Na sequência, ele desce do carro e caminha em direção ao automóvel do alvo disparando. O motorista abordado tenta escapar, mas bate em um poste. O bandido, armado, vai para o outro lado da caminhonete e dispara novamente, depois volta para o veículo que o aguardava e a dupla foge do local. No vídeo, é possível ouvi-los comemorando mais uma execução. 

Assista:


De acordo com a Secretaria de Segurança Pública do Ceará, a vítima foi identificada como Caio César Siqueira, 29 anos. Ele tinha duas passagens por furto e morreu no local.

O estado tem passado por uma onda de violência. No último fim de semana, 14 pessoas morreram durante uma festa na periferia de Fortaleza. O massacre foi considerado a maior chacina do Ceará. Dois dias depois, um conflito entre detentos da Cadeia Pública de Itapajé terminou com outras 10 mortes. Na terça-feira (30/1), o governo federal autorizou o envio de uma força-tarefa da Polícia Federal para auxiliar as autoridades estaduais de segurança nos trabalhos de inteligência e combate aos crimes.

Facção domina presídio
Nessa quarta (31), autoridades da área de segurança inspecionaram a Casa de Privação Provisória de Liberdade Professor Clodoaldo Pinto (CPPL II), e constatou a fragilidade dos agentes penitenciários ante a hegemonia de uma facção que domina os cerca de 1,2 mil internos do presídio.

De acordo com Ruth Leite, representante do Conselho Penitenciário do Estado (Copen), que participou da visita, a unidade “não foi recuperada” completamente até hoje, desde 2016, quando uma série de rebeliões ocorreu no Ceará. “Não houve recuperação física da estrutura. Houve gambiarra, paliativos. Quando os presos perceberam que ia começar uma reforma [no ano passado], quebraram de novo [as paredes]. Eles continuam soltos nas galerias”, afirmou.

Segundo Ruth Leite, há apenas 10 agentes penitenciários por plantão. Em cada uma das seis galerias, os detentos circulam livremente, não sendo mais recolhidos em suas celas. Assim como outras penitenciárias, a CPPL II fica em Itaitinga, na região metropolitana de Fortaleza. De acordo com a representante do Copen, a inspeção foi agendada após o registro de boletins de ocorrência por parte dos agentes, que buscam se resguardar caso sejam responsabilizados por algum incidente na unidade prisional.

O presidente do Sindicato dos Agentes e Servidores Públicos do Sistema Penitenciário do Estado do Ceará, Valdemiro Barbosa, concorda com a necessidade de melhoria integral do sistema penitenciário. “Eles estão com o controle total da unidade. É a realidade da CPPL II hoje. É uma unidade que está toda danificada. Se o agente é desacatado, não tem como extrair o detento e levá-lo ao isolamento, que foi desativado, porque eles pertencem todos a uma mesma facção”, disse, referindo-se ao grupo Guardiões do Estado (GDE), que comanda a penitenciária.

Segunda-feira (29/1), o governo do estado anunciou um plano de segurança em parceria com o Poder Judiciário e o Ministério Público cearenses para concentrar ações de combate às facções criminosas na região.

Sistema falido
Também nessa quarta (31), no Rio de Janeiro, o ministro da Defesa, Raul Jungmann, admitiu a falência do sistema de segurança pública do país. Segundo ele, a situação chegou a tal ponto que facções estão no comando de ações criminosas praticadas por quadrilhas organizadas de dentro das penitenciárias.

“Este sistema vigente está falido, e o que estamos vivendo hoje é o feito, não apenas da falência, do desenho deste sistema, mas de muitas outras razões. O crime se nacionalizou. Mais que isso, se transnacionalizou. Então, não é no espaço da unidade da Federação que vamos resolver o problema da grande criminalidade”, disse Jungmann. Além de projetos para melhorar as políticas públicas do setor, ele sugeriu medidas de controle de entradas nas unidades prisionais, em “varreduras permanentes” e com a instalação de mais equipamentos de raio-x e bloqueadores de celulares. (Com informações da Agência Brasil)