Pai fala sobre heroísmo do filho que perdeu na tragédia de Petrópolis
Gabriel da Rocha, de 17 anos, foi visto pela última vez ajudando a salvar vidas em ônibus que afundou após temporal em Petrópolis
atualizado
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Rio de Janeiro – Sobrevivente do temporal que deixou 233 mortos em Petrópolis, região serrana do Rio, em 15 de fevereiro, o marceneiro Leandro da Rocha, de 48 anos, que percorreu 13 km de um rio em busca do filho Gabriel da Rocha, de 17 anos, lembra saudoso do ato heroico do jovem de tentar ajudar as pessoas durante alagamento. Esse será o primeiro dia dos pais sem o filho.
“Não sei o que deu no meu filho, ele nem sabia nadar. Gabriel era muito caridoso, decidiu salvar as pessoas primeiro e se salvar depois. Fiquei muito orgulhoso, foi uma atitude memorável, exemplo de amor ao próximo”, disse ao Metrópoles o pai do jovem, Leandro da Rocha.
Gabriel foi visto pela última vez em um vídeo que circulou nas redes sociais. Nas imagens, ele é o jovem de camiseta preta, que aparece em cima de um ônibus afundando no rio. O jovem foi filmado tirando as pessoas de dentro do ônibus, antes de todos serem levados pela correnteza.
O temporal de 15 de fevereiro destruiu ruas, casas, carros e deixou famílias dilaceradas sem seus entes queridos. Leandro jamais imaginou que seu filho pudesse estar entre as vítimas, já que o menino dificilmente o jovem pegava ônibus para ir ao centro da cidade
“Quando cheguei por volta das 18h30, já estava tudo destruído. Na minha cabeça, ele estava no treino ou na igreja, os locais que mais frequentava. Comecei a tentar ligar, mas ele não me atendia, foi então que fiquei preocupado”, diz.
Leandro soube que o filho estava em perigos quando recebeu uma imagem dele, em cima do ônibus afundando.
“Quando eu vi a imagem, complicou. Ali eu desabei. Naquele momento, soube que dois tinham sido resgatados, foi então que começou a minha luta, as buscas começaram”, relembra o marceneiro. “Rodei igreja, pontos de apoio, UPA e até hoje é uma situação que eu não sei descrever. Você saber que seu filho está em risco iminente, mas não saber onde está”, completa.
Busca em 13 km de rio
A ideia de fazer as buscas por conta própria surgiu logo no segundo dia de desaparecimento do filho. Com a ajuda da família, Leandro criou um grupo para tentar encontrar Gabriel e as outras vítimas do ônibus que afundaram no rio.
“Fizemos um grupo para marcar pontos de encontro e delimitar os locais de busca. O grupo tomou uma proporção gigantesca e, de forma direta e indireta, foram cerca de 2 mil pessoas ajudando. Vieram voluntários de São Paulo e pessoas de vários locais do Rio, como Niterói, Caxias e Magé. As pessoas se solidarizaram muito com a situação e a partir dessa comoção, muitos foram resgatados, mas tudo começou pela ação do Gabriel”, conta o pai do jovem.
Durante a semana inteira, Leandro percorreu 13 km de rio atrás do filho, que só foi encontrado no sétimo dia, já sem vida.
“Não perdi as esperanças nenhum dia até encontrar o corpo do meu filho. A gente vai sempre pensar na possibilidade de vida, acreditava que ele pudesse estar em algum lugar. Só caiu a ficha depois que fiz o reconhecimento no Instituto Médico Legal”, diz Leandro.
Após a tragédia, Leandro continuou fazendo as buscas atrás de outras vítimas que estavam desaparecidas.
Pai de uma jovem de 24, um rapaz de 20 e uma menina de 12, Leandro prefere não pensar em como vai ser o primeiro dia dos pais sem Gabriel.
“Ele me faz falta todos os dias, toda hora. Nem sei como vai ser este domingo, mas prefiro nem pensar muito.”
Após perder Gabriel e ver a dor de tantos conhecidos, Leandro quer abrir um instituto com o nome do filho para apoiar toda e qualquer ação em relação à prevenção de tragédias.
“Quero abordar as questões de prevenção da segurança da vida humana e ação humanitária. Quero encontrar profissionais para dar cursos de primeiros socorros, treinamento de resgate, esporte e distribuição de cestas básicas. Foi onde encontrei forças para dar continuidade a minha vida. Do dia 15 de fevereiro para frente, minha vida é voltada ao exemplo do Gabriel, exemplo de amor ao próximo”, diz o pai.














