O desafio de ser mulher e conviver com HIV no Brasil: conheça Nance Ferreira

Veja a história da mulher pernambucana que lidera grupo de acolhimento a pessoas que convivem com o HIV

atualizado 16/07/2021 19:25

Arquivo pessoal

Nance Ferreira, de 42 anos, descobriu que vivia com o vírus do HIV em meio a um momento em que as “coisas estavam fora do lugar” em sua vida. Ela e o marido tinham decidido se mudar para um outro bairro de Recife. Com isso, ela estava encerrando a sociedade que tinha com uma amiga em uma lanchonete, e o marido, 44 anos, fechava uma academia de musculação que tinha em Paulista, região metropolitana da capital pernambucana.

Tudo aconteceu em 2002. Na ocasião, eles tinham uma filha de 2 anos. Antes de partirem para uma nova casa, contudo, o casal acabou se separando. O marido, que era músico e fazia parte de uma banda, passava muito tempo fora de casa e era muito ausente, situação que culminou no divórcio.

Depois de cerca de um mês de separação, o marido passou mal e ficou aproximadamente nove meses internado. Foi quando veio o diagnóstico do HIV. Foi o momento em que Nance descobriu que ele a traía. Não antes de ser acusada e difamada pela família dele.

“A família dele escondeu o motivo da internação de mim. Diziam que ele tinha tido um problema no coração. Me acusavam de ter me separado porque ele estava doente. Tentei vê-lo no hospital, mas não consegui. Elas me expulsaram de lá aos berros.”

Nance descobriu o diagnóstico do marido por meio de uma amiga que trabalhava na área da saúde. Ela ligou dizendo que queria vê-la, e contou da infecção quando se encontraram. “Mais tarde eu fui descobrir que ela me procurou porque ela tinha dormido com meu marido. Ela já tinha feito o exame, e arrumou uma maneira de dizer que eu deveria fazer também”, conta Nance.

Na ocasião, Nance se submeteu aos exames necessários para descobrir se estava com HIV. Estava. Com o diagnóstico em mãos, ela precisou se reinventar diante de alguns sentimentos e situações. “Eu não fui acolhida pela família dele. Eles me viam como uma megera. Eu insisti em levar a nossa filha para vê-lo, mas me tratavam mal. A própria mãe dele espalhou no bairro em que eles moravam que eu, ele e minha filha tínhamos HIV. Minha filha não tem nada. Até que eu desisti e não fui mais lá”, explica Nance.

Preconceito

No Brasil, 346.791 mulheres vivem com o HIV, segundo o Departamento de Doenças de Condições Crônicas e Infecções Sexualmente Transmissíveis, do Ministério da Saúde. Todas vivem um desafio em comum: o preconceito. Coisa que Nance não escapou de enfrentar.

Ela conta que, além das atitudes da família do marido, teve que encarar falas violentas de médicos e de pessoas com quem tentou um relacionamento amoroso, dentre outras situações.

“Durante um encontro, eu disse que era soropositiva. Ele mudou na hora. Eu tive medo de apanhar, ele socava as paredes. A reação dele foi me chamar de monstro. Ele dizia que eu não devia estar andando por aí buscando ter um relacionamento”, lembra.

Nance nunca abandonou o sonho de ter uma segunda filha, mas antes de encontrar um profissional ético ela também encarou o preconceito na classe médica. “Uma vez um médico me disse que eu era louca por querer engravidar. Que com o vírus eu não devia nem pensar nisso”, conta.

Na ocasião, ela discutia sobre as opções de tratamento que não fossem agressivas a ponto de afetar a possibilidade de uma gravidez. “Eu sabia que havia remédios que poderiam afetar meu sonho de ter outra filha”, afirma. Diante da atitude do médico, ela procurou outro especialista, e conseguiu engravidar da sua segunda filha, fruto de outro casamento.

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Para a assistente social Heliana Moura, que atua no Centro de Testagem e Aconselhamento da Prefeitura de Belo Horizonte e é integrante do Movimento Nacional das Cidadãs PositHIVas, o preconceito é fruto de diversas mazelas enfrentadas no país, como o machismo e desigualdade de gênero.

“Ainda percebemos muitos julgamentos e juízo de valor com relação ao HIV/Aids. Temos que defender diariamente nossos direitos a uma saúde sexual e reprodutiva. Muitas vezes somos julgadas por desejarmos tanto por uma vida sexual plena quanto o direito a ter filhos. E lembrando: são direitos, sim! Posso me relacionar com quem quiser, e se quiser ser mãe também tenho esse direito”, afirma a assistente social.

Heliana explica que o HIV/Aids não afeta apenas questões biológicas, mas também sociais e psicológicas. “O HIV traz vários estigmas. Para muitos, uma mulher com HIV é promíscua, prostituta. Eu sempre rebato: as prostitutas se cuidam muito mais que as mulheres com relacionamentos fixos. Para essas, por vezes, é difícil negociar o uso do preservativo. São várias as violências que enfrentamos”, aponta Heliana.

Mais vulneráveis

De acordo com o último boletim epidemiológico anual sobre HIV/Aids 2020 elaborado pelo Ministério da Saúde, em 2019 foram registrados no Brasil 41.919 novos casos de HIV no Brasil. Dos novos casos, 53,8% concentram-se entre homens homossexuais e bissexuais; 30,3% entre heterossexuais; e 1,3% em usuários de drogas injetáveis (UDI). Entre as mulheres, as heterossexuais são as mais atingidas: representam 86,8% dos casos.

De acordo com o boletim, em 2019 morreram 10.565 por Aids, doença infectocontagiosa causada pelo vírus HIV, que leva à perda progressiva da imunidade. As pessoas negras são as que mais morrem – 61,7% (47,2% pardos e 14,5% pretos) do total de mortes, contra 37,7% entre brancos, 0,3% entre amarelos e 0,3% entre indígenas.

A proporção de óbitos entre mulheres negras (62,1%) foi superior à observada em homens negros (61,4%), respectivamente.

No Brasil, há 134.328 notificações de gestantes infectadas com HIV. Somente em 2019, dado último boletim, foram registradas 8.312 novas notificações. Em 10 anos, houve um aumento de 21,7% na taxa de detecção de HIV em mulheres grávidas. Contudo, o boletim sugere que o aumento pode ser explicado pela ampliação do diagnóstico no pré-natal e a melhoria da vigilância na prevenção da transmissão vertical do HIV.

“Infelizmente, sabemos que temos desigualdades fortes no Brasil, com relação a gênero e cor. Somos muito mais cobradas e julgadas. Morrem mais em decorrência da Aids mulheres pretas, o que vem acontecendo também com a Covid-19. Morrem por falta de assistência, acesso a políticas públicas e oportunidades”, explica Heliana.

Volta por cima

Atualmente, Nance é coordenadora do Espaço Posithivo, uma das frentes de atuação da ONG Grupo de Trabalho em Prevenção PositHivo – GPT, que presta apoio a pessoas soropositivas, e que deu suporte a ela quando descobriu o diagnóstico.

A iniciativa coordenada por ela é porta de entrada para outros programas da ONG. É um espaço de acolhimento para todas as pessoas que procuram a instituição. A partir dele, as pessoas são direcionadas a cursos profissionalizantes; têm acesso a doações de cestas básicas; e tiram dúvidas sobre tratamento e prevenção.

“Trabalhar no GTP é um sonho. Eu me sinto super realizada em poder trabalhar em um projeto de onde eu vim, que prestou apoio quando eu mais precisei. já trabalhei em muitos lugares por precisar me alimentar, e só por isso. Hoje eu também trabalho por ser agradecida e por amar o que faço”, diz Nance.

A ONG vive de doações. Caso queira conhecer o projeto e colaborar acesse: https://gtp.org.br/.

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