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Um banner instalado na recepção de um hotel na Asa Norte avisa: Carlinhos, o vidente famoso por ter “acertado” a queda do avião da Chapecoense, em 2016, atenderia no local pelos próximos três dias. A propaganda vinha acompanhada de uma foto do adivinho e uma lista de outras previsões certeiras – o divórcio de Lívia Andrade (para informação: modelo, dubladora e atualmente apresentadora do programa “Fofocalizando”, no SBT), a ausência de Neymar em um dos jogos da Copa do Mundo de 2014 e o fiasco do 7×1 contra a Alemanha.

Parece o bastante para convencer seguidores. Na sua quarta temporada de atendimentos na capital – a média é de uma visita a cada “dois ou três meses” –, ele esperava reunir 20 toneladas de alimentos e 10 mil brinquedos para doar a instituições carentes. As arrecadações são o ingresso da “consulta” com o guru. Quem quiser saber sobre o futuro precisa levar R$ 100 em alimentos ou cinco brinquedos de R$ 20 cada. Carlinhos enche a boca para dizer que sustenta 18 mil famílias com suas benfeitorias pelo país e que nunca ficou com nada recebido nesses encontros.

Felipe Menezes/Metrópoles

Carlinhos e as dezenas de brinquedos coletadas nos primeiros dias desta passagem pela capital

 

Só uma porta e um segurança separavam Carlinhos de sua clientela. “Mexo muito com político. Então, esse pessoal aí me acompanha”, justifica. Já eram 15h da quinta-feira de feriado em Brasília (30/11), mas, na sala de espera, havia gente aguardando desde as 7h. Algumas ensaiavam a “selfie” perfeita para não perder a chance quando chegasse a hora. O vidente abre a porta com um sorriso largo. Fala alto, exala um cheiro forte de perfume. “Fiquem à vontade”, convida, simpático.

Carlinhos, o vidente, na verdade não se chama Carlos. Nasceu José Ferreira dos Santos 55 anos atrás, em Galiléia, cidade mineira de 7 mil habitantes na região do Vale do Rio Doce. Ao contar sua história, fecha os olhos da mesma forma que faz quando está para adivinhar quem será o próximo presidente do Brasil.

O apelido veio dos irmãos – ele é o mais velho de 11 –, que o chamavam de “Cacá”. “Aí, Cacá, Carlinhos”, conclui, como se fosse óbvio. Os pais eram crentes, muito pobres e perderam cinco filhos para a fome. O vidente mesmo passou dias sem comer até descobrir seu dom para adiantar coisas ainda por acontecer. Afirma que um velho cheio de feridas nos braços aparecia em seus sonhos, colocava a mão na sua “barriguinha” e dizia que ele seria o “curador de todas as enfermidades”. “Mas como, se eu era só um menino?”, indaga.

Te benzo e te curo
A resposta, prossegue, veio aos 9 anos. Segundo Carlinhos, foi quando uma vizinha moradora da mesma favela em Galiléia, uma noite, aos prantos, adentrou o barraco onde ele morava. A mulher procurava refúgio após ter tomado uma surra do marido. “Coloquei a mão na cabeça dela e, brincando, disse ‘te benzo e te curo’ e soltei um palavrão”, conta. “No dia seguinte, ela disse para a minha mãe que eu devia ter um pacto com o demônio, porque a dor tinha passado. Como minha mãe era muito crente, soltou um ‘sangue de Jesus tem poder!’”, detalha.

A história do dom de “cura” do menino correu pela cidade e, conforme suas memórias, a casa da família passou a ser ponto de peregrinação de doentes e mazelados dos arredores: “Pegavam minha mãozinha e colocavam onde doía”. Um delegado disse que tinha um time de policiais cheios de dores na coluna por conta do trabalho e pediu para o garoto usar o tal poder e curá-los. Em troca, encheria sua geladeira de comida. As caixas de leite passaram a ser tantas que ele começou a distribuir comida aos necessitados da cidade.

Desde então, Carlinhos vive da sua “vidência”. Embora não cobre pelas previsões, usa a fama que arrecadou com algumas premonições certeiras para angariar patrocínio. Às vezes, aparece com boné e camiseta de redes de supermercado em troca de uma espécie de salário e faz propaganda para uma dupla sertaneja. Trocou Minas pelo Paraná, mas vive na estrada. Só passa em Apucarana, cidade onde mora, “para trocar de mala”. No site, o vidente exibe uma agenda concorrida. Na próxima semana, vai distribuir previsões em Porto Alegre (RS), onde mais de 5 mil pessoas esperam por ele, pelas suas estimativas.

Felipe Menezes/Metrópoles

Vida na estrada e troca de previsões por doações que lhe garantem o próprio sustento e ajuda a famílias carentes

 

As previsões de Carlinhos não precisam de muita cerimônia e de nenhum tipo de “abertura espiritual”. “Negócio aí de abertura é besteira”, ele diz. Basta perguntar e o vidente responde. O futuro todo se descortina diante do freguês em 10 minutos de consulta. “Se a pessoa entrar aqui e eu prever que ela vai morrer, eu conto para ela”, garante.

Algumas pessoas levam listas extensas de angústias futuras. “Como será a bebê? Será tranquila?”, perguntava um rascunho esquecido por uma cliente sobre a mesa. Em outra folha de papel, alguém questionava se o pai ajudaria a pagar um carro que o autor estava “vendo” e pedia conselhos sobre como fazer para a família não lhe “atingir”.

Portanto, além de vidente, Carlinhos diz ser também um conselheiro. “Dou orientação. Porque, às vezes, eu vejo que o marido está traindo a mulher, por exemplo. E aí eu digo para ela que precisa ser carinhosa. Digo ‘olha, seu marido está fazendo isso por causa disso e disso e tal’. O marido precisa ser carinhoso, mas a mulher também”, ensina.

O futuro (?) do Brasil
Carlinhos é um profissional concorrido. Passa o tempo inteiro equilibrando a fila de espera do lado de fora da sala com as chamadas pelo telefone. A cada cinco minutos, uma nova ligação lhe demanda. “É o Alvaro Dias!”, exclama, antes de atender uma delas, se referindo ao senador paranaense filiado ao Podemos. Não era. “E o senador, está bem? Manda um abraço meu para ele”, pede à senhora do outro lado da linha – supostamente alguém do convívio do político.

O vidente aproveita a oportunidade para fazer a primeira premonição da tarde ao Metrópoles. A despeito das últimas pesquisas de intenção de votos, o Palácio do Planalto não será ocupado nem por Lula (PT) nem por João Dória (PSDB), Marina Silva (Rede) ou Jair Bolsonaro (PSC, mas de mudança para o Patriotas, antigo PEN). O futuro presidente do Brasil será Alvaro Dias. O senador anunciou a pré-candidatura à Presidência em julho passado, pouco depois de trocar o Partido Verde pelo Podemos. A disputa, segundo prevê o vidente, vai ser acirradíssima – com Ciro Gomes (PDT).

Quanto aos presidenciáveis que vêm pipocando nas pesquisas até agora, é categórico: diz que Lula já está “procurando alguém para fazer presidente” e que os próximos dias guardam surpresas ruins relacionadas à Operação Lava Jato e ao ex-presidente. Não usou a palavra “prisão”. Já Bolsonaro, ele classifica como “cavalo paraguaio”. “Sai atirando na frente e depois cai”, explica.

Sobre a Copa, se suas premonições estiverem certas, a edição de 2018 ainda não será a do hexacampeonato para o Brasil. Até porque, ele viu, Neymar pode ficar de cinco a sete meses fora dos gramados por causa de uma lesão. “Precisa tomar cuidado com esses ‘driblim’ porque vejo que pode ficar de cama”, alerta ao atacante do Paris Saint-Germain. Mas, tudo bem, porque talvez seja o momento de ele curtir vida nova com a atriz Bruna Marquezine. “Eles foram feitos um para o outro”, garante. “Neymar vai fazer uma filha nela ainda. Uma menininha”, acrescenta.

A pedido do Metrópoles, o vidente ainda martelou uma série de outros acontecimentos futuros. Sobre política, guerras, desastres naturais, terrorismo. Também passeou pelo futuro de celebridades, como Anitta – futura mãe de uma menina, segundo ele mesmo. Confira os vídeos para saber todas as previsões.

E Brasília, como fica?
Aos brasilienses, Carlinhos não guarda boas premonições: a crise hídrica que castigou os moradores do DF neste ano será ainda pior em 2018. Por outro lado, trouxe um acalento aos torcedores do Brasiliense. Prometeu que o Jacaré tem um futuro de bonança pela frente e que estará “entre os grandes”. Sobre o atual governador do Distrito Federal, o socialista Rodrigo Rollemberg, guardou um conselho de amigo: fazer exames. “Se ele não estiver com um problema no fígado, pode me ligar. Gordura no fígado”, diagnosticou.

 

 

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