De acordo com a perícia feita pela Polícia Civil do Rio de Janeiro no carro em que estava a vereadora Marielle Franco (PSol), a munição utilizada pelos criminosos para matar a parlamentar pertence ao mesmo lote das balas usadas no caso que terminou com 17 mortos e sete feridos na Grande São Paulo em 2015. Essa foi a maior chacina registrada na história paulista.

A descoberta foi divulgada nesta sexta-feira (16/3), quando os investigadores constataram que munições 9 milímetros do lote UZZ-18 da Companhia Brasileira de Cartuchos (CBC), originalmente encaminhadas para a Polícia Federal em Brasília, no ano de 2006, foram usadas na morte da parlamentar.

Segundo a imprensa paulista, as munições usadas nas diferentes cenas dos assassinatos em Osasco e Barueri, na Grande São Paulo, pertenciam a cinco lotes (UZZ18, BNT84, BIZ91, AAY68 e BAY18) destinados a forças de segurança: PF, Polícia Militar e Exército. Além do UZZ-18, a PF havia adquirido o lote BTN-84.

A investigação não conseguiu determinar, no entanto, o caminho da munição até o seu uso nos assassinatos em São Paulo. Para os integrantes da força-tarefa que investigavam a chacina, a principal hipótese é de que as munições poderiam ter sido desviadas ou roubadas e acabaram nas mãos de bandidos. Três policiais militares (um deles ex-integrante do Exército) e um guarda civil foram condenados em setembro e em março pelos crimes a penas superiores a 100 anos de prisão.

Conforme informou a Divisão de Homicídios do Rio de Janeiro, o lote de munição UZZ-18 é original. Isso significa que ela não foi recarregada. Os tiros que mataram Marielle e o motorista Anderson Pedro Gomes, na noite de quarta-feira (14), saíram de uma pistola calibre 9mm. Segundo aponta a perícia, os lotes de munições foram vendidos pela empresa CBC.

Agora, as polícias Civil e Federal vão iniciar um trabalho para rastrear a munição. Em nota, a PF informou que além da investigação conduzida pela Polícia Civil pelo crime de homicídio, já foi instaurado inquérito no âmbito da corporação com o objetivo de apurar a origem das munições e as circunstâncias envolvendo as cápsulas encontradas no local dos assassinatos.

“A Polícia Federal no Estado do Rio de Janeiro e a Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro reiteram o seu compromisso de trabalhar em conjunto para a elucidação de todos os fatos envolvendo os homicídios da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Pedro Gomes, ocorrido na noite da última quarta-feira, no Rio de Janeiro”, destacou.

Outra informação divulgada nesta sexta-feira é de que o carro utilizado pelos bandidos, um Cobalt com placa de Nova Iguaçu, era clonado. De acordo com as investigações, dois carros foram utilizados no ataque.

Cruzamento de dados
O promotor Marcelo Oliveira, que representou a acusação nos julgamentos em Osasco, lembrou ao jornal O Estado de São Paulo que o Rio de Janeiro chegou a ser citado por um dos acusados. “No depoimento de um capitão do Exército, chamado pela defesa, houve a menção de que um sargento havia extraviado munições e enviado para o Rio. Ele foi mandado embora da corporação, segundo esse capitão”, detalhou o membro do Ministério Público.

Marcelo Oliveira destacou a necessidade de que o caminho da munição seja investigado no caso do Rio para que se chegue aos culpados. “Se essa situação do lote realmente for confirmada, é claro que há um descontrole muito perigoso em relação a armas e munições. E fica claro para qualquer um que a suspeita recai sobre integrantes de forças de segurança”, disse.

Execução
A principal linha de investigação, até o momento, é de execução premeditada. O assassinato estaria ligado à atividade política da vereadora. Ela foi morta com três tiros na cabeça e um no pescoço quando ia para casa, de carro, com o motorista Anderson Gomes, de 39 anos, também morto no atentado. Ele levou três tiros nas costas. Uma assessora, que estava ao lado de Marielle, sobreviveu e prestou depoimento à polícia. Tudo ocorreu na quarta-feira (14).

“Uma das possibilidades, sim, é essa da execução. Mas não descartamos outras, até porque o crime aconteceu há 10, 12 horas”, disse o chefe da Polícia Civil, delegado Rivaldo Barbosa.

Antes de ser morta, Marielle foi a uma reunião de mulheres negras na Lapa, no centro. Saiu por volta das 21h30, acompanhada de Gomes, que estava conduzindo o automóvel, e da assessora. Elas se sentaram no banco de trás. O veículo seguia para a casa de Marielle, na Tijuca, zona norte do Rio.

Na altura da Praça da Bandeira, na Rua Joaquim Palhares, um Chevrolet Cobalt prata emparelhou à direita do veículo em que Marielle seguia. Um dos ocupantes disparou nove vezes contra a parlamentar, atingindo o vidro e parte da porta traseira direita do carro. O automóvel onde estava a vereadora andou mais alguns metros, e os assassinos fugiram. Marielle e Gomes morreram imediatamente. A assessora foi atingida só por estilhaços e prestou depoimento ainda de madrugada, durante cinco horas.

Outra testemunha, alguém que passava pelo lugar na hora do ataque, também teria sido ouvida pela polícia. A arma usada no crime foi uma pistola 9 milímetros, segundo a perícia. Ao menos nove projéteis foram recolhidos no local da tragédia. Para os investigadores, o carro da vereadora foi seguido pelo veículo onde estava o assassino desde que Marielle saiu da reunião, na Lapa.

O motivo da suspeita é que, embora os vidros do automóvel de Marielle estivessem cobertos por película escura, os bandidos pareciam saber exatamente onde ela estava sentada. Os disparos foram efetuados em direção àquele ponto. A exatidão dos tiros também chamou a atenção dos policiais.

De acordo com a TV Globo, imagens de câmeras mostram que havia um carro parado por duas horas perto de onde Marielle participava do evento. Esse automóvel teria saído quando o veículo de Marielle deixou o local. A possibilidade de ter sido reação das milícias à intervenção chegou a ser repassada ao Palácio do Planalto nessa quinta-feira (15), mas depois perdeu força. A informação recebida pelo Planalto é de que a principal linha de investigação é mesmo de execução.

Ajuda federal
A Polícia Federal vai auxiliar as diligências, mas a chefia da apuração fica a cargo da Polícia Civil. A possibilidade de federalizar o caso havia sido cogitada pela procuradora-geral da República, Raquel Dodge, mas não foi à frente. Investigações são federalizadas quando há delito contra os direitos humanos e incapacidade do Estado para apurar. Então, a PF apura e a Justiça Federal julga. “É um caso que precisa do apoio de todas as forças investigatórias”, disse Dodge.

O chefe da PCRJ não demonstrou entusiasmo em relação ao auxílio oferecido pela PF: “Temos nossos protocolos estabelecidos. Quem quiser nos ajudar, receberemos a ajuda, de qualquer instituição. Entretanto, quero dizer que a Polícia Civil do Rio tem capacidade para resolver esse caso.” (Com informações da Agência Estado)