Mãe de travesti espancada no Ceará diz que filha é vítima da homofobia

Em discurso emocionado para o governador do estado, Francisca Ferreira de Vasconcelos falou sobre a filha Dandara

atualizado 12/03/2017 10:07

Arquivo Pessoal

A morte da cearense Dandara dos Santos, 42 anos, chocou o mundo. Travesti, ela foi espancada em plena luz do dia em uma rua de Fortaleza, no dia 15 de fevereiro. As cenas cruéis foram filmadas e mostram ela recebendo chutes, pauladas e xingamentos de, pelo menos, quatro homens. E, se a brutalidade do crime é capaz de impactar uma pessoa comum, se torna ainda mais dramática aos olhos da mãe da vítima.

“Açoitaram meu filho, governador. Fizeram tanta coisa ruim com ele… Eu não tive coragem de ver, mas me contaram tudo. O senhor sabia que o sangue dele escorria pelo rosto, e ele ia limpando com a mãozinha assim? Minha maior dor é que ele chamou por mim. Enquanto batiam nele, ele dizia: ‘Eu quero minha mãe. Cadê a minha mãe?’ E eu não estava lá”.

A frase é de Francisca Ferreira de Vasconcelos, 74 anos. Ela foi dita entre lágrimas para o governador do Ceará, Camilo Santana, durante uma reunião de militantes LGBT no Palácio da Abolição, de acordo com O Povo.

As fortes declarações não ficaram por aí. “Será que foi uma missão que Deus deu para meu filho? Dele ser sacrificado para ter essa repercussão internacional toda e mudar essa situação?”, questionou. “Desculpe por eu estar chorando, governador, mas eu não consigo parar de chorar.”

Omissão
O caso fez com que, novamente, grupos LGBT apontassem a omissão das autoridades na tentativa de coibir a homofobia. De acordo com dados do Grupo Gay da Bahia, somente em 2016, 144 travestis foram assassinadas no Brasil. Apesar de ainda ser março, 2017 já tem 23 homicídios contabilizados.

Em entrevista à BBC, Francisca lembrou com carinho de Dandara. “Ela acordava logo cedinho, às 5h já estava de pé e, às 6h, o café já estava na mesa. Meu filho era querido por onde passava. Todo mundo aqui na rua brincava com ele, os garis, as meninas da padaria, todo mundo”, disse.

A morte não é apenas a única dor com a qual ela tem de lidar. Francisca não consegue entender a homofobia que fez com que sua filha morresse.  “Meu filho (Dandara) não tinha inimigos, ele foi morto por preconceito. Por ser travesti, ele vivia sendo humilhado. Agora eu pergunto, qual o problema de ser assim, me diga?”, questionou.

As travestis foram o segundo grupo em número de vítimas fatais em ataques homofóbicos no ano passado. Dentre 343 assassinatos de pessoas LGBTS, 173 eram gays (50%), 144 (42%) trans (travestis e transexuais), 10 lésbicas (3%), 4 bissexuais (1%), além de 12 heterossexuais que mantinham relações com transsexuais.

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