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Brasil

Infectologista: "País não é anticientífico, tem 20% de negacionistas"

Estevão Urbano da Silva sustenta que problemas do início da contaminação de Covid-19 podem se arrastar ainda em 2021 por erros do governo

Repórter de Brasil05/03/2021 04:45, atualizado 04/03/2021 20:41
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Arte/Metrópoles
Infectologista: “País não é anticientífico, tem 20% de negacionistas”

Mais de um ano após o registro do primeiro caso de Covid-19, doença causada pelo novo coronavírus, o Brasil ainda enfrenta problemas que tumultuam o combate da pandemia no país.

O entendimento sobre as regras de distanciamento e o uso de máscara, a disseminação de notícias falsas, a prescrição de tratamentos ineficazes e a falta de planejamento para a compra de vacinas são as principais falhas.

Para o médico Estevão Urbano da Silva, um dos coordenadores da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), o Brasil ainda enfrentará problemas em 2021.

Em entrevista ao Metrópoles, o especialista aponta erros cometidos no ano passado e entraves que devem prolongar a crise no país ainda este ano. A seguir, confira o ponto a ponto da conversa.

Balanço

Estevão acredita que o modo de o governo agir resultou em ações ruins. “Houve uma fragmentação do combate à pandemia, um vácuo no comando federal, e isso fez com que governadores e prefeitos tivessem atuação heterogênea”, pondera.

Para ele a politização, a pressão sobre o cancelamento das medidas de distanciamento, o investimento em cloroquina como tratamento e a resistência ao uso de máscara interferiram no controle da doença.

“O grande problema é que deixamos o campo da ciência para o campo da ideologia. Isso causou uma grande confusão na cabeça das pessoas. Poderíamos ter feito mais e melhor”, explica.

Apesar do panorama ruim, o especialista aponta “ilhas com comportamento diferenciado”. Ele cita como exemplos básicos o Instituto Butantan, em São Paulo, e a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), no Rio de Janeiro.

Prevenção

Com o passar dos meses, o país assistiu aos cidadãos abandonando as regras de distanciamento, como isolamento social, e o uso de máscara.

Estevão acredita que isso foi reflexo da condução do governo durante a pandemia. “Houve uma condução errática. Agora, acredito que a maioria da população, mesmo com momentos de fraqueza, físico ou emocional, indo num aniversário ou fazendo uma viagem, a maioria ajudou no combate da pandemia”, defende.

Ele pondera. “Contudo, existem 20% ou 30% de negacionistas. Isso dá a impressão que a maioria participa do processo anticientífico. Mas, na verdade, isso representa uma minoria que não aprendeu, e acho que não vai aprender. É uma mudança que não depende da informação, mas sim, de política e ideologia”, afirma.

Ataques à ciência

Com o aumento dos casos e mortes, a disputa entre o discurso científico e político ficou cada vez mais acirrada. Para o médico, essa é a primeira vez na história do país que a ciência tem sido tão questionada.

“Isso tem a ver com a condução de cada país. Houve locais onde a ciência foi muito respeitada e outros em que ela foi desconjurada, como ocorreu no Brasil. Quando tiramos do foco, colocamos a discussão científica em último plano. Nunca houve algo nessa intensidade e com esse peso”, salienta.

Estevão explica que erros como o negacionismo da forma de transmissão viral, o questionamento da necessidade de medidas de distanciamento, passando pelo erro de tratamentos sem comprovação científica, até o desconhecimento associado à ausência de importância da vacina impactou no desempenho brasileiro.

“Quando se percebeu que a melhor forma de combater a pandemia era com a vacina, já estávamos atrasados e com uma fila imensa de outros países pedindo lotes dos imunizantes. Assistimos a uma série de falhas ligadas à incompetência na tomada de decisões e ao debate ideológico”, conclui.

Perspectivas para 2021

O médico acredita que “faltou liderança para tomar atitudes certas e na hora correta”. “Até agora, estamos vivendo uma situação caótica. É fato. A tendência é passarmos por grandes dificuldades ainda este ano”, avalia.

Estevão aponta dois problemas: a vacinação contra a Covid-19 ocorrendo de forma lenta e a propagação de novas cepas do vírus.

“A imunização está muito lenta. Ainda teremos uma população muito suscetível entrando no segundo semestre. Além disso,  ainda não sabemos qual será o impacto das cepas variantes. Se essa cepa for a responsável por esse caos em algumas cidades e não for atenuada pela vacina, isso será caótico”, vaticina.

Por fim, Estevão ressalta a necessidade de o Brasil realizar mais sequenciamento genético para monitorar a evolução do novo coronavírus.

“Procuramos pouco, encontramos pouco. Não quer dizer que existe pouco. É uma questão de tempo, um local adquire uma cepa ela se dissemina e vai explodir. Não encontrar uma cepa pode não ser o retrato de hoje, mas será o de amanhã”, alerta.

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