Um incêndio de grandes proporções destruiu o acervo do Museu Nacional, na zona norte do Rio de Janeiro, na noite deste domingo (2/9). Especializado em história natural e mais antigo centro de ciência do País, o Museu Nacional completou 200 anos em junho em meio a uma situação de abandono. Não houve feridos.

Segundo informações do canal GloboNews, às 3h desta segunda-feira (3), já havia sido iniciado pelos Bombeiros o trabalho de rescaldo após apagar os últimos focos do incêndio. A equipe que trabalha no local trata de resfriar os escombros para, em seguida, fazer uma avaliação do estado do edifício e, finalmente, adentrar o museu.

Dois andares foram bastante destruídos, e parte do teto, de madeira, caiu. Segundo o comandante-geral do Corpo de Bombeiros do Rio, o coronel Roberto Robadey, o prédio não corre risco de desabar. As paredes externas do prédio são bastante grossas, diz ele, e, embora antigas, resistiram ao fogo. “Algumas partes internas desabaram”, afirmou.

No momento do incêndio, o local estava fechado para visitantes, mas havia funcionários de plantão. Bobadey destacou que a Defesa Civil fez uma avaliação preliminar, que indica que a estrutura principal ainda está preservada, mas que no interior do complexo, algumas áreas desabaram. “As paredes da frente são muito grossas, muito fortes e, por enquanto, está sob controle.” Relatou também que equipes de bombeiros conseguiram salvar algumas obras. “A gente conseguiu tirar muita coisa de lá”, comemorou.

Um inquérito será aberto pela Polícia Civil do Rio de Janeiro para apurar se o incêncio foi criminoso ou não. O resultado da investigação deve ser conduzida pela Delegacia de Repressão à Crimes de Meio Ambiente e Patrimônio Histórico, da Polícia Federal.

O vice-diretor do Museu Nacional, Luiz Fernando Dias Duarte, destacou que tudo no museu foi perdido, incluindo o acervo de 200 anos da instituição e centenas de obras valiosas para a história do Brasil e do mundo. “Perdemos coleções zoológicas, paleontológicas, arqueológicas, linguísticas, etiológicos, tudo”, disse.

Ele chamou a perda de “insuportável”. “Fiz toda minha carreira lá, tive que assistir a uma devastação tão radical de um patrimônio inestimável.”

O diretor de Preservação do Museu Nacional do Rio de Janeiro, João Carlos Nara, afirmou que o incêndio causa um “dano irreparável” ao acervo e às pesquisa nacionais. Ele acompanha de perto o trabalho dos bombeiros no local e disse que “pouco restará”, após o controle das chamas.

De acordo com João Carlos Nara, a equipe de administração do Museu Nacional aguardava o fim do período eleitoral para iniciar as obras de preservação da infraestrutura do prédio. “É tudo muito antigo. O sistema de água e o material, tudo tem muitos anos. Havia uma trinca nas laterais. Isso é ameaça constante”, disse o diretor.

O Museu Nacional, vinculado à Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), é a mais antiga instituição científica do Brasil e um dos maiores museus de história natural e de antropologia das Américas. Serviu como Palácio da família real portuguesa entre 1808 a 1821. O edifício é tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) desde 1938.

O presidente Michel Temer, em nota, lamentou o ocorrido, classificando o episódio como “incalculável perda” para o Brasil. “Hoje é um dia trágico para a museologia de nosso país. Foram perdidos 200 anos de trabalho, pesquisa e conhecimento. O valor para nossa história não se pode mensurar, pelos danos ao prédio que abrigou a família real durante o Império. É um dia triste para todos os brasileiros.”

Tragédia sem precedentes
Em entrevista à GloboNews, a presidente do Iphan, Kátia Bogéa, lamentou a tragédia e ressaltou que a comunidade internacional acompanha com preocupação o combate ao incêndio. “É uma tragédia brasileira sem precedentes”, comentou. Segundo ela, o museu já estava com um projeto de revitalização pronto para ser executado.

O ministro da Cultura, Sérgio Sá Leitão, considerou uma “negligência absurda” a situação ocorrida no museu. “Não houve tempo para que o projeto [de revitalização] começasse a acontecer, não pudemos evitar essa tragédia. É resultado de negligência que vem há algum tempo, de governos anteriores”, afirmou. O chefe da pasta reconheceu que o incêndio poderia não ter acontecido.

Questionado sobre a responsabilidade do Ministério na Cultura, Leitão explicou que a pasta fez um levantamento do que era preciso para a revitalização do espaço. “Apontamos tudo que era necessário para melhorar as condições, um diagnóstico com as coisas que precisavam ser feitas”, complementou.

Ele destacou que a tragédia ocorrida hoje no Rio serve de alerta para que outras não ocorram. Também comunicou a necessidade de ser feito agora um levantamento de danos para que sejam iniciados os trabalhos de reconstrução do museu.

Museu da Língua Portuguesa
Em 2015, outro prédio histórico, dessa vez em São Paulo, foi destruído por chamas. O Museu da Língua Portuguesa pegou fogo após um curto-circuito durante a troca da iluminação em um corredor do primeiro andar.

O fogo se alastrou rapidamente e três andares do museu foram destruídos, além da cobertura. O bombeiro Ronaldo Ferreira da Cruz morreu durante o combate ao incêndio. O prédio de 117 anos ainda está em reforma e só deve ser reaberto em 2019.