Tucanos se reúnem para tentar juntar cacos e decidir destino de Doria

Ex-governador de São Paulo ameaçou ir à Justiça se sua candidatura for negada, o que ampliou a crise no ninho tucano

atualizado 17/05/2022 7:25

joão doria em sobreposição. preocupadoRafaela Felicciano/Metrópoles

Inconformado com seu crescente isolamento dentro do próprio partido e com a falta de apoio para se lançar candidato à Presidência da República, o ex-governador paulista João Doria (PSDB) tentou virar o jogo ao ameaçar, no fim de semana, recorrer à Justiça para forçar o respeito às prévias tucanas. O resultado, porém, foi o oposto ao que ele esperava, e, nesta terça à tarde (17/5), a Comissão Executiva Nacional do PSDB se reúne emergencialmente em um cenário amplamente negativo para o ainda pré-candidato ao Planalto do partido.

A reunião, em Brasília, na sede tucana, foi convocada pelo presidente nacional do partido, Bruno Araújo, que nunca se empolgou com a candidatura de Doria e não deve defendê-la, mas agora luta para que a crise atual não amplie o já antigo racha no partido e traga consequências eleitorais.

As lideranças tucanas não se entendem, mas se preocupam com o encolhimento do partido. O PSDB, que elegeu 29 deputados federais em 2018, saiu da última janela de trocas partidárias com 23 representantes na Câmara, o que deixou a sigla na oitava posição entre as maiores bancadas.

Nas eleições federais anteriores, quando seus candidatos chegaram ao menos ao segundo turno da disputa pelo Palácio do Planalto e perderam para Dilma Rousseff (PT), em 2010 e 2014, o partido havia eleito bancadas de 53 e 54 deputados, respectivamente.

“O jogo do PSDB hoje é lutar pela sua própria sobrevivência. Eles buscam um nome para lançar à Presidência na esperança de fazer bancada, porque possibilidade de vitória eles sabem que não existe”, avalia o cientista político Francisco Fonseca, professor na Fundação Getúlio Vargas (FGV) em São Paulo.

“E ter João Doria sangrando em praça pública não ajuda em nada nesse objetivo, então, se conseguir um mínimo de entendimento nessa reunião de amanhã [hoje], a Executiva Nacional vai tentar perseguir algum pragmatismo e transformar Doria de vez em uma carta fora do baralho. É o que pode fazer esse partido, que já foi grande, para se manter ao menos como médio”, afirma Fonseca em conversa com o Metrópoles, na qual também criticou o estilo de Doria de fazer política.

“O comportamento de Doria foi um dos motivos para a crise no PSDB. Ele não teve um crescimento orgânico no partido. Chegou como um meteoro, em 2016, para disputar a prefeitura de São Paulo, que abandonou para concorrer ao governo. Agora, me parece que ele vai embora também como um meteoro”, avaliou o cientista político.

Ele afirmou também que, ainda que o problema mais imediato seja resolvido e Doria perca seu espaço de vez, quem agiu para abater seus planos não terá muito o que comemorar. “Essa é uma luta em que todos saem derrotados. O enfraquecimento do PSDB é total.”

A reunião da Executiva Nacional do PSDB seria realizada apenas na quarta (18/5), quando há a previsão de serem divulgados os resultados de uma pesquisa encomendada pelos próprios tucanos e pelo MDB para avaliar se Doria ou Simone Tebet (senadora do MDB) tem mais viabilidade eleitoral.

No sábado (14/5), Doria divulgou uma carta contra essa pesquisa e ameaçando judicialização da disputa. Em resposta, Bruno Araújo adiantou a convocação da reunião.

Os aliados de Doria ainda defendem que o PSDB valide as prévias realizadas em novembro do ano passado, e que somente mais próximo da eleição possa eventualmente apoiar outro nome do centro que entenda ser mais viável.

Esse posicionamento foi reforçado após o União Brasil decidir lançar Luciano Bivar como pré-candidato, em vez de seguir nas negociações com PSDB, MDB e Cidadania para lançar um candidato único – um sinal de que, a partir disso, não se chegaria a um consenso e ficaria “cada um por si”.

O presidente do PSDB de São Paulo e aliado de Doria Marco Vinholi destacou que o ex-governador paulista “pontua na frente nas pesquisas”, e por isso defende que o partido “deve continuar com o que foi definido nas prévias”.

“Na prática, Doria colocou sua posição de que não concorda com os critérios estabelecidos, uma vez que sua candidatura foi definida em prévias. Foi todo um planejamento em torno disso, que envolve inclusive a montagem de um plano de governo, e não tem nenhum fato novo que possa representar algo contrário a isso”, diz.

Independentemente das prévias, porém, a pré-candidatura de Doria enfrenta resistências dentro do próprio PSDB desde o ano passado. O partido está rachado porque uma ala defende que o ex-governador do Rio Grande do Sul Eduardo Leite seja o candidato.

Num evento que agravou a crise, Doria colocou em xeque o planejamento do partido de lançar o nome de seu ex-vice, Rodrigo Garcia, como candidato ao governo de São Paulo ao ameaçar não deixar o governo no fim de março. O clima só piorou desde então, já que a eleição de Garcia é uma prioridade do partido e a cúpula avalia que a rejeição de Doria pode contaminar a disputa estadual.

Ao mesmo tempo, o ex-governador tem avanços muito tímidos nas pesquisas de intenção de voto e costuma alcançar por volta de 3% – mas ainda fica à frente de Tebet nos levantamentos.

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Brigando em público

Doria ainda tem aliados de peso dentro do partido, como o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso – ao menos publicamente –, mas seus críticos já não trabalham nos bastidores. O deputado federal Aécio Neves (PSDB-MG), que já presidiu o partido e foi candidato à Presidência em 2014, tem dado entrevistas criticando o desafeto, que chegou a pedir sua expulsão do partido no ano passado, quando o mineiro foi denunciado pelo Ministério Público, acusado de receber propina dos donos da JBS [este ano, Aécio foi considerado inocente pela Justiça].

“Eu acho que Doria será um candidato que levará, se for até o final, o PSDB a uma grande derrota”, disse Aécio à CNN nesta segunda (16/5).

“Mas ele venceu as prévias, contra o nosso [preferido, o gaúcho Eduardo Leite], contra todas as nossas manifestações”, completou o mineiro. Ele disse ainda achar “mais legítimo que aqueles que bancaram a candidatura de Doria, deram a ela instrumentos para vencerem as prévias, e me refiro ao presidente [do PSDB] Bruno Araújo, ao governador Rodrigo Garcia, seria muito mais correto que eles se sentassem de frente com o candidato, junto com outros governadores, outros parlamentares e dissessem: ‘Sua candidatura trará esses e esses prejuízos ao país, às nossas candidaturas, ao governo de São Paulo, em especial'”.

Outro dirigente tucano, o ex-senador José Aníbal (PSDB-SP), avaliou que a carreira política de Doria “travou e não consegue destravar”, e pediu ao companheiro de partido que tome a iniciativa de desistir da candidatura em nome da manutenção das chances do partido na eleição.

O também ex-senador Aloysio Nunes (PSDB-SP), um dos fundadores da sigla, foi mais longe e já declarou apoio ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) desde o primeiro turno das eleições deste ano.

Nada com isso

Uma das principais interessadas na desidratação de Doria, a pré-candidata Simone Tebet (MDB-MS) não quis colocar lenha na fogueira e disse, na segunda (16/5), em entrevista ao jornal O Globo, que Doria “é problema do PSDB”.

“Eu aceitei as regras do jogo e, posso falar por mim, vou aceitar o resultado na quarta-feira [18/5] seja ele qual for”, afirmou ela. “O PSDB aceitou fazer parte dessa pesquisa junto com Cidadania e MDB. Eu estou pronta para subir no palanque dessa frente democrática, independentemente de cabeça de chapa ou vice”, completou ela.

Antes do fim desta semana, portanto, é possível que o Brasil saiba qual nome será oferecido pela chamada terceira via para tentar romper a polarização entre Lula e o atual presidente, Jair Bolsonaro (PL), que lideram por muito todas as pesquisas.

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