“Fazer ranking para aprovar alunos é a pior coisa”, diz especialista
Responsável por cunhar o termo “nativos digitais”, Marc Prensky prega novas formas de avaliar estudantes
atualizado
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Palestrante e especialista em educação, Marc Prensky é autor de sete livros a respeito de como a tecnologia impacta o segmento de aprendizagem. Também é fundador da organização internacional The Global Future Education.
O que mudou desde o início dos anos 2000, quando o senhor criou pela primeira vez o termo “nativos digitais”?
Acredito que as duas culturas, pré e pós-digital, estão cada vez mais distintas. Não é só uma questão de os jovens saberem mais de tecnologia do que os mais velhos. Tem muito mais a ver com a questão cultural e de atitude entre as gerações. Antropologistas têm visto isso ao redor do mundo. As gerações criadas na era pré-digital têm valores políticos, religiosos, financeiros, de tempo e espaço, privacidade, relacionamentos, entre outros, completamente diferentes das pessoas mais jovens, criadas na era pós-digital. Nos EUA, percebemos isso claramente em relação à sexualidade, a questões raciais, entre outros fatores.
O processo de aprendizagem dos nativos digitais é mais avançado? Eles processam informações mais rapidamente?
Acho que é muito além do aprendizado simples. A tecnologia possibilita que cada criança aprenda coisas diferentes. E, com isso, se tornam mais questionadoras. Hoje, os alunos estão tão empoderados pelas ferramentas digitais que não se conformam mais em aprender as disciplinas tradicionais e, de certa forma, se ressentem com a evolução mais lenta da educação, porque entendem que, se eles realmente querem aprender algo, podem buscar por conta própria. Consideram o Youtube o maior educador e professor do mundo. O desafio é ensiná-los a separar o que é bom e ruim. O processo de educar hoje está aí.
Como educador e pesquisador, quais são os maiores benefícios do uso de tecnologia no processo de aprendizagem?
Acredito que o maior benefício – que não tínhamos antes – é a habilidade de personalizar e criar, literalmente, uma educação diferente e única para cada estudante. Isso é o que aquelas pessoas que podiam pagar no passado tinham quando contratavam tutores, por exemplo. Hoje em dia, isso está potencialmente disponível para todos. Ainda precisamos de professores para educar nossos filhos, mas a forma como eles atuam precisa mudar. Não precisamos mais que eles sejam provedores de conteúdo – para isso temos aplicativos como a Khan Academy. O que precisamos dos professores, e isso a tecnologia não fornece, é respeito, confiança, empatia com os jovens e direcionamento.
O senhor acredita que o sistema educacional está mais preparado para educar os chamados nativos digitais? Ou ainda há um abismo enorme em termos de livros, professores, metodologias, equipamentos?
O sistema de educação em curso hoje no mundo – um resquício da era pré-digital – é atrasado. Somente incrementá-lo com tecnologia ou qualquer outra ferramenta é uma perda de tempo. Um novo tipo de educação é necessário e está emergindo. Será baseado em projetos reais, habilidades socioemocionais e no empoderamento de jovens para causar impacto no mundo. Não quero dizer que todo o conteúdo ensinado no passado é sem valor. A verdade é que ele não é mais necessário na mesma quantidade para todos. Muito do que antes se considerava básico está mudando. Por exemplo, muito do que aprendíamos em aritmética – nas aulas de matemática – pode ser feito de forma bem mais avançada com calculadoras. Até mesmo leitura e escrita, que ainda são consideradas muito relevantes, serão provavelmente, em breve, substituídas por telefones com aplicativos de voz e texto.
Como pais e professores podem se relacionar melhor com os nativos digitais e colaborar no processo de aprendizagem?
O que observo nas minhas viagens ao redor do mundo é que tanto pais quanto professores subestimam o que os jovens são capazes hoje em dia. Sendo assim, eles acabam se ressentindo. Falo disso no meu novo livro Our Kids Are Not Pets (ainda sem tradução para o português) porque acredito ser a forma como tratamos nossos filhos. Se pais e professores realmente desejam ajudar os filhos/alunos, eles precisam auxiliar na descoberta do que eles gostam, quais são suas forças, o que eles querem fazer com suas potencialidades e, a partir daí, ajudá-los.
Fazer rankings em provas – que na minha opinião é outro formato vencido – é a pior coisa que podemos fazer. Existem casos seríssimos ao redor do mundo de jovens que não aguentaram a pressão.
No seu novo livro, o senhor fala da forma como pais e professores tratam os filhos e alunos. Como o senhor acha que educadores podem ser mais bem treinados para auxiliar seus alunos?
Acredito ser uma questão de perspectiva e, muitas vezes, isso também é cultural. Nesses casos, requer um esforço extra dos professores para superar essa visão e conseguir enxergar de forma diferente. Acredito que a grande parte das culturas ao redor do mundo enxerga os alunos com pouco respeito, como animais de estimação que podemos mandar para lá e para cá, e não como alguém que pode colaborar conosco. Um parceiro. Professores, muitas vezes, replicam o que eles viveram. Por serem mais velhos, na maioria das vezes, eles veem o jovem como alguém com menos experiência. Não estou dizendo que os jovens não precisam de orientação. O que eles precisam, acima de tudo, é de respeito.
Marc Prensky: “Enxergamos os alunos com pouco respeito e não como alguém que pode colaborar conosco”Na sua opinião, como pais podem ser modelos para seus filhos?
O papel dos pais é, claro, de moldar o pensamento dos filhos, mas sabemos que muitas vezes nosso comportamento diz mais sobre nós do que nossas próprias palavras. Como já disse, acredito que, na maioria das vezes, os adultos subestimam a capacidade dos jovens de fazerem bons julgamentos e escolhas. Um dos grandes problemas hoje em dia é que, com o acesso muito cedo à tecnologia, o crescimento intelectual dos jovens ultrapassa o crescimento emocional. E só estávamos preparados para lidar com os dois sistemas de forma simultânea. Sendo assim, precisamos criar novas formas de aproximação que sejam relevantes nos dias atuais.
Por conta das constantes mudanças no mundo, quais serão as carreiras do futuro?
Considerando o crescimento exponencial da tecnologia, é quase impossível prever carreiras de médio e longo prazos. Com o avanço da automação, os jovens precisam se tornarem únicos na forma de se relacionarem. Por isso, temos de trabalhar a fim de preparar nossos jovens para tudo.
Temos de ajudar cada um a maximizar seu potencial criativo, por exemplo, e saber desenvolver bem o que cada um tem de melhor. Isso é bem diferente da forma como ensinamos atualmente.
Sendo assim, nossas universidades terão que ministrar o conteúdo de outra forma?
As universidades já estão começando a mudar, porque tem sentido a necessidade de integrar cada vez mais o pensamento crítico com realizações práticas. Podemos medir isso pelo grande número de instituições ao redor do mundo que não oferecem mais só a experiência acadêmica e sim projetos, estágios e programas de cooperação com estudo e experiência no mercado de trabalho – os chamados co-op.
Para sistema de ingresso, universidades nos EUA avaliam critérios como notas, habilidades e realizações pessoaisQual a importância de uma boa formação básica para a obtenção de resultados na universidade e na vida profissional?
Muitas pessoas se preocupam com o conteúdo básico, a fundação da educação. Mas, o tipo de conteúdo considerado básico está mudando rapidamente com o avanço da tecnologia e o crescimento populacional. A habilidade de criar e estabelecer conexões únicas são importantes desde o início da formação, assim como a habilidade de lidar bem com ferramentas tecnológicas e máquinas mais avançadas – que já podem ser consideradas extensão do nosso cérebro. A grande questão é: “Qual parte quero delegar para as máquinas fazerem mais rápido e quais habilidades quero que sejam exclusivamente humanas?”.
A utilização de rankings de notas para selecionar as pessoas ainda é muito usada ao redor do mundo para ingressar na educação, mas isso está mudando. Estão começando a perceber que existem outras maneiras de selecionar. O ranking não pode ser único e também não é suficiente. Hoje, para ingressar em uma instituição renomada nos EUA, eles consideram a sua nota, mas também todo o seu currículo pessoal de realizações, habilidades, interesses pessoais, etc.


