Depois de vencer avalanche de lama, sobreviventes esperam por auxílio
Operadora de máquinas, Maria Aparecida conseguiu salvar a própria vida e as da filha e do marido, mas não tem trabalho nem onde morar

Brumadinho (MG) – Todos os dias, há quase 20 anos, Maria Aparecida dos Santos, 44 anos, operadora de máquinas em uma fazenda nas imediações do Córrego do Feijão, seguia a mesma rotina. Pouco antes do meio-dia fechava a casa de máquinas e ia para a sua residência, preparar o almoço da família.
No dia 25 de janeiro deste ano, Maria olhou o relógio e viu que faltavam 10 minutos para o meio-dia. Foi para casa, colocou as panelas no fogão e lavava algumas folhas para a salada quando ouviu um estrondo. O barulho, que para a mulher “parecia o fim do mundo”, mudou sua vida definitivamente e trouxe uma devastação de lama que varreu tudo o que ela um dia conquistou.
Enquanto arrumava o almoço, Maria Aparecida chamou a filha Ana Clara, de 9 anos, e pediu que a menina colocasse o telefone da mãe para carregar. “Ela colocou na mesinha do canto da sala e eu voltei para a cozinha. Ouvi um barulho estranho, uma ventania forte e o pontilhão do trem estalando. O trem eu sabia que não era porque não o via nos trilhos. Quando fixei o olhar, o pontilhão começou a desabar e veio tudo aquilo para cima dele”, lembra a moradora da área atingida pelo rompimento da Barragem I, da Mina do Feijão, em Brumadinho (MG).

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Ver todasEm meio ao desespero, mas ainda com raciocínio rápido, Maria Aparecida chamou Ana Clara novamente. Pediu que a garota pegasse o celular e saísse para o quintal. Quando as duas já estavam no terreiro, a mãe pegou no braço da filha e disse: “Você precisa me ajudar. Vamos correr muito agora. Usa toda a sua força e não olha para trás”. Assim, as duas correram na frente da lama, pelo meio do mato, até chegar a uma estrada de terra que não foi atingida.
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Durante a fuga, a lama chegou aos seus joelhos de mãe e filha. Ainda assim, elas seguiram em frente. Maria Aparecida caiu no caminho, mas se levantou novamente e espiou, de relance, o caminho que deixara para trás. Via pessoas e coisas sendo arrastadas. Já seguras no alto da estrada, onde a lama não alcançava, a mulher ainda conseguiu ligar para o marido, que trabalhava em uma horta na mesma fazenda em que ela e a filha estavam: o avisou a tempo pra escapar, com os companheiros de lavoura, da enxurrada de lama.
Para a operadora de máquinas, o pior dia de sua vida foi também a data em que considera ter nascido de novo. Agora, fica o vazio de lembranças, memórias de toda uma vida que está soterrada pela lama da Vale.
Salvei as nossas vidas, mas perdi tudo. O que não consegui salvar foram meus bens e tudo que conquistei em 20 anos, mas exijo que eles me devolvam isso. Preciso montar um lar para a minha filha. Eles nos arrancaram nosso lar e isso não é culpa de nenhum de nós. Ficou tudo na lama
Maria Aparecida dos Santos, sobrevivente da tragédia em Brumadinho
Reparação
Agora, Maria Aparecida afirma que sua missão de vida é cobrar da Vale tudo o que foi levado. Ela conta que, em setembro do ano passado, funcionários da empresa estiveram em sua casa e orientaram a família sobre procedimentos emergenciais a serem adotados em um eventual rompimento da barragem. Nada funcionou. O silêncio ensurdecedor da sirene não tocada é o que mais angustia Maria Aparecida: segundo ela, a tristeza de perder tudo não seria evitada, mas vidas de amigos, vizinhos e conhecidos poderiam ter sido salvas pelo sinal de alerta.
Duas semanas após o rompimento da barragem, a espera, a falta de rotina, de informações e de um cantinho para chamar de lar são as maiores dores de Maria Aparecida e sua família. Ela diz ter ido a um dos centros de apoio oferecidos pela Vale, feito todos os cadastros necessários, mas não tem nenhuma perspectiva quanto a ressarcimentos e de quando poderá sair da pousada em que está hospedada.
Um teto, roupas doadas e alimentação estão sendo garantidos, mas, para além disso, tudo é apenas uma indagação. Ela não sabe como fará para se manter, pois perdeu também o emprego, para comprar novamente materiais escolares e uniforme da filha e nem como levará a vida daqui em diante.
“Estou sem emprego, sem casa, sem nada. O meu objetivo agora é lutar por Justiça para que eles devolvam tudo o que me foi tirado. Vou cobrar, vou lá todos os dias, mas preciso retomar a vida, e sem uma casa e algum tipo de auxílio financeiro é impossível”, diz. “Já comecei a emitir novamente todos os meus documentos, matriculei a minha filha em uma nova escola, mas isso é só o que eu posso fazer sozinha”, lamenta.
A Vale anunciou que fará doações de R$ 50 mil para as famílias que perderam as suas casas e R$ 15 mil para os que ficaram desempregados ou perderam as suas fontes de renda. Maria Aparecida e o marido se enquadram nas duas categorias, mas até agora ainda aguardam a efetivação dessa doação e uma moradia provisória.













