Daniela Mercury rebate Bolsonaro: “Fake news” sobre Lei Rouanet

Em carta, cantora explica ganhos por meio da lei de incentivo nos últimos 20 anos e se diz disposta a vir a Brasília falar com presidente

atualizado 05/03/2019 20:05

ENALDO PINTO/FUTURA PRESS/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO

Após o presidente da República, Jair Bolsonaro (PSL), alfinetar Daniela Mercury e Caetano Veloso nas redes, a cantora resolveu rebater o governante. Em uma carta direcionada a Bolsonaro, Daniela diz que informação falsa sobre a lei de incentivo à cultura não pode continuar a ser espalhada para “desmerecer o trabalho sofrido e suado dos artistas brasileiros”. A carta foi publicada na íntegra pela Revista Fórum.

Durante a manhã, Bolsonaro reclamou da música “Proibido o Carnaval”, de Daniela e Caetano. “Esse tipo de ‘artista’ não mais se locupletará da Lei Rouanet”, escreveu o presidente em sua conta no Twitter.

Em resposta, Daniela diz que usou pouca verba pública para seus shows nos últimos 20 anos, e que tudo foi feito dentro das regras da lei de incentivo à cultura. “Para que o senhor entenda, cada desfile de trio sem cordas (sem cobrança de ingresso, de graça para os foliões), custa cerca de R$ 400 mil”, escreve. Com recebeu R$ 1 milhão, nas duas últimas décadas, pelas contas de Daniela daria cerca de R$ 50 mil de recursos da Rouanet por ano.

“Se tive cerca de R$ 1 milhão de verba pública nesses 20 anos, isso significa que o restante (R$ 9 milhões) paguei ou do MEU BOLSO diretamente ou com o patrocínio de empresas privadas”, completa ela.

Ao encerrar a nota, a cantora afirma que está aberta a conversar com o presidente sobre o tema. “Se assim desejar, irei com minha esposa, que é também minha empresária, até Brasília para conversar com o senhor sobre o assunto”, finaliza, antes de desejar “Feliz Carnaval” ao presidente da República.

Veja imagens de Daniela Mercury e da folia em Salvador:

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Leia a íntegra da carta de Daniela Mercury:

“Sr. presidente, sinto muito que não tenha compreendido a canção Proibido o Carnaval, que defende a liberdade de expressão e é claramente contra a censura. Mas acho que isso nem vem ao caso aqui porque percebo que há uma distorção muito grave sobre a Lei Rouanet. Parece que ela ainda não foi compreendida. Por isso, me coloco à disposição para explicar como funciona o passo a passo dessa lei. E aproveito para tranquilizá-lo. Usei muito pouco de verba pública de impostos da Lei Rouanet em cada projeto que tive aprovado.

Para que o senhor entenda, cada desfile de trio sem cordas (sem cobrança de ingresso, de graça para os foliões), custa cerca de 400 mil reais. Em 20 anos, eu tive apoio (TUDO DENTRO DA LEI) cerca de 1 milhão de reais de verba de impostos da Lei Rouanet. 1 milhão em 20 anos, ressalto!!! Dá cerca de 50 mil reais por ano, se assim dividirmos.

Considere, sr. presidente, que eu comecei o movimento de trios sem cordas, de graça para o público, há 21 anos. Eles custaram, por baixo, cerca de 10 milhões de reais! Se tive cerca de 1 milhão de verba pública nesses 20 anos, isso significa que o restante (9 milhões) paguei ou do MEU BOLSO diretamente ou com o patrocínio de empresas privadas.

Em 35 anos de carreira, fiz muitas apresentações de graça no Brasil, bancadas do meu bolso. Essa fake news sobre a Lei Rouanet criada na eleição não pode continuar sendo usada para desmerecer o trabalho sofrido e suado dos artistas brasileiros. A arte, além de tudo, tem um valor imensurável e o retorno do nosso trabalho para a sociedade, para o turismo, pra a economia é gigante.

Para que compreenda melhor, apenas com 1 ano do sucesso O Canto da Cidade (uma música “famosa” minha), Salvador ganhou 500 mil turistas a mais. Mais um exemplo: eu tenho cerca de 50 milhões de reais de retorno de mídia espontânea em cada Carnaval de Salvador.

Esse retorno, a partir de minhas apresentações (6 horas por dia cantando e dançando sem parar nem para comer – somadas a mais 5 horas prévias de preparação – e mais 2 horas pós apresentação para recuperação da voz e do corpo – durante 6 dias seguidos) traz uma valorização gigantesca para a imagem da cidade, do estado e do país. Tudo isso estimula o turismo e turbina a economia.

Tenho visto que estimular o turismo é um objetivo do senhor. Não se engane: trabalhamos muito. Quando se ataca a arte de um país, quando se ataca os ‘artistas’ brasileiros, se ataca a alma do povo desse país. Mereço respeito pelo que sou, pelo que represento e pelo que faço constantemente pela sociedade brasileira em diversas causas, não apenas na arte.

Reitero aqui a minha disposição de conversar com o senhor e com sua equipe sobre a Lei Rouanet. Se assim desejar, irei com minha esposa, que é também minha empresária, até Brasília para conversar com o senhor sobre o assunto.

Abraços e feliz carnaval.

Daniela Mercury Verçosa”

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