Da parapsicologia ao negacionismo: quem é Bia Kicis, deputada cotada para presidir a CCJ da Câmara

Deputada bolsonarista que fez fama no impeachment tenta vencer as resistências e acusações de extremismo para assumir comando da CCJ

atualizado 06/02/2021 14:31

Bia Kicis/Arquivo

O anúncio de que a deputada federal Bia Kicis (PSL-DF) deverá presidir a comissão considerada a mais importante na Câmara, a de Constituição e Justiça (CCJ), criou uma onda de protestos, que começou entre críticos do presidente Jair Bolsonaro, mas atingiu até parte dos aliados, que veem na parlamentar uma caixa de ressonância do bolsonarismo mais radical. Mas como essa ex-procuradora que já teve papel importante em governo petista e se especializou em reiki, uma terapia que busca a energia vital do universo para equilibrar os chacras, se tornou símbolo de extremismo político no Brasil?

A resposta passa principalmente pelas ideias do guru de extrema direita Olavo de Carvalho, que conquistou a ex-servidora, segundo ela própria, por volta de 2014, quando começava o movimento popular que ajudaria a tirar Dilma Rousseff (PT) da presidência da República – e daria fama e votos à advogada de 59 anos.

Até essa época, Beatriz Kicis Torrents de Sordi se dedicou a atividades menos midiáticas, como a família, o trabalho na Procuradoria-Geral do DF, onde ingressou em 1992, e o reiki, uma técnica japonesa de cura por poderes místicos que não tem eficácia comprovada cientificamente, mas conta com seguidores no mundo inteiro e integra o leque de terapias alternativas oferecidas pelo SUS.

Kicis é mestre na técnica tibetana redescoberta no Japão que se propõe realizar curas naturais por meio da imposição das mãos. A hoje deputada fundou a Escola Brasileira de Reiki em 1998 e é autora de um livro que faz sucesso entre os praticantes de reiki no Brasil e pode ser encomendado em sites especializados.

O livro foi editado em 2008

No mesmo ano, Bia Kicis se formou especialista em um Núcleo de Parapsicologia que a UnB manteve em meio a polêmicas até outra ex-aluna, uma vidente, se envolver de maneira negativa na apuração de um ruidoso crime em Brasília, o homicídio do casal Vilella e da empregada em um apartamento na 113 Sul, em 2009. O Metrópoles destrinchou essa história no podcast O crime da 113 Sul, publicado ano passado.

Fundado pelo físico Álvaro Tronconi em 1989, o Núcleo de Estudos de Fenômenos Paranormais da UnB promoveu pesquisas em astrologia, ufologia, conscienciologia (potenciais do cérebro) e abordagens alternativas da medicina (como o reiki). Médiuns, videntes e outros ditos paranormais foram investigados pelo núcleo em busca de validação científica de seus feitos – sem sucesso registrado no período em que o local funcionou.

Trajetória surpreendente

Várias pessoas que conviveram com Bia Kicis antes de 2014 disseram que os sinais de extremismo e negacionismo não pareciam estar lá. É o caso do ex-senador Cristovam Buarque, que foi governador do DF entre 1995 e 1999, quando era do PT, e teve Kicis como subprocuradora geral.

A Procuradoria, apesar do nome, não é composta dos membros do Ministério Público, mas de advogados que defendem causas de interesse do Distrito Federal. “Foi uma profissional de enorme competência e agilidade. Respondia tudo na hora, era conhecedora das leis, convicta”, lembra Cristovam, que diz não recordar, porém, de alinhamento político. “Nem desalinhamento, não discutíamos política. Mas não via nela nenhuma oposição às ideias do governo, que era do PT à época”, completa o ex-senador, que conta ter se incomodado com a Bia Kicis que encontrou depois, por volta de 2016.

“Eu estava em uma sorveteria na Asa Norte, com meus netos, e ela começou a filmar escondida, de longe, e transmitir pela internet, uma completa invasão de privacidade”, lembra. “E eu havia inclusive votado pelo impeachment de Dilma, que era a pauta dela. Eu nem soube então por que ela estava fazendo aquilo. Foi surpreendente”, conta Cristovam, que aproveita a conversa para lamentar a radicalização da política brasileira e a ascensão de figuras como o guru de Bia, Olavo de Carvalho.

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Chefe de Bia Kicis nessa época da Procuradoria-Geral do DF e amigo da hoje parlamentar, o jurista Marcello Alencar de Araújo, ex-procurador-geral, conta que nunca viu nela sinais de extremismo político no tempo em que conviveram.

“Grande amiga, nos dávamos muito bem e trabalhávamos bem juntos. Tanto que, anos após minha saída do cargo, quando Agnelo foi eleito [governador do DF pelo PT em 2010], eu participei da transição e cheguei a indicar o nome da Bia para procuradora-geral no governo dele. Mas Agnelo tinha outros indicados também, e não a escolheu”, recorda Araújo, que hoje atua como advogado em um escritório da capital. O escolhido na época foi o procurador Rogério Marinho Leite Chaves.

Apesar de ninguém apontar Kicis como defensora aberta do PT mesmo nessa época, outro contemporâneo dela na PGDF contou que a então procuradora chegava a ter discussões acaloradas com colegas ligados ao grupo político de Joaquim Roriz, adversário dos petistas.

Atualmente deputada distrital, a ex-vice-governadora Arlete Sampaio é outra que se surpreende pela mudança no perfil da ex-vice-procuradora-geral em sua gestão. “Eu não consigo entender o que aconteceu. E perguntei isso a ela da última vez que nos vimos: ‘O que aconteceu com você?'”, contou Arlete ao Metrópoles, preferindo manter para si a resposta que escutou da antiga companheira de GDF.

A influência de Olavo

O guru do bolsonarismo vira e mexe critica os políticos de direita por focarem no poder eletivo e buscarem cargos em vez de investirem na formação de seguidores. Em texto publicado no jornal Diário do Comércio em 2010, com o título “A falta que a militância faz“, Olavo escreveu que “poder é fazer-se obedecer”, é ter influência sobre “uma massa militante disciplinada, organizada e adestrada para seguir, com o mínimo de atrito, uma linha de comando”.

Para o guru, os políticos de direita “não aprendem a lição do PT, que em suas primeiras décadas soube adiar e sacrificar a política eleitoral ao interesse maior de criar e manter unida a militância”.

E criar essa militância, ainda segundo o texto de 2010 de Olavo, “começa com círculos muito pequenos de intelectuais que, por anos, nada fazem senão discutir e discutir” até estarem prontos para o “adestramento da militância propriamente dita”.

Bia Kicis parece levar a sério o aviso do guru, pois se notabilizou, desde 2015 pelo menos, por criar grupos de debate e divulgação, que acabaram partindo para a ação direta com ações na Justiça e manifestações nas ruas.

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Ódio raiz nas redes

Em 2015, faltando um ano para se aposentar da PGDF, Kicis participou da fundação do Instituto Resgata Brasil. Ao lado de colegas do setor jurídico com inclinações conservadoras, ela começou a fazer barulho com ações judiciais. Uma delas conseguiu bloquear a doação para a Bolívia, pelo governo Dilma, de uma termoelétrica em Rondônia que havia sido reformada ao custo de R$ 60 milhões.

A repercussão do caso ajudou Bia Kicis a furar a bolha regional e se tornar uma liderança dos protestos anti-Dilma fora do eixo Rio-São Paulo, onde as manifestações contra o governo já reuniam milhares de pessoas e projetavam lideranças conservadoras. Uma dessas lideranças era Marcello Reis, fundador do grupo Revoltados On-line e ex-marido da hoje deputada federal Carla Zambelli (PSL-SP), que coordenava um movimento parecido, o Nas Ruas.

Bia então entrou para o Revoltados On-line, do qual virou coordenadora, e ajudou a colocar Brasília entre as cidades com grandes protestos pelo impeachment de Dilma.

Veja um registro de vídeo postado originalmente pela página do Revoltados On-line, em março de 2015, replicado pelo jornal progressista GGN em forma de protesto contra a ação política da então corregedora da PGDF:

CPI dos crimes cibernéticos

O protagonismo no Revoltados On-line levou Bia Kicis a ser alvo de acusações de extremismo pela primeira vez. Em outubro de 2015, três anos antes de ser eleita deputada, a então militante conseguiu seu primeiro grande palco na Câmara dos Deputados. Ela e Marcello Reis, entre outros influenciadores digitais numa lista que incluía até Jeferson Monteiro, do perfil governista Dilma Bolada, foram convocados pelo então deputado federal Jean Wyllys (PSol-RJ) para depor na CPI dos Crimes Cibernéticos, espécie de precursora da CPI das Fake News da atual legislatura.

Wyllys tentou ouvir os dois em uma sessão fechada para evitar que usassem o colegiado como palco, mas foi voto vencido, graças a manobras de uma bancada conservadora que tinha Jair Bolsonaro entre seus integrantes. Esse grupo transformou a convocação em convite para uma sessão aberta, que virou um grande espetáculo, com muito barulho e nenhum resultado. À época, o atual presidente defendeu a pena de morte contra o “crime de ideologia de gênero, que é o maior crime que se pratica hoje em dia”.

Antes da confusão interromper a sessão, Kicis usou o microfone para se defender das acusações de que estaria promovendo crimes em sua militância virtual e para fazer propaganda de sua causa. “Eu nunca me interessei seriamente pela política. Eu sou uma cidadã comum. Sempre dediquei a minha vida à família, aos amigos”, começou ela, um pouco vacilante mas com um discurso ensaiado.

“Mas, no ano de 2014, eu fiquei conhecendo algumas coisas que me deixaram surpresa, inquieta e assustada como brasileira”, continuou, antes de introduzir a teoria conspiratória olavista.

“Eu fiquei sabendo de algo chamado Foro de São Paulo, que nunca foi mencionado pela grande mídia, embora o professor Olavo de Carvalho venha falando disso há mais de 15 anos”, discursou ela, embora as reuniões do grupo fossem abertas e fartamente documentadas. “Vocês aqui presentes já devem ter ouvido falar dessa organização criminosa, que tem por objetivo instaurar a Pátria Grande, que quer acabar com soberania dos países, do nosso país, do nosso Brasil. Quer acabar com a soberania e instaurar aqui um regime totalitário”, continuou Kicis.

A ainda procuradora disse que não poderia se calar depois de saber de tudo isso, e lançou uma frase que parece guiá-la ainda hoje: “Vou continuar lutando contra o Foro de São Paulo todos os dias, de manhã, de tarde, de noite e de madrugada. Vou lutar contra a corrupção, mas principalmente contra a corrupção como meio para instalar, no Brasil que amamos, um regime totalitário”.

A sessão está disponível na internet. Veja:

Em sua fala em 2015, Bia, que estava acompanhada por uma advogada, também se defendeu das acusações de praticar ofensas criminosas na internet. “É claro que eu faço denúncias. Meus posts fazem denúncias e fazem críticas, mas isso é amparado no direito de expressão”, afirmou.

“Eu creio que, se houver algum tipo de ofensa, algum abuso que eu cometa em algum vídeo, em algum post, coisa em que eu não acredito, porque eu não sou uma pessoa preconceituosa, racista ou que tenha ódio no coração, nada disso, se isso acontecer, eu responderei no foro adequado, que é o Poder Judiciário, caso alguém sinta necessidade de alguma reparação”, completou.

Uma denúncia foi feita ao STF, mas apenas em outubro do ano passado, após uma postagem que mostrava os ex-ministros Sergio Moro e Luiz Henrique Mandetta com os rostos enegrecidos, numa alusão ao programa de trainee do Magazine Luiza para negros. Mandetta protestou energicamente contra a postagem, que chamou de “racista nauseabunda. Chula. Pequena. Inútil e abjeta”.

Presente naquela sessão de 2015 e um dos autores do requerimento de convocação de Kicis e Reis, o deputado federal Paulo Pimenta (PT-RS) vê movimentos como o Revoltados On-line, que se popularizaram na campanha do impeachment, como precursores do discurso de ódio hoje tão disseminado. “Foi uma estratégia. Eles criaram um monte de sites e movimentos totalmente artificiais naquela época, com o objetivo de destruir reputações e construir discurso de extrema-direita”, afirma.

“Eu espero que a CPI das Fake News e o inquérito dos atos antidemocráticos no STF possam ajudar o país a parar esse movimento de ódio nas redes que a Bia Kicis ajudou a difundir”, completa ele em conversa com o Metrópoles.

Conexões com a extrema-direita

Bem antes de 2014, Bia já tinha contato próximo com uma das principais bandeiras do novo conservadorismo brasileiro, que agora se mistura com o bolsonarismo: o projeto Escola sem Partido. Quem criou o movimento foi o advogado Miguel Nagib, que contou várias vezes como ficou indignado quando, em 2003, sua filha afirmou ter ouvido de um professor na escola a comparação entre o revolucionário Ernesto Che Guevara e São Francisco de Assis.

A menina é sobrinha de Bia Kicis. Nagib é casado com a irmã da parlamentar, Ruth Kicis, que é procuradora de Justiça no DF (ela sim no MP). Juntando outros pais indignados com a doutrinação nas escolas, Nagib criou em 2004 o Escola sem Partido, sugerindo uma série de regras para impedir que professores pudessem fazer o que ele chamava de proselitismo político.

As ideias do Escola sem Partido foram rechaçadas pela maioria dos especialistas em educação, que apontaram censura e interferência indevida na liberdade de cátedra do professor.

Após 10 anos de militância on-line, Nagib conseguiu levar o projeto a outro nível quando foi convidado pelo então deputado estadual no Rio Eduardo Bolsonaro para redigir um Projeto de Lei com as diretrizes do Escola sem Partido.

Propostas parecidas foram apresentadas por parlamentares conservadores em várias assembleias pelo país e na Câmara Federal – uma delas pela própria Bia. Em agosto de 2020, o STF considerou inconstitucional uma versão do projeto aprovada em Alagoas, que previa punições a professores que praticassem “doutrinação ideológica” em sala de aula e exigia comportamento “neutro” dos docentes durante o ensino.

O relator da ação, ministro Luís Roberto Barroso, argumentou que “a ideia de neutralidade política e ideológica da lei estadual é antagônica à de proteção ao pluralismo de ideias e de concepções pedagógicas e à promoção da tolerância”.

No mesmo mês, Nagib anunciou nas redes o fim do movimento. Em entrevista ao jornal O Globo, Nagib se queixou da falta de apoios. “Não temos recursos. Não esperávamos um suporte do governo, mas um apoio político do presidente Bolsonaro.”

Ainda na ativa no Ministério Público, Ruth Kicis espelha o comportamento da irmã nas redes. Retuíta ataques ao governador paulista João Doria (PSDB) e interage com influenciadores bolsonaristas, como Leandro Rushel, além de divulgar muito o guru Olavo de Carvalho.

A irmã de Bia é outra que tem um comportamento atualmente que intriga quem a conheceu alguns anos atrás, como a deputada federal Erika Kokay (PT-DF). Ela conta que presidiu a Comissão de Direitos Humanos quando foi deputada distrital, até 2010, e lidou várias vezes com Ruth como representante do MP. “Ela foi procuradora dos Direitos do Cidadão, e a gente levava muitas demandas da CDH. Ela sempre acolheu com muita tranquilidade essas demandas, deu prosseguimento. Era uma relação produtiva”, lembra a petista.

Ruth Kicis também está entre as fundadoras de um grupo conservador no Ministério Público, o MP Pró-Sociedade, que começou em 2018 e, entre outras atividades, entrou com pedido de habeas corpus em favor dos bolsonaristas que foram alvos de operação da Polícia Federal no inquérito das fake news no STF.

Em seu manifesto de lançamento, o MP Pró-Sociedade atacou o “globalismo” e a “bandidolatria”, que seria a defesa de bandidos em detrimento de suas vítimas.

As polêmicas mais recentes

Apoiada por Bolsonaro, Bia foi a deputada ligada ao bolsonarismo mais votada no DF em 2018 e a terceira mais votada no geral, atrás de Flávia Arruda (PR) e Érika Kokay. Kicis conseguiu 86.415 votos e se elegeu pelo PRP, que acabou levando-a ao PSL. Como deputada federal, ela tem conseguido polemizar até mais do que como líder dos Revoltados On-line. Bia Kicis é uma das investigadas no inquérito do Supremo que apura a organização e financiamento de atos antidemocráticos no início do ano passado, que pediam o fechamento da própria Corte e do Congresso Nacional.

É autora ou coautora de projetos de lei de teor conservador, como a equiparação do tratamento jurídico de nazismo e comunismo, vedando sua propaganda, e tem adotado uma postura de negação da ciência e de conspiracionismo durante a pandemia de coronavírus. Propôs uma lei que proibisse a exigência do uso de máscaras, pressionou contra medidas de isolamento em Manaus às vésperas do colapso do sistema de saúde local e propôs que a Câmara registrasse repúdio “à omissão do governo chinês acerca do potencial de gravidade do novo coronavírus, causador da pandemia”.

Em julho do ano passado, quando Bolsonaro consolidava sua aliança com o Centrão, Kicis foi radical demais até para o gosto do presidente, e acabou destituída do posto de líder do governo após votar contra a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (Fundeb), que financia salários de professores, reformas nas escolas e desenvolvimento da educação básica.

Chateada, ela chegou a reclamar publicamente, mas não se rebelou contra Bolsonaro. “O governo perde muito, porque vai ser difícil ter uma vice-líder que lute tanto pelo governo como eu luto. É isso. Fiquei triste mais com a forma como aconteceu do que pela minha saída, em si. O governo perde muito mais do que eu”, queixou-se a deputada na época.

Por causa da postura de conflito que marcou sua atuação parlamentar até agora, Bia sofre a atual resistência para assumir efetivamente a presidência da Comissão de Constituição e Justiça da Câmara, colegiado pelo qual passam todas as matérias antes de votação, inclusive pedidos de impeachment do presidente da República.

“A Bia Kicis não pode ser presidente da CCJ porque não tem preparo, é extremamente ideológica, tendenciosa. Se mostrou uma pessoa que faz qualquer coisa para se sobressair”, ataca um ex-aliado dela, o deputado federal Alexandre Frota (PSDB-SP). “A ida dela para a CCJ é um desejo do Bolsonaro que eu espero que a Câmara barre. Ela não é benquista na Câmara, a não ser pelo grupinho dela, que é uma gangue na verdade”, completou Frota, que se elegeu pelo PSL, mas rompeu com o governismo no rastro do caso da acusação do senador Flavio Bolsonaro de ter operado, com seu ex-assessor Fabrício Queiroz, um esquema de rachadinha de salários na Assembleia Legislativa do Rio.

“Não podemos ter na presidência da comissão mais importante da Câmara uma das maiores propagadoras de fake news do país”, atacou Alexandre Frota.

Um levantamento feito pela agência de checagem Aos Fatos em dezembro apontou Bia Kicis em quarto lugar num ranking de parlamentares que mais publicaram desinformação sobre o coronavírus ao longo de 2020. Os deputados federais Osmar Terra (MDB-RS), Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) e Carla Zambelli (PSL-SP) lideram essa lista, e Kicis é seguida pelo senador Flavio Bolsonaro. Juntos, os cinco concentram 71,8% de todas as interações conseguidas com conteúdo falso, impreciso ou insustentável no levantamento.

Entre as vozes que apoiam Bia para o comando da CCJ está a de Eduardo Bolsonaro (PSL-SP). Com o peso de ser filho do presidente, o parlamentar escreveu em suas redes sociais: “Patriota, ficha limpa, eleita deputada federal, educada e por aí vai”. Veja:

 

Caminho das pedras até a CCJ

O Metrópoles insistiu durante a semana para entrevistar a deputada federal Bia Kicis sobre esta reportagem, mas ela não atendeu aos pedidos alegando, via assessoria de imprensa, falta de agenda.

Em conversa com a reportagem do portal apenas sobre a polêmica da indicação para a CCJ, ela falou sobre a resistência que vem inclusive aliados do presidente Bolsonaro, de formadores de opinião, partidos de oposição e até de ministros do STF, que teriam visto no nome de Bia uma “declaração de guerra” do Congresso.

A deputada afirmou que, se confirmada na CCJ, não pretende impor uma pauta própria, mas uma acordada com o conjunto de líderes. A parlamentar, no entanto, esclarece que a pauta de costumes terá caminho aberto na CCJ.

“Temos algumas pautas que são prioritárias, como a reforma administrativa, temos qualquer questão relativa à pandemia como prioridade absoluta e, obviamente, que traremos para a Mesa uma série de pautas de costumes. Simplesmente o que não acontecerá mais é alguém sentar em cima das pautas de costumes. Isso não vai acontecer, certamente. Todo mundo terá a oportunidade de ter os seus projetos apreciados”, prometeu a parlamentar, que tem se esforçado desde a indicação para reverter a imagem de radical.

Em 2019, Bia Kicis foi vice-presidente da CCJ e assumiu a condução das reuniões em vários momentos conturbados, como durante as discussões da reforma da Previdência. Ela fala dessa época como um momento em que exerceu uma postura menos “combativa” e mais “equilibrada”.

Esse é o argumento usado nesta semana em conversas que têm tentado desenvolver com líderes de todos os partidos na missão de enfraquecer a resistência ao seu nome.

“Todos aqueles com quem já conversei foram receptivos. Gostaram da conversa, porque eu tenho deixado bem claro que a deputada Bia Kicis é combativa, mas a deputada Bia Kicis, presidente da CCJ, será uma pessoa pautada pelo equilíbrio, senso de justiça, pela democracia, uma pessoa de conversa, de mediação”, garantiu a parlamentar.

Os deputados devem se reunir na próxima semana para decidir sobre a presidência da CCJ. Candidaturas alternativas ameaçam a vaga de Bia Kicis à frente do colegiado.

Desde que os ataques se intensificaram, Bia tem feito intensa campanha para si própria nas redes sociais, interagindo com os perfis conservadores que apoiam seu nome. Veja um exemplo:

Biografia

Bia Kicis nasceu em 19 de setembro de 1961, em Resende, Rio de Janeiro. O pai é o engenheiro militar Rubeni Torrents Pereira, que a trouxe para Brasília em um dos movimentos da carreira. Na cidade, segundo ela mesma contou em entrevista a Leda Nagle, em outubro de 2019, foi sócia de um bar punk e trabalhou no Disque-Amizade, antecessor telefônico dos chats de internet.

Ela formou-se em direito na UnB em 1984 e ingressou na PGDF via concurso em 1992, ficando até 2016, quando se aposentou. É mãe de dois filhos.

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