Cursos de sobrevivencialismo ensinam a enfrentar tragédias climáticas

Instrutores relatam como auxiliaram durante as enchentes no Rio Grande do Sul e destacam os benefícios dos cursos

atualizado

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Homem tatuado arrumando a mochila
1 de 1 Homem tatuado arrumando a mochila - Foto: Getty Images

Com o aumento das preocupações com as mudanças climáticas, a demanda por cursos de sobrevivência tem crescido entre um público diferente. Os instrutores ensinam, literalmente, a sobreviver na adversidade – é o chamado sobrevivencialismo.

O Brasil tem enfrentado intensas nuvens de fumaça provenientes de incêndios nas últimas semanas. Moradores de  cidades brasileiras que mais registraram incêndios têm convivido com cheiro ruim, dificuldades respiratórias e, muitas vezes, não conseguem praticar sequer atividades ao ar livre.

Além das queimadas, as enchentes que devastaram o Rio Grande do Sul entre abril e maio deixaram um rastro de destruição e muitas pessoas em condições precárias, sem acesso a luz, água e moradia.

Algumas dessas pessoas já têm se informado sobre como sobreviver às intempéries. O Coronel Marcelo Montibeller Borges, presidente mundial da Confederação Sul-Americana de Sobrevivência e Preparação e proprietário da escola de sobrevivência Via Radical Brasil, observa uma diversificação no perfil dos alunos, que agora inclui famílias inteiras, mulheres e até crianças.

“Provavelmente, com o aumento da população mundial e a escassez dos recursos naturais e alimentícios, a procura pode ter aumentado. Acredito que, com o advento da interferência climática na Terra e suas consequências, as pessoas passaram a se preocupar mais com a sua família e a própria vida”, contou.

Ele destaca também que “as pessoas passaram a se preocupar mais com a vida na mata do que na realidade” e que procuram “se desconectar da rotina urbana”. Montebeller é também instrutor e entrevistador dos participantes do programa Largados e Pelados, disponível no streaming Max.

“Se estamos procurando nos reconectar com a natureza, também precisamos estar preparados para as consequências desse ato. Podemos nos perder, podemos nos lesionar e podemos passar por incidentes e acidentes na mata. É uma linha muito tênue lazer e sobrevivência, basta um descuido para que aquele esporte ou camping se torne um verdadeiro caos”, relata.

Além disso, pessoas que se preocupam em estocar recursos e se preparar para cenários extremos têm procurado cada vez mais esses cursos, embora o nível de preparação desses indivíduos varie.

Existe uma diferença entre pessoas que estocam recursos, que são chamadas de “preparadores”, e os “sobreviventes”, que se colocam em situações de sobrevivência, de acordo com o coronel.

Itamar Charlie, diretor da Escola de Sobrevivência Força Sempre, localizada em Bagé, Rio Grande do Sul, afirma que a demanda por cursos de sobrevivência também tem aumentado devido às mudanças climáticas.

“Está acontecendo uma procura maior por pessoas que passaram e viram situações adversas devido às enchentes, no caso aqui do Sul, e às queimadas, no Centro-Oeste e no Sudeste”, diz. “Então, várias pessoas estão procurando mais conhecimento na área de sobrevivência. Antes, essas pessoas já existiam e procuravam o curso de sobrevivência, mas sempre pensando no que poderia acontecer em situação sinistras, situação em que perdessem o controle, para estarem preparados. Hoje, essas pessoas veem que existe essa situação e vem procurar pelos cursos de sobrevivência”, relata o diretor.

Itamar destaca ainda que o fluxo de pessoas que procuram os cursos de sobrevivência está se elevando “gradativamente”. “Nós preparamos brasileiros para sobreviver em todos os biomas do território brasileiro.”

“Hoje, é importante um curso de sobrevivência, porque nós não sabemos o que vem no dia de amanhã. Costumo dizer que, hoje, a gente vive e, amanhã, a gente sobrevive”, declara Itamar.

Ele relatou que, durante as enchentes no RS, foi formado um grupo de voluntários com alunos dos cursos para atuar nas cidades mais afetadas, como Roca Sales, Santa Maria, Santiago e Porto Alegre.

As aulas abrangem diversas táticas, colocando os alunos em situações adversas para que possam aprender a sobreviver em situações fora do cotidiano.

Fogo sem fogão, luz sem energia

O monitor do curso Via Radical Brasil Istvan Pal Orszagh contou que muitas pessoas procuram os cursos de sobrevivência como uma forma de reestruturação da vida.

“Percebemos que, com as enchentes do Rio Grande do Sul, tivemos que passar por uma catástrofe para chamar atenção. Esse é um outro ponto: a gente não se prepara adequadamente para situações que sabemos que podem acontecer, só que só deixamos [para lá]”, conta.

“Todo mundo estava achando que as queimadas não podiam influenciar a nossa vida”, reflete Orszagh sobre os incêndios que proliferam pelo país.

De acordo com ele, muitas pessoas procuram as aulas para “divertimento” ou para quebrar a rotina de trabalho. No entanto, houve um aumento nos problemas relacionados às incidências entre os alunos.

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Instrutor Via Radical Brasil
Instrutor Itamar Charlie ao lado de voluntários no Rio Grande do Sul
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Instrutor Itamar Charlie ao lado de voluntários no Rio Grande do Sul

Imagem cedida ao Metrópoles
Instrutor Via Radical Brasil
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Instrutor Via Radical Brasil

“Na época das enchentes, nós demos aulas on-line para um condomínio de alta classe, de como fazer fogo sem fogão e como ter luminosidade sem energia elétrica. As pessoas estavam em seu limite, tanto psicológico quanto físico. Elas se submeteram a situações que não estavam acostumadas”, relata.

Por meio dos cursos, assistidos por instrutores e administradores, são ensinadas diversas técnicas de sobrevivência para pessoas que buscam aprender como andar na mata descalço ou percorrer sem deixar rastros, incluindo técnicas para fogueiras e manejo de lixo, segundo Orszagh.

Outros instrutores informaram que a procura pelos cursos está mais relacionada a pessoas que gostam da vida selvagem e não tem relação com as tragédias socioambientais.

Militares e brigadistas

Diversos profissionais também procuram cursos de sobrevivencialismo para melhorar o desempenho em suas profissões, como militares, brigadistas, policiais e agentes florestais.

O condutor socorrista do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) no RS, Maykel Dias, monitor do curso, relatou que as escolas estão “cada vez mais capacitadas e atuantes em cenários de desastres naturais, como Brumadinho, em Minas Gerais, Canoas e Eldorado, no Rio Grande do Sul”.

“No primeiro momento os grupos eram formados por veteranos experientes que buscavam aprimorar suas técnicas de manobras e estacionamento em diferentes biomas. Com a evolução tecnológica e a multiplicação dos meios de logística, profissionais da área da saúde e esportes radicais encontraram no sobrevivencialismo um grupo sólido, com técnicas validadas, que complementaram com segurança um amplo meio para novas atuações em diferente cenários deste profissionais”, informou o socorrista.

Maykel é instrutor do curso Via Radical Brasil, na região Sul, e é responsável pelos meios de resgate real nos cursos. “É evidente que cada vez mais eventos e fenômenos naturais tornem-se mais frequentes no nossa rotina. Estar preparado é fator fundamental de sobrevivência e preservação de vidas alheias.”

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