Aplicativo desenvolvido na UnB cria uma academia com elásticos em casa
Uma máquina que mede o esforço em exercícios com elástico tem revolucionado treinos de esportistas profissionais e terapias de reabilitação
atualizado
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Há uma sala no campus da Universidade de Brasília onde pesquisa, inovação tecnológica, saúde e vida fitness se encontram. Em tempos nos quais cada pepino da vida tem uma solução disponível para download na loja de aplicativos do celular — do jantar entregue na porta de casa à carona ao aeroporto —, dois empreendedores da capital criaram um que carrega uma academia ao toque dos dedos. E talvez um ou dois acessórios naquele bolso lateral da mochila.
A ideia surgiu há alguns anos, no projeto de mestrado da professora de educação física Fernanda Teles. O desafio era atribuir ao exercício físico com elásticos — aqueles adorados por blogueiras fitness em férias, justamente por serem portáteis — um número que o tornasse tão eficiente quanto o feito com anilhas em uma academia tradicional.
“Sempre existiu um certo preconceito com esse equipamento entre os treinadores porque não tem como medir o esforço com ele. Você sabe que, quanto mais duro o elástico, maior o esforço aplicado. Mas não sabe exatamente qual intensidade está aplicando ali”, explica a especialista.
O ponto de partida do mestrado, então, foi resolver o problema da falta de medida da engenhoca. Em 2015, quando apresentou o projeto, Fernanda tinha em mãos uma tecnologia que não apenas atribuía o peso em quilos do esforço, como gravava a evolução do aluno. “Quantificando a intensidade, o equipamento é tão eficiente como a academia de musculação. Com a diferença de ser portátil. Percebi que existia aí uma demanda de mercado”, conta.
Negócio da China (só que de Brasília)
Nos últimos dois anos, o projeto incorporou requintes e adaptações para ganhar o mercado. Deixar as paredes da academia — a universitária, no caso — e chegar ao consumidor final sempre foi a intenção de Fernanda. O projeto, então, agregou um sócio, o engenheiro eletricista João Macedo, e um nome: E-lastic.
Ganhou estrutura de empresa, na forma de uma startup incubada pela própria universidade: a E-Sporte hoje ocupa uma sala no prédio do Centro de Desenvolvimento Tecnológico da UnB, junto a outras oito iniciativas tecnológicas nascidas dentro do campus.
Desde que chegou ao mercado, em maio deste ano, a empresa já vendeu cerca de 100 kits do aparelho. Além dos elásticos, comprados de uma fábrica do Rio, a caixa inclui o aparelho onde eles são acoplados e que transmite por Bluetooth os dados para um aplicativo de celular — e acessórios que permitem pendurá-los em portas, postes, troncos de árvore ou qualquer suporte estável ao alcance do atleta ou professor.
Por R$ 1.479, qualquer pessoa pode ter, no argumento da empresária, uma academia portátil. “Parece caro, mas é a academia da família. Imagine pagar mensalidades para quatro pessoas”, justifica. Segundo ela, grupos de mães atarefadas e vizinhas também já se juntaram em vaquinhas para dar início à vida fitness. Como o aplicativo não impõe limite de perfis, o professor ou usuário pode armazenar “fichas” de treinos personalizadas para cada pessoa. Para os iniciantes, vídeos dão conta de demonstrar um passo a passo da execução de cada exercício.
Além de anônimos em busca de praticidade e personal trainers, a tecnologia de Brasília tem chegado a profissionais da saúde e atletas de alto rendimento. A Rede Sarah usa, há cerca de dois meses, o equipamento para reabilitação de pacientes na fisioterapia. Como a incorporação do E-lastic ainda está em fase experimental, a instituição não comenta o uso.
“Às vezes, o profissional receita dez sessões de fisioterapia, mas não tem como medir se o paciente está pronto para a alta ou não”, explica Fernanda. Hoje, a maior parte das vendas é justamente para clínicas de reabilitação.
Segundo Fernanda, 18 estados já receberam pelo menos uma unidade da “maquininha” desenvolvida na UnB, o que ela considera “franca expansão” do empreendimento, que mal completou seis meses. O E-lastic é apenas um dos produtos da empresa incubada. Outros já estão em desenvolvimento, todos com a proposta de unir tecnologia e melhorias à saúde. Um deles tem sido testado na psicoterapia, no tratamento de alguns tipos de traumas.
Para atletas, a tecnologia portátil também tem sido útil como treino acessório de fortalecimento ou para garantir a mesma intensidade do centro de treinamento em viagens ou competições. Em Brasília, o competidor de CrossFit Gustavo Aranha, de 31 anos, aderiu ao medidor antes mesmo que ele ganhasse o mercado. Foi, inclusive, sugerindo e testando ajustes enquanto ele era afinado. “O esporte tem a parte de impacto e a de fortalecimento e de prevenção de lesão. Ele me ajuda nessa última etapa”, comenta.
O atleta treina entre sete e oito vezes por semana, de três a quatro horas por dia. Quando não está levantando barras ou pulando caixas no box de treinamento, usa os elásticos para ajustar movimentos. “Como ele mede força, é bom para identificar assimetrias musculares. Assim, posso treinar um ou outro lado, por exemplo, de acordo com a necessidade”, comenta.













