Projeto da Microsoft incentiva garotas a programar
Mulheres representam apenas 20% dos profissionais do mercado de TI
atualizado
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Acostumadas a desenvolver produtos e soluções tecnológicas com o objetivo de resolver problemas e facilitar a vida das pessoas, corporações e governo, as empresas de TI ainda convivem com um fato que insiste em não mudar: a predominância de gênero que circunda os profissionais do segmento. A baixa adesão de mulheres na área é uma questão que pode ser refletida com um rápido passeio nos escritórios do setor.
De acordo com dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), dos mais de 580 mil profissionais de TI que atuam no Brasil, apenas 20% são do sexo feminino. Com o ambiente de trabalho dominado por homens, não são raros os relatos de comportamentos machistas e pouco apropriados para um mercado tão moderno.
Para estimular uma mudança, a Microsoft Brasil lançou a campanha “Eu Posso Programar para Meninas“, que convoca garotas a aprenderem a linguagem de código de uma maneira lúdica e divertida, um pontapé inicial para quem deseja atuar no mercado de TI. O projeto conta com a parceria de 15 ONGs que atuam em diferentes frentes como educação, cultura e tecnologia.
As organizações irão impulsionar a divulgação do programa e ficarão responsáveis por organizar turmas para aulas na plataforma virtual. As participantes irão aprender os exercícios básicos com ambientação no jogo Minecraft e no filme de animação Frozen. O objetivo é que o aprendizado seja intuitivo e agradável.
Além das internautas que acessam o site, o projeto já alcançou 3,4 mil alunas presencias. Após a conclusão das aulas, elas recebem um certificado validado pela Code.org e pela Microsoft.

De acordo com a diretora de Comunicação & Cidadania Corporativa da Microsoft Brasil, Kátia Gianone, o objetivo principal da iniciativa é proporcionar conhecimento técnico para jovens mulheres, dando-lhes uma base para se tornarem desenvolvedoras de soluções aplicáveis em diferentes contextos, tanto de negócios quanto sociais, com o objetivo de criar oportunidades de empregabilidade e empreendedorismo. “A ação é importante no sentido de buscar mais espaço para as mulheres nesse mercado de trabalho. Queremos viralizar a campanha nas redes sociais para que as jovens passem de usuárias da tecnologia para criadores de tecnologia”, conclui.
Luta por mais espaço
Cynthia Zanoni, que ocupa o cargo de Evangelista Técnica na Microsoft Brasil, posição que envolve desenvolvimento de software e educação, lembra que o início da carreira não foi nada fácil. “Quando comecei, me deparei com situações de preconceito, unindo o fato de ser mulher e morar no interior”, explica. “As maiores dificuldades para nós são a falta de reconhecimento, de oportunidade de crescimento e a forma com que nossas habilidades são colocadas à prova, de forma incisiva e não construtiva”, descreve. A jovem de 25 anos ainda salienta que a forte desigualdade salarial desestimula, mas que não ocorre em 100% das empresas.
Ainda que sejam, na média, mais instruídas que os homens, as profissionais do ramo no Brasil ganham 30% a menos do que eles, segundo dados da PNAD. O país caiu nove posições no Índice Global de Desigualdades de Gênero de 2014 – de 62º para 71º
A gerente de projetos ATN e Techsoup Brasil, Talita Viana, de 31 anos, também foi alvo de preconceito por ser formada em TI. “Além das várias piadinhas, ouvi pessoas falarem que aquele curso não era para mim, que mulher não servia para essa área”, conta. “Quando fui professora de informática, muitos homens se assustavam por eu ter um bom conhecimento em algumas ferramentas, principalmente em Excel. Já tive colaboradores que não gostavam de se reportar a mim ou me passar informações sobre os projetos no qual estavam inseridos. Nunca foi explícito, mas eu sempre percebi”, finaliza.
Além da falta de incentivo, o baixo interesse delas pelos cargos de TI também está ligado a fatores educacionais. Segundo a psicóloga Vânia Urbano, a forma diferenciada com que meninos e meninas são criados interfere na escolha da profissão. “Meninos são incentivados desde cedo a jogarem joguinhos digitalizados e a pensarem racionalmente, por isso, o interesse nas áreas de exatas, como tecnologia. Já as meninas, acostumadas a brincar de boneca, tendem a seguir profissões mais humanizadas”, explica. “O preconceito acontece quando os padrões pré-determinados por gerações são quebrados. Uma mulher que trabalha na área de TI sofre o mesmo preconceito que um homem bailarino. Os padrões de gênero estão enraizados em nossa sociedade e levará tempo para conseguirmos nos desvincular deles”, afirma.
No Brasil, a participação delas no mercado nem sempre foi baixa. Em 1974, na primeira turma de computação do Instituto Militar de Engenharia, localizado no Rio de Janeiro, 70% dos estudantes eram mulheres. Com a proliferação de PCs, o cenário mudou. O curso, que era fortemente ligado ao secretariado, passou a ser dominado pelos homens por ser a porta de entrada do negócio que se tornou bilionário a partir da década de 1980.
Quando a problemática vem à tona, nomes como Meg Whitman, presidente da HP; Marissa Mayer, CEO do Yahoo!; e Susan Wojcicki, diretora executiva do Youtube, são lembrados para minimizar a gravidade da situação. É importante ressaltar que elas são exceções. Dados do S&P 100, o ranking das maiores empresas do mundo compilado pela agência de risco Standard & Poor’s, informam que menos de 32% dos cargos são comandados por mulheres em empresas como Google, Facebook, Apple e Twitter. Os números comprovam que a luta pela inserção das mulheres no mercado de TI encontra-se, de fato, menos adiantada que em outros setores do mercado.

