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Caso Johnatha completa 10 anos sem solução e com gosto de “injustiça”

Johnatha de Oliveira Lima tinha 19 anos quando foi morto a tiros enquanto voltava para casa após levar uma travessa de pavê para a avó

atualizado

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Tomaz Silva/Agência Brasil
Imagem colorida de protestos em frente ao tribunal que julgava o autor dos disparos que mataram Johnatha - Metrópoles
1 de 1 Imagem colorida de protestos em frente ao tribunal que julgava o autor dos disparos que mataram Johnatha - Metrópoles - Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

Johnatha de Oliveira Lima tinha 19 anos quando foi morto com um tiro nas costas durante uma operação policial da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) de Manguinhos, na zona norte do Rio de Janeiro. O jovem retornava a pé para casa após visitar a avó.

O jovem foi morto enquanto voltava para casa após levar uma travessa de pavê para a avó. Depois de ser baleado nas costas, ele foi encaminhado à Unidade de Pronto Atendimento (UPA) da região, não resistiu aos ferimentos e morreu no local.

A morte de Johnatha está entre vários casos em que a letalidade policial resultou no homicídio de jovens negros no Brasil e completa 10 anos nesta terça-feira (14/5), em meio a um processo judicial regado por questionamentos e críticas de familiares enlutados.

Ao Metrópoles, Ana Paula Oliveira, mãe de Johnatha e fundadora do grupo Mães de Manguinhos, diz que pretende dar fim à impunidade policial que alimenta e permite outros homicídios contra jovens.

“Me dói imaginar que muitos policiais estão por aí, cometendo crimes, porque sabem como é o agir da Justiça”. “A polícia parar de matar é garantir a vida de outros jovens, como a do meu filho, que amava a vida. É garantir também que outras mães moradoras de favela, assim como eu, possam ter o direito de conviver com seus filhos. Esse é meu maior desejo”, compartilha.

A perda do filho motivou Ana Paula a criar o grupo Mães de Manguinhos, ao lado de Fátima Pinho, que também teve o filho assassinado. A dupla passou a acolher outras vítimas e a cobrar autoridades sobre crimes cometidos por agentes de segurança pública.

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10 anos sem Johnatha

Diversos eventos em memória a Johnatha estão marcados para o próximo sábado (18/5), em Manguinhos. Intitulada de “10º Levante Antirracista”, a ação é desenvolvida pelo grupo Mães de Manguinhos.

Às 9h vai ocorrer uma missa na Paróquia Santa Bernadete, celebrada pelo padre Gegê. Na sequência, às 12h, está marcada uma apresentação cultural com Pac’stão, no Campo Society, em Manguinhos.

“Fui condenada no dia em que assassinaram o meu filho”, afirma. “Eu e minha família fomos condenados a viver o resto das nossas vidas sem o Johnatha, sem tudo o que ele representa para a gente, sem a alegria, a luz, os abraços e o sorriso dele”, desabafa.

Imagem colorida de cartaz com programação dos 10 anos sem Johnatha - Metrópoles
Evento de 10 anos em memória de Johnatha

O dia do assassinato de Johnatha pelos olhos de Ana Paula

Por volta das 16h do dia 14 de maio de 2014, uma quarta-feira

  • Johnatha estava no quarto com a namorada
  • “Nosso último momento foi na cozinha”. Ele entra no cômodo, abraça e dá um beijo na mãe. Johnatha brinca e pede para a mãe dar uma moral nos pratos sujos dele
  • Ana Paula elogia o perfume do filho, que diz que vai deixar a namorada em casa
  • Ela pede que Johnatha leve uma travessa com pavê para a avó no caminho, que fica no mesmo bairro
  • Minutos depois, Ana Paula sai de casa para ir até o mercadinho do bairro
  • Já no mercado, ela escuta sons de tiros e uma agitação ocorre nos arredores, viaturas passam e pessoas correm
  • No caixa com as compras, Ana Paula recebe uma ligação da irmã dizendo que Johnatha tinha “sofrido um acidente” e combinou das duas se encontrarem na UPA
  • Na saída, ela encontra a avó paterna do filho desesperada, que afirma: “O Johnatha levou um tiro, a polícia atirou no Johnatha”
  • Ana Paula vê duas viaturas estacionadas em frente a UPA, bem como um grupo de vizinhos, amigos e familiares dentro da unidade
  • Ao entrar, o cunhado informa que Johnatha não resistiu aos ferimentos e morreu
  • Os familiares registram um boletim de ocorrência logo após o crime
  • Ana Paula volta para casa, na expectativa do filho entrar pela porta, sem acreditar que ele havia sido morto

“No fim, o Johnatha não voltou mais para casa. Eu tive que me despedir do meu filho no dia seguinte, 15 de maio. Eu tive que ver meu filho dentro de um caixão, coisa que nunca tinha imaginado”, desabafa a mãe.

O julgamento do caso

Em março deste ano, o 3º Tribunal do Júri da Capital, da Justiça do Rio de Janeiro, decidiu condenar o policial militar Marcelino de Souza por homicídio culposo, quando não há intenção de matar. Essa decisão é vista como “injusta” pela família.

Souza é acusado de ser o autor dos disparos que mataram Johnatha durante a operação policial na UPP de Manguinhos.

O júri rejeitou a denúncia do Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ) de homicídio doloso — quando há intenção de matar — e, com isso, o crime passa a ser julgado no Tribunal Militar, que também decide a pena do policial. Ainda cabe recurso contra a decisão.

Ana Paula vê a condenação do PM como “totalmente injusta” e um “deboche” com a dor de todos que lutam por justiça no caso.

“Para mim esse resultado da Justiça foi um deboche com a minha dor, com a dor da minha família, com a dor dos nossos vizinhos que sofreram e viram o Johnatha na minha barriga e crescer”, diz. “[Foi um deboche] para toda a sociedade de um país que se diz democrático e também para tantas outras mães que, assim como eu, tiveram seus filhos assassinados pela polícia”, completa.

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