Contra o preconceito: casal trans retrata rotina com bebê em rede social

Com mais de 250 mil seguidores no Instagram, Cleyton Bitencourt e Fabiana Santos realizaram sonho antigo e gestaram Álex, de 6 meses

atualizado 08/10/2021 21:37

Aline Massuca/Metrópoles

Rio de Janeiro – O casal de influencers trans Cleyton Bitencourt, 26 anos, e Fabiana Santos, 29, soma mais de 250 mil seguidores no Instagram. O rapaz é considerado um dos 20 maiores influenciadores transgênero do Brasil e impressionou após dar à luz a filha do casal, Álex, de 6 meses. Na internet, os dois buscam quebrar barreiras impostas por estigmatização e preconceito e mostrar que, sim, um homem trans, como Cleyton, pode realizar o sonho de gerar uma criança, e um casal trans pode e deve viver longe de estereótipos construídos socialmente.

Em entrevista ao Metrópoles, Cleyton contou que conheceu Fabi nas redes sociais e, após conversarem por Instagram e WhatsApp, marcaram um encontro. Eles estão juntos há dois anos e moram no Rio de Janeiro. Ao longo do tempo, amadureceram a ideia de ficar “grávidos“, um sonho de Cleyton.

“Eu sempre tive o sonho de gerar uma criança, bem antes de me assumir – quando eu era uma mulher cis. Conforme o tempo foi passando e fui me redescobrindo, esse sonho não mudou. Não deixei de lado, fui carregando comigo. Nisso, quando conheci a Fabiana, eu conversei com ela sobre a possibilidade da gente ter um filho, porque eu tinha esse sonho”, contou o pai.

“Então, entramos em um acordo, porque tínhamos que fazer outras coisas para conseguir engravidar, como parar a hormonização. Ficamos seis meses sem fazer e conseguimos a gestação”.

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Cleyton explicou que o casal escolheu o nome da bebê antes de descobrir o sexo biológico. “Foi quando a gente bateu o martelo de que queria engravidar que começamos a escolha do nome. Pensamos: ‘Poxa, já que a gente não sabe se será uma menina ou menino, a gente escolhe um nome neutro’. Não tínhamos nem começado as tentativas de gestação e vínhamos conversando sobre isso”.

O rapaz teve uma gravidez normal e chegou a amamentar a bebê no primeiro mês de vida. Mas a produção de leite diminuiu e, depois, cessou. Com isso, hoje a pequena se alimenta por fórmula, uma espécie de leite artificial. Como a menina não depende mais totalmente do pai, tanto Cleyton quanto Fabiana cuidam 100% da criança individualmente.

“Os dois podem fazer absolutamente tudo. A gente divide as tarefas em casa e cada um faz um pouquinho, para não pesar para ninguém. Assim, conseguimos conciliar tudo”, reforça Cleyton.

Influencer mirim

Foi no começo da gravidez que Cleyton e Fabi recorreram às redes sociais e viraram influenceres. Com a pandemia da Covid-19, o rapaz foi demitido da empresa onde trabalhava como auxiliar administrativo, enquanto ela fechou o salão de beleza onde atuava como cabeleireira. A ideia inicial era mostrar a gestação de Álex e a rotina do casal, mas o Instagram se tornou a fonte de renda deles.

“Nós começamos, na verdade, com a intenção de mostrar o mundo de famílias transafetivas, mostrar que existimos. Mas aí, com o tempo, tudo foi tomando uma direção que a gente não esperava, mas agarramos a oportunidade. Foi do nada, mas deu bom, né?”, brincou.

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Com o tempo, o casal passou a chamar a atenção de marcas e firmou “publis” com empresas de brinquedos e produtos de higiene, por exemplo. Mas a estrela é a pequena Álex, que tem um contrato fixo com a marca de fraldas Pampers por 13 meses e virou uma influencer mirim.

(Falta de) conhecimento

Cleyton contou ao Metrópoles que, por volta dos 18 anos, começou a não se sentir à vontade como mulher. Não queria mais vestir roupas femininas e ser chamado pelo então nome. Diante disso, assumiu-se lésbica, por entender que, desta forma, ficaria melhor. Com o passar do tempo, sentiu que ainda faltava algo. Foi quando descobriu que existiam pessoas transgênero (aquelas que se identificam com um gênero diferente que o de nascimento) e começou a pesquisar mais sobre. Era algo até então desconhecido para Cleyton.

“A única forma que eu conseguia me sentir bem era vestindo uma roupa masculina e me rotulando como lésbica. Mas aí, com o passar do tempo, continuei não me sentindo confortável com o fato de ainda fazer parte do mundo feminino. Foi aí que descobri pessoas transgênero. Me identifiquei e procurei a ajuda de um psicólogo para poder me entender melhor, porque foi uma confusão enorme”, disse.

O influencer ressaltou que, assim como ele, muitas pessoas desconhecem a letra T da sigla LGBTQIA+, principalmente pela falta de debates sobre o assunto nas escolas. Isso incita comentários deturpados sobre esta comunidade, muitas vezes motivados pela ignorância em relação ao tema. Para Cleyton, o trabalho dele e de Fabi nas redes sociais ajuda pessoas a se informarem melhor e entenderem as particularidades de pessoas transgênero.

“90% do nosso público são mulheres que dizem que gostam muito da nossa família e não entendiam sobre pessoas transgêneros. Hoje, elas conseguem compreender e falam comigo que, antigamente, nunca imaginariam um homem trans gerando um filho e tudo mais. A gente recebe muito essas mensagens e conseguimos esclarecer muito do que as pessoas não sabiam antes”, afirmou.

Por outro lado, os ataques e xingamentos preconceituosos também surgem, mas não desestabilizam Cleyton e Fabi. Unidos, eles tentam exercer um papel pedagógico, com explicações a respeito de transgeneridade.

“Recebemos (mensagens negativas), mas é minoria. Costumamos conversar com essas pessoas e mostrar nossa realidade, para elas tentarem entender. Muita gente realmente é preconceituosa e tudo mais, mas vemos que existem pessoas, que, na verdade, são ignorantes, não entendem absolutamente nada do assunto. Aí quando você vai e conversa, a pessoa entende”, explicou.

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